Iniciativa “À descoberta da CERCI” tem levado alunos do 1º ciclo a conhecer, interagir e até aprender com os utentes da instituição

“As escolas procuravam-nos e pensamos por que não inserir esta ideia no Projeto Educativo Municipal (PEM)?”, contou Dulce Santos, diretora técnica da CERCI (Cooperativa para Educação e Reabilitação de Cidadãos com Incapacidades), durante a manhã de 27 de fevereiro, quando estava a decorrer aquela que foi a terceira visita “À descoberta da CERCI” por duas turmas da Escola Básica do Parque.

A iniciativa está inserida no PEM, mas cabe a cada uma das escolas demonstrar interesse e agendar a sua participação na mesma. E foi o que aconteceu com as professoras Rute Pinho e Marisela Oliveira. “Como falamos tanto em inclusão é uma mais-valia para os meninos este tipo de experiência” em que têm “contacto com realidades diferentes”, afirmou Marisela Oliveira e completou Rute Pinho ao labor.

O primeiro contacto dos alunos com os utentes começou a medo, admitiu um deles, devido ao comportamento de um dos utentes que não fala e por essa razão tem uma forma diferente de se expressar. Neste momento, a D. CERCI, personagem fictícia interpretada por Antónia Brandão, terapeuta ocupacional e coordenadora do CAO (Centro de Atividades Ocupacionais), foi fundamental para explicar aos visitantes que “uma CERCI é um espaço de aprendizagem, de convivência, de afeto, de autonomia” e acaba por ser “muito parecido com o que é a vossa escola. Só que esta escola é para pessoas que têm algumas dificuldades em aprender a ler, a escrever, a falar, a compreender o que se passa à sua volta, em se movimentar…”.  Mas este tipo de espaço nem sempre existiu em Portugal, muito menos os direitos das pessoas com deficiência. “Há 40 anos, quando nasci, estas pessoas ficavam fechadas em casa e não lhes era permitido frequentar o jardim de infância ou a escola. Depois do 25 de Abril, aquele dia em que Portugal se tornou um país livre, permitiu que ele se desenvolvesse e fosse buscar coisas boas que se faziam noutros países para ajudar o povo português a sair do atraso em que vivia”, contou a D.ª CERCI, explicando que nessa altura pais e amigos “ouviram falar nos Direitos das Pessoas com Deficiência” que dizem que têm direito a ter igualdade de oportunidades”. É certo que “elas vão ter que vencer muitas dificuldades, alguns não conseguirão porque têm uma deficiência muito grave, mas pelo menos podem tentar”, destacou a D.ª CERCI.

“Estou ansiosa para contar tudo o que aprendi quando chegar a casa”

Da teoria, passaram à prática ao dividir os alunos em grupos para participarem nas atividades de cozinha e pastelaria, Boccia, Lavandaria, CAO e num jogo de perguntas e respostas.

Na primeira atividade, João Martins, formador de cozinha, juntamente com os três formandos Paula Carvalho, Bruno Almeida e Paulo Pinho, ajudou os alunos a cortar cenoura, a untar com manteiga e a enfarinhar as formas, a fazer os queques e a arrumar a cozinha. “Eles são simpáticos e aprenderam bem e rápido”, afirmou Paula Carvalho  ao nosso jornal, confessando: “gosto da formação de cozinha”, onde “já aprendi a fazer bolos, rissóis, empanadas e sumos”. “Adorei descascar a cenoura, untar com manteiga e colocar a farinha na forma”, reagiu a aluna Matilde Teixeira sobre esta experiência onde “aprendi que somos todos iguais mesmo que tenhamos deficiência”. No momento em que falámos com esta aluna, estava na Lavandaria a aprender “a mexer na máquina de lavar roupa, a passar a ferro e a dobrar a roupa”. “Estou ansiosa para contar tudo o que aprendi quando chegar a casa”, revelou Matilde Teixeira ao labor.

Na atividade desportiva, os alunos aprenderam a jogar Boccia com alguns dos utentes. Já no CAO reaproveitaram alguns materiais como jornais e botões que foram pintados e transformados em flores. As colaboradoras Sónia Martins, Emília Oliveira, Vera Laranjeira e Eduarda Sá ajudaram à interação entre os alunos e os utentes. “Inicialmente estavam com medo porque alguns dos utentes mais difíceis estão aqui, mas depois foram-se adaptando”, assumiram as quatro ao nosso jornal.

“Visitas estão todas preenchidas até ao fim do ano letivo”

As primeiras visitas foram realizadas pelas escolas de Carquejido e do Espadanal e seguem-se a dos Ribeiros e o Centro de Educação Integral.

Neste momento, “as visitas estão todas preenchidas até ao fim do ano letivo”, revelou Dulce Santos, acrescentando que no final é oferecido um doce com uma mensagem e está a ser construído um álbum com o registo de cada uma das visitas.

O balanço desta terceira visita foi “muito positivo. O objetivo é desmistificar a deficiência. Eles veem o que eles são capazes de fazer, estão com eles e desenvolvem atividades”, afirmou a diretora técnica da CERCI, para quem “mais importante do que explicar isso é o estarem a conviver com eles”.

“A nossa função é desmistificar a deficiência”, por isso, esta iniciativa é uma “ação de sensibilização que visa colocar desde muito cedo as crianças em contacto com pessoas que têm deficiência” e cuja avaliação é “excelente” porque “dá a conhecer o somos e o que fazemos”, considerou António Cunha, presidente da CERCI, ao labor.

 

“O meu sonho é fazer um bolo na cozinha da Cristina Ferreira”

DF

Um dos formandos com quem estivemos ao longo da manhã de quinta-feira passada foi Tomás Santos que frequenta o curso de Assistente Operacional de Cozinha desde 4 de novembro de 2019 na CERCI de S. João da Madeira.

O jovem de 20 anos desempenha várias funções como preparar as mesas para as refeições, fazer os almoços, bolos, biscoitos e encomendas que recebem para servirem nos serviços de catering. Nesta visita ensinou os alunos a dobrarem guardanapos que são usados todos os dias pelos utentes ao longo das refeições.

“Eles aprenderam rápido a dobrar os guardanapos” e “gosto das visitas”, mas “o que mais gosto mesmo é de fazer bolos”, confessou o formando e utente da CERCI, acabando por confidenciar aquele que é um dos seus sonhos ao nosso jornal. “O meu sonho é fazer um bolo na cozinha do Programa da Cristina Ferreira”, contou Tomás Santos ao labor.

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