No âmbito do Plano Nacional das Artes, este agrupamento de escolas recebeu no dia 9 de janeiro a apresentação performativa da sua obra e recorreu às suas palavras para descrever este momento:

“Estou tão grato que nem imaginam. Não podem imaginar. Duas fileiras compridíssimas, pessoas de todas as idades, esperavam-me à porta. Desenhavam um corredor humano, olhares certeiros, sorrisos mansos, afecto e respeito. De vez em quando um elemento saía da fila para me dar umas palavras. E era uma frase, um verso meu, e outro e outro, estampados numa tira colorida. Ou uma maçã, uma concha, um cesto de verga com rosas bravas, um pássaro de papel. Alunos, professores, vereadores, colaboradores, amigos, todos tinham conseguido roubar à sua saturada agenda uma manhã para celebrar aquilo que eu, reparem, eu, um escritor vagamente assumido, tenho dado ao mundo. Senti a barragem quase a desmoronar, não queria deixar passar as lágrimas que esgrimem a pose mas a comoção era visível. Entramos no anfiteatro e todos se sentam. Os alunos, de vários anos, lêem textos, a solo e em grupo, com ritmo, com pausas, coreografias, vozes em harmonias, e fazem reflexões e perguntas inquietas, entre meiguices, matreirices e ironias, e eu respondo com a vontade em modo lento, tenho o motor de arranque ainda perro, porque de repente estava a saber-me tão bem receber, receber! Custou-me a articular as respostas, pareciam-me sem sal quando deitadas ao mesmo tacho que as entoações, as vozes e as presenças… aquela gente tão viva e entusiasta. E depois de tão vasto e doce bolo, uma pequena e redonda e perfeita cereja carmim. Na verdade são três e todas adolescentes, a debitar um poema meu, de métrica francamente complexa, todo adaptado para canto, ao som de uma melodia africana. A sala ficou sem fôlego. Como se perguntássemos: O que acabou de acontecer? Até explodir em palmas. Finalmente foi-me pedido um texto de fecho e escolhi uma passagem do livro Bizz Dizz, irreverente e bem disposta, que não deixa de pôr o dedo na ferida. A que distância estamos uns dos outros?  Por pressão da nossa civilização, a que distância já estamos da nossa natureza? Procurar as origens é o caminho para a originalidade. Descascar e esgravatar até às fundações, onde com mais clareza se pode ver:  o que é ser humano.  Depois as cerejas repetiram o canto e entre todos houve muitos abraços finais, longos e saborosos. Eu reservei o mais graúdo para a grande arquitecta daquela bolha no tempo, a desmesurada Professora Cristina Marques, que me trouxe pela mão até onde ainda nem sei. Para mim foi um crescimento, enquanto pessoa e enquanto escritor. Um crescimento em gratidão, em humildade, em confiança. Em comunhão. Um marco na minha vida. Penso que, dizendo isto, não preciso dizer mais.

Os mais crescidos tinham transformado a manhã numa pérola. Sabiam o que fazer e quando fazer e tinham tudo bem arquitectado. De tarde, os mais novos vieram trazer um perfume bem diferente. Alguns, tão pequenos, parecia que nem se iam segurar em pé, de tão tenros e maleáveis. Tão pouco experientes neste planeta que inspiravam empatia total e imediata. A sua vulnerável, graciosa presença atestava os nossos corações de ternura. Alguns dos mais velhos vieram ajudá-los e essa cumplicidade de gerações só mostrava o quanto a felicidade colectiva está ao nosso alcance. Leram os textos e fizeram perguntas como gente grande e eu estiquei-me, tentando estar à sua altura. Foi para mim um presente precioso, ouvir algumas das minhas próprias palavras a dançar naquelas bocas tão frescas e vivas. Tão pouco domesticadas e ainda com o travo de um mundo anterior a este onde um dia todos pousámos. Os professores, e alguns pais, sorriam e deixavam escorrer o mel do olhar, como todos fazemos quando nos chegam à polpa. E antes que a tarde se fosse, os que já me conheciam pediam os “hits” do costume, poemas que tinham trabalhado no ano anterior e que permaneciam nas suas selectivas memórias, de Alexandre O´Neill a Violeta Figueiredo. E todos juntos demos um arzinho da nossa graça para depois nos despedirmos com vontade de repetir, um dia destes. Quer dizer, um dia bom.

A minha imensa gratidão a todos os alunos, professores, pais e colaboradores que encheram a Escola Básica e Secundária Oliveira Júnior com o brilho da sua, nossa, humanidade. Obrigado, S. João da Madeira.”

  Paulo Condessa

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