Pedro e Nuno

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O troço sul da Linha do Vouga está a receber programas turísticos com locomotivas movidas a vapor. Recentemente a CP organizou um comboio entre Aveiro e Macinhata do Vouga, onde está localizado o Museu Ferroviário, estando agendados para breve mais passeios, com composições que são peças desse Museu, ou que estavam abandonadas pelo país e que, entretanto, passaram a ser reparadas e colocadas à disposição destes programas para os apaixonados dos comboios antigos.

As sucessivas reportagens na comunicação social sobre esta atração turística permitem verificar o seu sucesso e possibilitam ao promotor alargar os programas de oferta. Naturalmente, a Câmara Municipal de Águeda já dimensionou a oportunidade em termos de turismo e pretende ser parceiro ativo da CP, esperando receber mais visitantes no concelho.

Se o destino do troço Sul do Vouguinha está traçado e o seu futuro por agora parece estar assegurado, o que poderá acontecer ao troço Norte, entre Espinho e Oliveira de Azeméis?

Antes de avançar, recordo aos leitores menos familiarizados com esta linha, que o troço a Sul do concelho vizinho está encerrado, devido ao seu estado degradado. Ou seja, de Oliveira de Azeméis até Sernada do Vouga não circulam comboios. Recordo, igualmente, que o traçado original seguia desta última estação até Viseu, estando este troço fechado desde o final do século XX. Refira-se o pormenor geográfico, deste traçado ser paralelo ao rio que dá o nome à linha, ora circulando o comboio pela sua margem esquerda, transpondo o rio por belas pontes, para circular na margem direita, incutindo ao projeto original um enquadramento natural digno de visita e registo.

Ao longo dos anos muitas foram as hipóteses de transformação do troço Norte da linha do Vouga. Corredor para ligação ao metro do Porto (à semelhança da linha da Póvoa); alargamento da bitola para circularem outras composições mais modernas e mais rápidas; introdução de um sistema de vai e vem apenas na cidade de S. João da Madeira. Tudo pressupostos de acordo com o momento vivido pelo país, no desenvolvimento de soluções de transportes públicos, ou pensando-se apenas numa localidade.

Nos últimos anos prevaleceu uma nova solução, provavelmente a melhor: ligar a Linha do Vouga à Linha do Norte em Espinho. Ou seja, permitir que as cidades de Oliveira de Azeméis, S. João da Madeira e Santa Maria da Feira passem a estar ligadas ao Porto por ferrovia direta. Neste sentido, surgiu a ideia de as ligar a S. Bento, à semelhança do que existe com os comboios que saem da estação portuense e seguem para Braga, Guimarães e Marco de Canaveses.

Um novo itinerário na Grande Área Metropolitana do Porto, criando soluções ferroviárias para os concelhos a Sul do Douro, completando a larga oferta rodoviária e promovendo a coesão territorial. Em termos de transportes coletivos, atendendo ao novo modelo de passes, incentivado pelo Governo do Partido Socialista, surge uma oportunidade para deslocações de esta zona para a cidade do Porto e vice-versa. Recordo que os 40 euros de custo mensal de passe/andante permitem circular através dos transportadores aderentes por toda a Área Metropolitana do Porto, incluindo o Metro do Porto, a CP, os SCTP e alguns privados, onde se inclui a Transdev. Neste sentido, um comboio, mesmo com velocidade média (80KM/h) permitirá percorrer os quilómetros que separam estes concelhos da cidade do Porto, num tempo razoável, evitando-se as filas de automóveis na entrada e saída da grande cidade, além das despesas inerentes de combustível, portagens e estacionamento para quem não o tiver gratuito. Mesmo para quem já opta pelo autocarro, o comboio pode ser mais vantajoso: em tempo, de S. João da Madeira a Santa Maria da Feira o autocarro tem que parar nove vezes, caso haja passageiros interessados em entrar ou sair do autocarro nos locais apropriados; em lugares para passageiros, o autocarro normal tem capacidade para 50 lugares, havendo horários em que seguem dois autocarros seguidos para fazer face à procura, ficando ambos lotados à entrada para a autoestrada A1. Como se pode ver, as vantagens não se limitam à descarbonização da área metropolitana, embora não se deva descurar essa vertente.

No Plano de Investimentos Ferroviários 2016-2020, a Linha do Vouga não foi contemplada. Apesar da sua baixa execução (11%), está a ser preparado um novo plano para a próxima década. O Programa Nacional de Investimentos 2030 está em discussão pública. As primeiras referências na comunicação social nada adiantavam se a Linha do Vouga estava envolvida nessa discussão.

Por curiosidade fui espreitar o Programa e os seus projetos.

117 páginas no total.

Nos projetos da Ferrovia, que importa aqui focar, estão contemplados 75 milhões de Euros para a requalificação do troço Espinho – Oliveira de Azeméis da Linha do Vouga, a realizar-se entre 2021 e 2025. Analisando melhor a ficha de investimento, afinal a requalificação é mais ambiciosa, já que inclui a construção de ponto de amarração à linha do Norte. O objetivo deste investimento será “aumentar a quota de mercado da via-férrea, permitindo serviços suburbanos diretamente à cidade de Oliveira de Azeméis”.

Caso este investimento público seja concretizado nos próximos anos, Pedro Nuno Santos ficará na história como o ministro que permitiu a requalificação da Linha do Vouga, depois de décadas ao abandono. Neste processo não pode ficar esquecido Nuno Freitas, presidente da CP, que com pouco tempo de mandato tem alterado a forma de gestão da empresa pública, com sinais muito positivos, sobretudo na reabilitação de recursos, na qual se insere perfeitamente a linha do Vouga.

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