A melhor prenda que poderiam receber varia entre ter saúde, um emprego e uma habitação social

 

Naquela noite e naquele espaço todos os presentes estiveram em pé de igualdade. Por momentos, esqueceram todos os dissabores que têm marcado as suas vidas e sentaram-se todos à mesma mesa para uma Ceia de Natal. Toda a refeição – o tradicional bacalhau com batatas, ovo, couve e cenoura cozida, seguido do bolo rei e de um Pai Natal de Chocolate – foi patrocinada pelo Continente e confecionada pelas funcionárias da cantina da Academia de Design e Calçado, local onde foi servida pelos voluntários do Centro Humanitário da Cruz Vermelha de S. João da Madeira no dia 20 de dezembro.

Entre as mais de 100 pessoas presentes estiveram pessoas sem-abrigo, a viverem em quarto de pensão e com algumas histórias complicadas e de grande vulnerabilidade pessoal e económica. Todas elas acompanhadas pelo Centro Humanitário da Cruz Vermelha e pelas restantes instituições da Rede Social de S. João da Madeira. O labor esteve à conversa com duas das mais de 100 pessoas presentes na Ceia da Natal, para quem a comida estava muito boa e soube bem, mas as preocupações continuam e não permitem a nenhuma delas viver em vez de sobreviver.

Uma das pessoas com quem falámos foi Rosa Silva, de 60 anos, natural de S. João da Madeira, que está desempregada há dois anos depois de ter trabalhado nos setores do calçado e das limpezas. “Até agora não consegui trabalho e com a minha idade é difícil”, admitiu esta sanjoanense que mora sozinha depois das filhas já terem seguido “a vida delas”.

Esta foi a segunda vez que Rosa Silva esteve presente nesta Ceia de Natal a convite da Associação de Jovens Ecos Urbanos que a ajuda ao longo do mês ao nível da alimentação ou de outras despesas a que não consiga, por vezes, fazer face como a medicação. De forma simples e honesta, mas quanto baste acanhada, Rosa Silva assumiu que atualmente viver sem este apoio seria difícil. “A gente recebe tão ´pouquinho´. Antes de estar desempregada não precisava deste apoio da associação. Custou-me muito ter de pedir ajuda à associação, nunca pensei que fosse precisar destes apoios no ´fim da minha vida´. Fui sempre muito independente, mas agora é um bocado difícil”, confessou a sanjoanense ao labor.

A melhor prenda que poderia receber nesta época natalícia e de transição entre o ano velho e o novo era “em primeiro sempre a saúde e depois um trabalho”.

Também Delfim Gomes, de 60 anos, natural de S. João da Madeira, serralheiro mecânico reformado por invalidez, esteve presente na ceia pela segunda vez e a convite da Associação de Jovens Ecos Urbanos que o apoioaao nível da alimentação.

Mal tinha acabado a ceia, só conseguia falar dos problemas que sabia que tinha de enfrentar mais dia menos dia. “A minha esposa tem problemas de saúde, o que ganho dá para a renda e estou em risco de ser despejado desde abril. Não sei o que vai ser de mim”, disse Delfim Gomes, lamentando já ter pedido uma habitação social há oito anos, mas continuar sem uma resposta por parte do Município. A melhor prenda que poderia receber nesta época era “saúde para trabalhar e uma casa”, concluiu o sanjoanense ao labor.

Há pessoas que às vezes só fazem uma refeição por dia

Para Joana Correia, diretora do Centro Humanitário da Cruz Vermelha, é “sempre bom saber que podemos dar uma refeição a pessoas que às vezes só o fazem uma vez por dia” e “com a maior dignidade possível”. A realização desta Ceia de Natal apenas voltou a ser possível com a cedência do espaço e apoio dos funcionários da Academia de Design e Calçado e de todos os produtos por parte do Continente. Entre os voluntários da Cruz Vermelha estiveram três do Corpo Europeu de Solidariedade. A Ceia de Natal também contou com a visita de Jorge Sequeira, presidente da câmara municipal sanjoanense.

“A minha presença foi um sinal de apoio ao trabalho humanitário desenvolvido pela Cruz Vermelha e é uma manifestação de solidariedade da Câmara às famílias de refugiados que encontraram em S. João da Madeira um abrigo seguro”, disse Jorge Sequeira, considerando que “S. João da Madeira assume-se como uma sociedade solidária e acolhedora, dando apoio a sete famílias o que é profundamente significativo para a nossa comunidade”.

Cruz Vermelha acompanha seis famílias da Síria e Sudão

À semelhança das aceias anteriores, algumas das famílias de refugiados acolhidas por instituições sanjoanenses estiveram presentes na Ceia de Natal. Só o Centro Humanitário da Cruz Vermelha acompanha seis famílias da Síria e do Sudão que estão a viver em S. João da Madeira. Uma das famílias sírias chegou sábado passado à cidade sanjoanense. O Município também acompanha duas famílias de refugiados da Síria.

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