Tuna está disponível para apoiar jovens que queiram estudar, cantar e dançar “as nossas tradições” na Trupe de Reis em 2021

A Tuna dos Voluntários é “uma associação que tem uma história e um projeto cultural muito sério em S. João da Madeira” cuja atividade “já passou mais despercebida” do que passa nos dias de hoje. A garantia foi dada pela sua presidente Ermelinda Santos, mais conhecida por Minda Araújo, durante a conversa que teve com o labor.

Entre os projetos culturais desenvolvidos pela Tuna dos Voluntários ao longo dos seus 40 anos de existência, comemorados em 2019, destaque para a Açorda com Letras e para a Trupe de Reis. Tanto um como outro pretendem demonstrar que “a cultura deve ser acessível a todos”. Por isso é que a Açorda com Letras – que já contou com a presença de inúmeros “vultos da cultura portuguesa” como Luísa Amaro, a Brigada Victor Jara, Adriano Miranda, Cristina Nogueira, José Vultos Sequeira, Arnaldo Trindade, Vcitor Castro, Fausto Neves e tantos outros que deixaram o registo da sua presença num livro de ouro – é realizada nas instalações desta associação e é acessível a qualquer pessoa. E por isso é que também a Trupe de Reis é um espetáculo que reúne as tradições das mais diversas regiões do país em palco com entrada gratuita.

A Trupe de Reis deste ano realizou-se a 5 de janeiro na Casa da Criatividade e contou com a presença do GEFAC – Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra, Grupo de Folclore e Etnográfico do Brinca – Eiras, Coimbra, Trupe de Reis da Casa do Povo de Válega, Grupo de Folclore Associação Cultural Recreativa e Desportiva de Escapães, da Tuna da Universidade Sénior do Rotary Club e da Tuna dos Voluntários de S. João da Madeira.

Esta que foi a sua quinta edição “correu muito bem. Um artista só se revê nos aplausos e penso que esses foram imensos ao longo do concerto”, considerou Minda Araújo, demonstrando satisfação pelo facto da Trupe de Reis ter cumprido uma vez mais o seu objetivo que é “reviver o passado e reavivar as memórias para o presente”.

Neste preciso momento da conversa, a presidente da Tuna dos Voluntários confidenciou ao labor um desafio em jeito de sonho que gostava de ver cumprido já na próxima Trupe de Reis em 2021. “Acho que S. João da Madeira está a precisar de um abanão em termos de etnografia séria”. Por essa mesma razão, a associação está disponível para abrir as suas portas a um grupo de jovens que queira “estudar esta região, que desde Arouca às Terras de Santa Maria tem tantas músicas e uma riqueza popular imensa,” e queira “cantar e dançar as nossas tradições na abertura da Trupe de Reis de 2021”, revelou Minda Araújo, dando como exemplo o GEFAC que é nada mais nada menos do que um grupo de jovens que já “o faz tão bem”.

 

A Tuna dos Voluntários

Tem cerca de 45tunantes

Entre os 14 e os 88anos e oriundos de S. João da Madeira e Concelhos Vizinhos

5vinis gravados

40anos de vida

 

 

Duas gerações unidas pela cultura

 

“A distância não impede a presença na Tuna”

DF

Lisete Amaral tem 76 anos e, depois de viver com o marido durante 50 anos em S. João da Madeira, decidiu passar a reforma em Mira, mas nem a distância os demove de marcarem presença nos ensaios da Tuna. “Mira foi sempre o nosso sonho quando nos reformássemos. Estamos lá há sete anos. Eu era secretária administrativa numa fábrica em S. João da Madeira. Na Tuna já estou deve fazer agora uns 25 anos. A distância não impede a presença na Tuna, a não ser que suceda alguma situação que me impeça mesmo de vir. De resto estou aqui presente e sou das primeiras pessoas a chegar. Desde que a Minda me pediu para entrar para a Tuna, faço-o por gosto. Como gosto (de estar no coro), venho e tento não faltar, mas quando falho é porque é impossível estar presente. A Tuna significa muito. Uma distração, alegria, uma maneira de estar diferente do que estar dentro de casa isolada. O que nem é o meu caso porque faço muitas coisas”.

“Um grupo de amigos que se vai construindo”

DF

Fábio Fernandes tem 26 anos, é de Milheirós de Poiares e já lá vão mais de cinco anos desde que entrou para a Tuna.

“Vim a convite do anterior maestro, o Artur, somos amigos e porque também estava envolvido no meio da música, não a nível profissional, mas a nível amador. Eu era empregado fabril numa empresa em Arrifana.

Neste momento faço trabalhos como técnico de som. Aqui, na Tuna, normalmente faço parte do coro, se bem que às vezes faço algumas coisas como instrumentista. Também ajudo na parte técnica. É onde for preciso. Toda a ajuda é precisa. A Tuna acho que é acima de tudo um grupo de amigos que se vai construindo”.

 

 

Livro de Memórias poderá ser editado este ano

Ao longo da conversa com o labor, Minda Araújo avançou que estão a pensar na edição de um livro de memórias dos 40 anos da Tuna dos Voluntários. “Acho que nesta altura era prestigiante fazer um novo registo musical da Tuna acompanhado com um livro de memórias”, revelou a presidente, adiantando que a intenção é fazê-lo ainda “durante este ano”. Esta também acabará por ser uma homenagem a todos os que têm contribuído para a história da Tuna a título voluntário. “Temos de enaltecer todo este carinho que têm pela Tuna porque sem eles ela não existia”, salientou Minda Araújo com a certeza de que “estas pessoas dão a alma a esta associação e enquanto a Tuna tiver alma vai perpetuar por mais 40 anos”.

 

“Não é a medalha em si, mas tudo que simboliza”

DF

Para além de celebrar 40 anos em 2019, a Tuna dos Voluntários foi homenageada pela Câmara de S. João da Madeira com a entrega da Medalha Municipal de Mérito em Ouro.

“Fiquei muito orgulhosa de estar a representar a minha associação” num momento que resultou da unanimidade de todos os partidos. “Não é a medalha em si, mas tudo aquilo que ela simboliza”, esclareceu Minda Araújo, relembrando as palavras de reconhecimento de todo o trabalho feito pela Tuna vindo das diferentes personalidades políticas. “O projeto da Tuna é fazer de S. João da Madeira uma cidade no país e no mundo” e “isso é que é o trabalho associativo quando temos consciência de que levamos os nossos, o nosso povo, seja da nossa cidade ou da região, para fora”, destacou a presidente da Tuna, mencionando entre as diversas atuações que já tiveram no país uma que tiveram nos Estados Unidos da América.

Tuna vai gravar hino  do Movimento Democrático das Mulheres

Que vai ser tocado numa manifestação contra a violência em Lisboa

DF

É no dia 8 de março – Dia Internacional da Mulher – que o hino do Movimento Democrático das Mulheres, gravado pela Tuna dos Voluntários, vai ser tocado e ouvido durante uma manifestação contra a violência sobre as mulheres em Lisboa.

“É um grande prestígio ter esta associação a querer que o seu hino seja interpretado pela Tuna, que depois vai ser ouvido por milhares de mulheres que se vão insurgir contra a violência em Lisboa” e “vai ser levado a todos os cantos do país e possivelmente a outros cantos do mundo”, salientou Minda Araújo.

“Para nós continua a ser um orgulho quando as pessoas se lembram de vir ter connosco para fazer a gravação deste trabalho. Vamos fazê-lo, fazê-lo bem e vai-se ouvir no dia 8 de março”, concluiu a presidente da Tuna dos Voluntários ao labor.

 

Do Ateneu para a Brigada

Que é até hoje “uma referência da música portuguesa e dentro da raiz popular”

Minda Araújo entrou para a Tuna dos Voluntários em 1986 através do falecido fundador, o médico Ramiro Salgado. Em 2000 saiu da Tuna para se dedicar ao “Grupo Gente de Alma Portuguesa”, um projeto de música popular portuguesa e de intervenção que criou com o músico Fernando Ribeiro. Quando o projeto comemorou uma década realizaram várias atuações no país e no estrangeiro.

Entretanto, Minda Araújo regressou à Tuna em 2005. Atualmente está a cumprir o terceiro mandato de dois anos como presidente da direção da associação. Mas a sua ligação à música popular portuguesa começou bem antes.

Minda Araújo tem 55 anos, nasceu na Guarda e com apenas oito dias foi com os pais para Coimbra, onde cresceu e viveu até há 32 anos quando veio com o marido morar em S. João da Madeira, onde é animadora cultural no ATL Gente Miúda há 19 anos, faz 20 no próximo mês. Desde muito cedo que tudo que envolvesse música e teatro podia contar com a sua participação. Só para termos uma ideia, organizava Festivais da Canção com outros miúdos da sua rua em Coimbra.

Um dia foi convidada a cantar no coro da Igreja de Santa Cruz. “Tínhamos um coro muito interessante na altura e numa das cerimónias esteve o Ramalho Eanes. Começámos desde muito cedo com coisas muito sérias”, contou Minda Araújo.

Depois foi para o Ateneu de Coimbra. “Uma instituição muito séria, por onde passaram vultos da cultura portuguesa e onde fomos beber aquilo que de mais sério se fazia dentro da música”. Naquela altura, “percebemos que a cultura portuguesa era uma coisa para levar muito a sério. Em 85 já tínhamos um grupo que dava concertos na Ala Magna e no Coliseu dos Recreios em Lisboa”.

DR

E num dos concertos do Ateneu no Coliseu dos Recreios, que contou com a presença da Brigada Victor Jara, a voz de Minda Araújo sobressaiu e quando deu por si estava a fazer testes para entrar para aquele grupo que era e ainda é “uma referência da música portuguesa e dentro da raiz popular”. “Para nós que estávamos nestes grupos de música tradicional e que estávamos ligados à raiz cultural, a Brigada era a aspiração máxima, era o sentir-me já uma verdadeira artista”, recordou Minda Araújo ao labor.

Quando entrou para o grupo tinha 20 anos e lá ficou até aos 23 quando engravidou. Deste período de três anos, “tenho recordações e memórias maravilhosas daqueles músicos que ainda hoje são meus amigos” e com quem atuou em todo o país e no estrangeiro. Olhando para trás, “não estou arrependida de nada”, esclareceu Minda Araújo, demonstrando sem hesitação que quer na altura, quer agora, a maternidade iria sempre falar mais alto.

Apesar desta escolha, o certo é que o seu caminho acabou sempre por cruzar-se com o da música. Um facto curioso sobre esta “mulher de sentidos” é que nunca estudou música, mas canta e toca viola. “Nunca achei que fosse cantora. Sou uma intérprete da poesia que as pessoas gostam de ouvir. Gosto de cantar poesia, música de raiz cultural e do nosso povo”, concluiu Minda Araújo ao labor.

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