O labor foi conversar com um polícia, um porteiro do Hospital, o farmacêutico de serviço e com um Bombeiro Voluntário 

Polícia de Segurança Pública

“Eles já estão habituados, mas custa sempre” 

DF

António Cardoso tem 50 anos, é natural de Viseu e é agente da Polícia de Segurança Pública na Esquadra de S. João da Madeira desde 1997. Antes, estagiou durante dois anos em Aveiro e esteve ao serviço durante dois anos e meio em Lisboa.

Em quase 30 anos de serviço já perdeu conta ao número de vezes em que trabalhou no dia 31 de dezembro.

Este ano entrou às 16h00 do dia 31 de dezembro de 2019 e saiu às 00h00 do dia 1 de janeiro de 2020. Pelo meio, todo o expediente ao serviço jantou junto na esquadra sanjoanense.

“Eles (familiares) já estão habituados, já tiraram o curso por assim dizer, mas custa sempre”, assumiu António Cardoso.

“Se não trabalhasse era lá que estaria (em Viseu) com a restante família e vamos falhar essa parte, mas temos de minimizar com telefonemas de última hora e depois vamos ter de chegar ao pé deles num novo ano”, revelou o agente ao labor.

António Cardoso é um dos efetivos destacados para o carro de patrulha e, por isso, é normal passar a maior parte do tempo de serviço sempre na rua.

“Estamos a responder a ocorrências para onde somos solicitados, do mais variado possível que se possa imaginar e fazemos o patrulhamento normal de visibilidade por assim dizer”, explicou António Cardoso ao labor.

Entre os tipos de ocorrências mais frequentes a que são chamados estão o ruído, os acidentes, a má vizinhança, a violência doméstica, a nível de trânsito, como  regularizar o trânsito, e de multas.

“Tem a ver com a contingência de falta de pessoal que se verifica de uma forma geral”

Por norma estão dois agentes no carro patrulha, um número que pode ser insuficiente para certas e determinadas ocorrências, mas  “isso já tem a ver com a contingência de falta de pessoal que se verifica de uma forma geral”, afirmou António Cardoso. Esses agentes “às vezes são suficientes. Depende da complicação da ocorrência. É complicado, mas temos de gerir com o que há”, considerou o agente da PSP ao labor.

Após tantos anos de serviço “tenho algumas desilusões, o que é transversal a todas as profissões”, mas no final “vale a pena” ser polícia, admitiu o agente Cardoso.

À parte as desilusões, “temos de contar com algum gosto pessoal” para desempenharmos a nossa profissão e “gosto de ser polícia”. Para o ano de 2020 o seu desejo foi simples, mas universal. “Tudo de bom para todos”, concluiu António Cardoso ao labor.

Número de Ocorrências

0 nos dias 31 de dezembro de 2019 e 1 de janeiro de 2020 relacionadas com as festividades

 

Hospital de S. João da Madeira

“A passagem de ano não é tão problemática como o Natal” 

DF

Nélson Ferreira, tem 54 anos, é natural de Nogueira da Regedoura, trabalha na portaria do Hospital de S. João da Madeira há quatro anos e pela primeira vez esteve ao serviço na noite de 31 de dezembro.

“Trabalhei no dia 24 até às 22h00, mas não foi difícil porque às 22h30 já estava com a minha família. Fizemos uma ´vaquinha´ entre todos e no dia de Natal o Hospital ofereceu a ceia. À hora que saí já tínhamos feito a ceia”, contou Nélson Ferreira que no dia 31 de dezembro de 2019 entrou às 22h00 e saiu às 8h00 do dia 1 de janeiro de 2020. Na noite de passagem de ano, o pessoal que esteve ao serviço no hospital sanjoanense voltou a juntar dinheiro e comprou algo para comer ao longo da noite.

Como esta foi a primeira vez que Nélson Ferreira trabalhou na noite de passagem de ano, não conseguiu responder de que forma é que lidaria com o estar ao serviço numa noite em que é passada junto de família e amigos. Mas ao seu lado estava Vítor Barata, de 49 anos, natural de S. João da Madeira, também ele porteiro do Hospital há 12 anos, que estava a fazer a troca de turno com Nélson Ferreira, e que por já ter trabalhado seis vezes consecutivas nesta noite decidiu responder por ele. “É assim…não estar com a família é complicado. Claro que recebemos uma chamada, a minha família mora perto e passa cá para dar um beijinho, mas custa muito. Só quem passa por elas, mas acho que a passagem de ano não é tão problemática como o Natal”, confessou ao labor.

“Os excessos não são só de bebida, mas também da alimentação”

Por norma, “a primeira parte da noite é calma. A segunda parte da noite, ou seja, quatro, quatro e meia da manhã e a partir daí é que costuma ser mais complicado com muitas pessoas a saírem da festança e a chegarem com excesso de álcool”, contou Vítor Barata, esclarecendo que com isto “não quer dizer que durante a noite não apareçam casos de doença. Os excessos não são só de bebida, mas também da alimentação”. Aliás, não é por acaso que “na primeira parte da noite costumam aparecer pessoas enfartadas, maldispostas, com vómitos, entre outras coisas”.

Independentemente das épocas festivas, estes profissionais que estão na portaria do Hospital lidam constantemente com pessoas, doentes ou acompanhantes, que devido às circunstâncias em que se encontram estão “impacientes”. Nesses casos, “em primeiro lugar tentamos apaziguar a pessoa”, disse Vítor Barata, e “no fundo gerimos conflitos. Até a nossa maior função é evitar problemas e gerir conflitos”, completou Nélson Ferreira.

Entre os desejos para 2020 destes dois funconários estão que este novo ano “seja melhor do que 2019 em todos os aspetos e não nos traga grandes conflitos”.

Número de Admissões

93 no dia 31 de dezembro de 2019

103 no dia 1 de janeiro de 2020

 

Farmácia (de serviço) Lamar

“O pós-festa é sempre pior e muito mais complicado” 

DF

André Silva tem 34 anos, é natural de Arrifana e foi o farmacêutico que esteve de serviço na noite de passagem de ano na Farmácia Lamar.

Em 11 de anos de serviço nesta farmácia sanjoanense, esta foi a segunda vez que trabalhou de 31 de dezembro para 1 de janeiro, mas também já trabalhou nos dias 24 e 25 de dezembro.

“Já fiz todos eles. Eles são todos diferentes. Os mais complicados são os dias 25 de dezembro e o 1 de janeiro. O pós-festa é sempre pior e muito mais complicado por todas as razões e mais algumas. No dia da festa não há doença nenhuma, mas no pós-festa há várias”, afirmou André Silva ao labor.

No dia 31 de dezembro a Farmácia Lamar esteve aberta até cerca das sete da tarde, hora a que o Centro Comercial encerrou.  “A partir dessa hora também a afluência é muitíssimo menor e será feito o atendimento pela porta de serviço, vulgo ´postigo´, sem problema nenhum até às 8h30 do dia 1 de janeiro”, adiantou o farmacêutico.

Nesse dia André Silva trabalhou durante a manhã e depois voltou às 23h00. “O habitual é às 22h00, mas como é um dia festivo entro uma hora depois”, explicou o farmacêutico ao labor.

“O dia 31 só tem um problema em relação aos restantes que é como é fecho de mês, fecho de ano e início de ano, os procedimentos internos da farmácia requerem muito tempo, ou seja, posso não ter ninguém para atender, mas tenho garantidamente trabalho só de secretária, como se costuma dizer, para umas três ou quatro horas. É tudo junto”, explicou André Silva.

Por norma, “no dia 31 não há muita afluência, mas o dia seguinte, 1 de janeiro, sim”, assegurou o farmacêutico. Um dos seus atendimentos mais marcantes aconteceu precisamente no primeiro dia do ano. “Lembro-me de no ano em que estive de serviço no dia 1 de janeiro chegar cá à farmácia às 8h30 e tinha um senhor com um carro a dizer ´casados de fresco´ e estava desesperado para que eu chegasse porque a recém-esposa estava num estado bastante mau”, mas digamos que “o casamento e passagem de ano justificavam o estado”, relembrou André Silva ao labor.

De resto, os atendimentos são “muito pontuais” como indisposições, enfartamento, estado febril e “é uma verdadeira urgência no sentido de estar doente, vai ao médico e vai à farmácia. Por norma, acaba por ser uma noite calma”.

“Claro que é muito melhor estarmos com a família ou com os amigos”

Em relação ao ter de trabalhar na noite de passagem de ano “é assim não vou ser hipócrita e dizer que gosto. Claro que é muito melhor estarmos com a família ou com os amigos, mas também já sabemos de antemão, quando abraçamos o curso e quando escolhemos farmácia comunitária, e no caso uma farmácia que adere à escala de serviço, que não há dias de férias, feriados ou festivos”, salientou o farmacêutico, esclarecendo que “estou a fazer aquilo para que sou pago, que gosto, portanto não o faço contrariado de todo. Aliás não me imagino a fazer outra coisa”.

Para além disso, “por norma, nesses dias as pessoas até são bem mais cordiais e pensam assim: estava em casa no quentinho, vim para qui, mas estes estão a trabalhar”, considerou André Silva.

“Paz, muita saúde, já agora, e amor que acho que é muito importante e que há muita falta de amor e de respeito pelo próximo” são os desejos para este  novo ano de 2020 do farmacêutico que os revelou em primeira mão ao labor.

Número de Ocorrências

516 atendimentos no dia 31 de dezembro de 2019

11 dos quais das 23h00 até às 24h00

13 atendimentos das 00h00 às 8h30 no dia 1 de janeiro de 2020

“Ao contrário do que esperávamos, houve muito serviço das 19h00 às 24h00, o que escapou ao padrão”, confessou André Silva ao labor

 

Bombeiros Voluntários

É “um bocado difícil conciliar o voluntariado com o trabalho” 

DF

Luís Melo tem 47 anos, é natural de Cesar, metalurgico por conta própria e Bombeiro Voluntário de S. João da Madeira desde os 17 anos.

“O meu pai era bombeiro, o meu tio era bombeiro. Já tinha o destino traçado e vinha com eles para o quartel antigo desde pequenino”, acredita Luís Melo, admitindo que é “um bocado difícil conciliar o voluntariado com o trabalho. Por vezes tenho de deixar os meus clientes e a minha família”. E no dia 31 de dezembro, entrou às 21h00, e foi precisamente um desses dias. Quando o labor chegou ao quartel operacional dos Bombeiros Voluntários de S. João da Madeira na Zona Industrial das Travessas, o subchefe Luís Melo já estava acompanhado de mais seis elementos da corporação na sala onde tudo acontece, desde a chamada até ao destacamento dos “soldados da paz” para as mais diversas ocorrências naquela noite em específico e nos restantes dias.

“Não fiz muitas passagens de ano, mas já fiz algumas e até o Natal. Jantei com a família às sete menos um quarto, estivemos  juntos um boacadinho e se calhar ainda vêm aí daqui a um bocado. Assim como a dos colegas por volta da meia noite”, contou Luís Melo cuja mulher também é bombeira, na corporação de Arrifana, pelo que este tipo de “sacrifício” da vida pessoal pela proteção e segurança dos outros não é “algo de novo” para eles que acabam por ser e descenderem de famílias ligadas aos bombeiros.

“Na maior parte das vezes é por excesso de álcool”

Para o subchefe dos bombeiros, “o dia 1 é mais complicado por ser o pós-festa e uma noite de excessos. É mais por ser isso”.

O turno que iniciou foi de 24 horas pelo que apenas saiu às 21h00 do dia 1 de janeiro para junto da família. “Lá para as duas ou três da manhã vamos à camarata para pudermos descansar” até àquela que costuma ser a hora em que há mais ocorrências que é “a partir das quatro ou cinco da manhã, mas às vezes é mais cedo. Na maior parte das vezes é por excesso de álcool. De resto também pode existir uma ou outra doença súbita ou o comer mais um bocadito”, recordou o subchefe dos bombeiros com base nas experiências vividas em outros anos ao labor.

Apesar de dar de si sem ganhar nada em troca “vale a pena”. “É sempre um pouco de nós que damos aos outros. Agora cada vez é mais difícil porque a conjuntura é diferente”, admitiu Luís Melo, indicando que um dos problemas poderá estar “na escolaridade mínima obrigatória de 12º ano. Acho que o nono ano era suficiente porque há pessoas com essa escolaridade que se fossem bem aproveitadas podiam dar bons bombeiros”. Um outro problema está no facto de “o pessoal não querer trabalhar de graça. O que me pagam é o almoço e o jantar”, considerou o subchefe dos bombeiros, antevendo um aumento da dificuldade em encontrar voluntários não só para os bombeiros, mas também para outras associações.

Em relação ao ano de 2020 “que seja melhor que 2019” e “com muita saúde, muita paz ,isso é que interessa, e motivação”, pediu Luís Melo depois de questionado pelo labor.

Número de Ocorrências

2 no dia 31 de dezembro de 2019

18 no dia 1 de janeiro de 2020

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