Os filhos também traumatizam os pais

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Chegou o tempo. Tempo de lhes dizer aquilo que o politicamente correto não permite aos pais que o digam. Nem sequer que sintam. Mas que bem vistas as coisas, sem preconceitos à mistura, é a mais pura das verdades: eles também nos traumatizam. Eles também nos magoam. Eles também não correspondem, em todos os momentos, àquilo que esperávamos deles. 

Se os bloqueámos com histórias que lhes provocaram pesadelos, eles também nos deram noites em claro, por vezes ao ponto de equivaler a tortura do sono: por causa dos dentes, porque estavam constipados e com febre, porque lhes apeteceu brincar às três da manhã, porque se esqueceram de avisar que não vinham jantar nem dormir a casa, porque o seu silêncio, os seus olhos ou os seus problemas não nos deixaram fechar os olhos. Se nem sempre estivemos disponíveis, fomos a todas as suas festas da escola ou assistimos àquele jogo de futebol importante (e sabe Deus o que já nos penitenciámos por isso), eles também se esqueceram de nos perguntar como tinha corrido o dia, do porquê das nossas olheiras ou das tantas vezes que nos prescindiram em favor de outros. E se ninguém nega que teremos sido com alguma frequência injustos, também ninguém mede o trauma provocado pelo sentimento de termos sido defraudados nas nossas expectativas, nem que fosse de um beijinho de um xi coração antes de irem para a cama, de um obrigado por um recado feito ou de tantas e tantas vezes em que esperávamos mais do que aquilo que recebemos. E isto só para falar de traumas muito ligeiros, porque há tantos pais que passam por outros muito mais graves e profundos e se limitam a somar ao sofrimento que se auto-infligem aquele que lhes é imputado pelos filhos. Por isso, da próxima vez que ele lhe vier com lamúrias, conte-lhe o seu lado da história caso esteja olhos nos olhos. Não numa de deve-haver, mas simplesmente para que ele perceba que, em última instância, somos nós, e só nós, que determinamos o curso das nossas vidas. É a única opção para quem quer ser feliz.

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