Sanjoanenses no Mundo

Patrícia Lestre

Tem 26 anos, é natural de S. João da Madeira e é Música e Professora em Paris. Fez a pré e primária na Escola do Parque, andou dois anos no Ciclo (EB2/3) e até ao 9.º ano na Escola Secundária João da Silva Correia.A aprendizagem musical tornou-se oficial aos 14 anos, mas a música já faz parte da sua vida desde pequena. Começou a tocar violino na Acorde em S. João da Madeira e quatro anos depois completou o curso musical na Escola Profissional de Música de Espinho. Em 2011, esta sanjoanense instala-se em França. A história varia entre os mais diversos encontros humanos e musicais. Patrícia frequenta formações como a técnica vocal Jazz na ARPEJ em Paris e estuda pedagogia musical alternativa no CFMI d’Orsay (Centro de Formação de Músico Interveniente). Em palco, instrumentos como o ukulele, a guitarra, a voz e o violino fazem parte do seu mais recente projeto – Pisco de Peito Ruivo – que é de composições e arranjos pessoais com inspirações baseadas na música tradicional, no mundo e no improviso. A sua colaboração está presente em diversos grupos que fazem com que o seu universo musical esteja sempre em evolução: Aquilo que Vocês Quiserem (Quinteto vocal e instrumental em Portugal); A Banda (música brasileira em França) com um álbum lançado em 2018 – A Banda em Paris – e um segundo em 2020 em colaboração com Jean-Marc Sauvagnargues – Saudade. Também fez parte de Las Famatinas (música Argentina em França) com álbum lançado em 2020 – Asì seguimos Andando – fruto do encontro e arranjos musicais de Nicolàs Colacho Brizuela. Ainda em França é responsável pelos arranjos musicais de diversos artistas na área do conto musical como Séverine Andreu e Clémence Marioni. Ainda outro projeto pessoal criado em França, já com algumas edições aprovadas, é o Sari Company que se resume como reuniões de instrumentistas aleatórios a improvisar em direto sobre os mais variados temas das músicas do mundo.

 

Começaste a tocar violino na Acorde. O que é e ainda existe em S. João da Madeira?

A Acorde foi uma escola e loja de música e o meu paraíso durante um ano. A alma do sítio ainda vive, sim, graças ao João Ferreira e à Carla. Agora chama-se Arte do Som e tem uma filosofia pedagógica bem contemporânea. Tenho conhecido verdadeiros jovens músicos que saem daquela escola a associar música e prazer com muita liberdade e talento.

 O que te levou a deixar a tua cidade, o teu país?

A curiosidade, a música, o apoio da família e a sorte.

Foste sozinha?

Sim e não. Vim com a minha irmã mais nova que aproveitou a viagem para descobrir Paris durante um mês.

Quando foste com apenas 18 anos para Paris, foi planeado ou ver qual seria a tua sorte?

Vim para estudar. Passei nas audições da escola superior de música – Schola Cantorum -, a sorte já se fazia ver.

Nunca pensaste em tentar primeiro a tua “sorte” em Portugal?

Claro que sim e acho que o fiz. Tocar violino, ter entrado em Espinho e tantas outras histórias, amizades, palcos. Fui sortuda, sou sortuda.

“Não seria a música que sou se não desse as aulas e não daria as aulas como dou se não fosse música”

Onde estás a trabalhar?

Em Paris. Estou em França há sete anos, a chegar aos oito. Mas trabalho há cinco anos.

O que fazes?

Trabalho por conta própria. Sou música, cantora e instrumentista em vários projetos. Também sou professora de música e dou aulas particulares e em grupo. Tenho alunos de canto e outros instrumentos como ukulele, guitarra, piano e de descoberta musical para os mais novos.

Este é o teu primeiro emprego fora de Portugal?

Sim.

O que mais gostas de fazer? Ser música, cantora e instrumentista ou professora?

Não seria a música que sou se não desse as aulas e não daria as aulas como dou se não fosse música.

Onde dás aulas?

Em minha casa e em casa de alguns alunos em Paris e tenho uma sala numa loja de ukuleles em Pigalle. Em Montreuil, trabalhei no Instrumentarium, numa sala cheia de instrumentos que acolhe os mais novos (turmas de quatro aos 10 anos).

Onde já atuaste?

Em Ardèche, Périgord, Normandie, Bretagne, Narbonnais, Champagne e em Paris nalguns sítios que ainda rodam na minha memória como o Teatro de la Vieille Grille, 59 Rivoli, oThèâtre de L’Européen.

“O último instrumento pelo qual me apaixonei chama-se kayambe”

Quantos instrumentos tocas?

No projeto do Pisco apresento-me com ukulele, guitarra, violino e voz. Mas ando sempre à cuca de novas sonoridades. O último instrumento pelo qual me apaixonei chama-se kayambe, instrumento de percussão da Ilha da Reunião.

Em quantas línguas cantas?

Português de Portugal e Brasil, francês, espanhol, inglês. Tenho cantigas em crioulo francês e português, uma em japonês. Amizades não trazem só bons momentos.

Preferes projetos a solo ou em grupo?

Ser instrumentista enquanto cantora faz parte da minha vontade de independência, mesmo assim estar acompanhada em palco é um dos meus maiores prazeres.

Qual a história do teu mais recente projeto “Pisco de Peito Ruivo”?

Fui compondo e escrevendo em modo terapêutico ao longo destes sete anos. Este Pisco é o coletor de algumas dessas composições e de outros temas que me foram servindo de inspiração. O passarinho por onde passa traz novas cantigas tradicionais, pessoas, instrumentos, sonoridades e encontros. É uma forma de liberdade e evolução que me deixa bem curiosa e sem saber completamente o que aí vêm.

Em 2019 cumpriste o sonho que tinhas desde pequenina ao atuar pela primeira vez na Praça. Como recordas este momento?

Adoro ler citações da minha mãe em entrevistas profissionais. O sonho, como diria a Minda, não seria propriamente na Praça, mas sim este retorno à cidade Natal literalmente cercada de família e amigos (em Paris não são as mesmas). Foi bastante intenso, emocionalmente e fisicamente. A Praça é um sítio aberto e muito dispersado, o contacto com o público não é fácil, mas fui recebida com imenso carinho e pela parte da organização dos Ecos Urbanos, que pouco importa a loucura eles estavam sempre dispostos a concretizá-la, e pelo público, carregado de família e amigos, amigos de amigos e uns quantos desconhecidos.

Onde gostavas de atuar no próximo ano?

Brasil ouIlha da Reuniäo ouArgentina ou onde for.

Quais os projetos que tens em “mãos”?

O mais antigo é em Portugal,o quinteto vocal de cinco longas amizades“Aquilo que Vocês Quiserem” e um dos mais recentes, o duo com um palhaço profissional “Fado Mimado”. E em França tenho “A Banda” que é um grupo de música brasileira com dois álbuns e quatro moços bem talentosos. O projeto a solo “Pisco de Peito Ruivo” é apresentado nos dois países.

“Numa só cidade viajas por todo o mundo”

Conheces muita gente?

Aqui fui conhecendo mais estrangeiros que portugueses. E quando digo estrangeiros não falo só de franceses. Esta é uma das grandes qualidades de Paris. Numa só cidade viajas por todo o mundo, o que acaba por ser bastante ecológico e intenso. Mas sim,muita gente e gente boa, Paris e l’amour näo é clichê.

Numa dessas viagens “numa cidade por todo o mundo”, qual a mais marcante?

O Senegal. Tão fortes a nível humano e musical…

Quais os pratos e bebidas característicos?

Pão, queijos e vinho tinto. O pão assim conhecido como la baguette, mais de 800 tipos de queijos diferentes e a infinita guerra entre o vinho tinto de Bourgogne e o Bordeaux. Outras curiosidades bem tradicionais como a manteiga salgada e as galettes da Bretanha, as Coucounettes do Sudoeste tão bem acompanhadas pelo famoso primo do vinho do Porto – Pineau de Charentes, o croissant de amêndoas, o creme de castanhas de Ardèche, as ostras do Sul…Engraçado como a gastronomia francesa faz de mim tão feliz só de pensar.

Trocavas a gastronomia portuguesa pela francesa?

Não. Mas não sou contra para passar um Natal com ostras e bacalhau.

Quais as tradições?

Em Paris, as caves de jazz, o queijo e vinho ao longo do canal, os encontros. Em França, a família, l’apèro e as boas refeições.

És adepta de todas elas (tradições)?

Oh sim.

“Adoro o paradoxo de um cemitério invadido pela natureza carregada de vida”

Quais os locais emblemáticos?

Os locais emblemáticos da cidade, além daqueles que ouvimos falar desde sempre, como Louvre, Notre Dame, Sacré Coeur, Torre Eiffel, etc, temos Pigalle e todo o 18éme arrondissement, o 20ème e toda a arte que vive nele, o parque de Vincennes, os quais de Seine, o Père-Lachaise e tantos outros.

Qual o teu preferido?

Père-Lachaise é bastante poderoso. Adoro o paradoxo de um cemitério invadido pela natureza carregada de vida. Um dos sítios mais perfeitos para ler e tocar ukulele tranquilamente.

Moras mesmo em Paris?

Sim, no 20ème mesmo pertinho do Père-Lachaise.

Como são os habitantes/o povo do local onde estás?

É uma verdadeira mistura de culturas, tanto as pessoas que aqui moram e trabalham, como as pessoas que visitam a cidade.

O que mais te surpreendeu?

A facilidade dos encontros musicais e culturais.

O que mais te custou a adaptar?

A velocidade da cidade, a vida frenética das pessoas e do custo monetário em geral.

Há alguma expressão típica do local onde estás?

Rooooh (mostrar descontentamento) que é uma das minhas favoritas.

Que sítios costumas frequentar?

Casa de amigos, o Père-Lachaise, la Pomme en colimaçon, le Café Universel, oParque de Vincennes e tantos outros.

“Os meus planos passam pela vontade de equilibrar o amor e as histórias destes dois países numa só vida”

Qual o balanço desta aventura pessoal e profissional?

Estou tão surpreendida do simples instinto de querer viajar que se revelou sete anos de pura felicidade e de crescimento num espaço completamente desconhecido. Aprendes a viver com as leis básicas do respeito e da curiosidade pela diferença e sendo assim andas sempre à descoberta de novidades infinitas.

Do que sentes mais falta?

Família, amigos, da língua portuguesa e das farturas da Dona Minda.

Do que é que sentirás falta, do local onde estás, se um dia fores para outro país ou regressares a Portugal?

Dos imensos encontros improváveis, da grandeza da cidade, da música universal, do bom gosto refinado pela própria cultura e dos espaços épicos com tanta história vivida como o Père-Lachaise, la Pomme en colimaçon, le Café Universel e la Caféothèquee claro do gato pantera e da minha casinha.

Os teus planos passam por voltar a Portugal?

Os meus planos passam pela vontade de equilibrar o amor e as histórias destes dois países numa só vida. Portanto, sim, estou numa altura de passagem, pronta a abraçar as minhas energias portuguesas e a partilhar toda a bagagem francesa que carrego com muito gosto.

Para breve?

Pois parece que sim.

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