No arranque de mais um festival literário de S. João da Madeira, espetáculo de Pedro Lamares e Lúcia Moniz encheu a Casa da Criatividade 

 Foram 230 as pessoas que, juntamente com Pedro Lamares e Lúcia Moniz, “atravessaram” “o deserto do mundo” na Casa da Criatividade este último sábado.  Coube a estes dois nomes bem conhecidos dos portugueses “inaugurar” a Poesia à Mesa, que este ano atinge a maioridade.

O convite partiu do atual executivo municipal, que, por isso mesmo, mereceu os maiores elogios por parte dos atores convidados, em particular o seu presidente Jorge Sequeira. Os agradecimentos públicos estenderam-se ainda a Patrícia Correia, Graça Neves, equipa da maior sala de espetáculos da cidade, inclusive aos técnicos Diogo Lopes e Marcelo Ribeiro, e Sérgio Correia, “companheiro de batalha” de Pedro Lamares.

Nesta que é, então, a 18ª edição do festival literário de S. João da Madeira, o antigo comissário regressou a S. João da Madeira (SJM) com “Para atravessar contigo o deserto do mundo”. Trata-se de “uma construção dramatúrgica feita a quatro mãos, por mim e pela Lúcia [Moniz]”, como o próprio disse ao labor no final do espetáculo.

Acompanhado pela sua amiga Lúcia Moniz, com a qual tem uma grande cumplicidade, o ator e declamador falou deste projeto de ambos iniciado em 2019, ano do centenário do nascimento de Sophia de Mello Breyner Andresen e de Jorge de Sena. “Para atravessar contigo o deserto do mundo” celebra a amizade destes “dois poetas maiores” lusos.

Pedro Lamares e Lúcia Moniz pela primeira vez na Casa da Criatividade

“É um projeto de intertexto”, de “corte e costura entre poemas e retalhos de cartas”. Nele é-nos dada a conhecer “a correspondência que serviu para mapear a relação entre os dois e a sua relação com a sociedade”. Nele Sophia e Sena “falam na primeira pessoa sobre os pensamentos do mundo de uma forma menos subjetiva do que na poesia, de uma forma bastante objetiva e até assertiva da sua relação interpessoal e, depois, da sua relação com o mundo”. E note-se que esta “foi uma relação fortíssima” por serem “duas pessoas que nunca se permitiram, nunca quiseram imiscuir-se naquilo que acontecia à sua volta”.

Durante quase uma hora, Pedro Lamares e Lúcia Moniz levaram a “viajar” quem estava na Casa da Criatividade até tempos idos. Até outrora, quando opaís estava mergulhado numa ditadura.

“Sena exilou-se, Sophia ficou. Desse afastamento físico resulta a literatura epistolar da sua correspondência. Muito além da direta, há uma profunda correspondência de propósitos. A luta pela liberdade, pela ação, pela palavra. A Sophia é doce, mas não perdoa. Exige a verdade por inteiro para não habitar meio quarto. O Sena é duro e não perdoa. Lembra-nos os que foram estripados, esfolados, queimados, gaseados, e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido”.Aliás, a história de Sena “foi basicamente andar a fugir de ditaduras”, como afirmou Pedro Lamares, que, depois, em declarações exclusivas ao nosso jornal, fez ainda um “balanço positivo” do que tinha acabado de acontecer.

Com esta, foi a sétima vez que participou na Poesia à Mesa. Mas “vir pela primeira vez com um projeto meu e com a Lúcia” deu-lhe “um gostinho diferente”. “Não imagina o prazer que nos dá fazer, dizer isto. Isto não tem tanto a ver com a vontade de atuar, mas de dizer algumas coisas e de nos ser dada a oportunidade de ter uma voz para dizer isto em palco, com audiência”, referiu, acrescentando que “viemos passar aquilo que a Sophia e o Sena escreveram, que tem a ver com o nosso pensamento do mundo e termos 200 e tal pessoas a quem dizer isso é um privilégio”.

Produzido pela Casca de Noz, cooperativa a que Pedro Lamares pertence, “Para atravessar contigo o deserto do mundo” vai também subir ao palco da Casa das Artes, em Vila Nova de Famalicão, a 18 de abril. Com este em SJM, contam-se já cerca de 10 espetáculos em sete meses. Segundo Lúcia Moniz, “já tivemos outras noites especiais, mas a de hoje foi especial, muito especial”. “Costumamos comentar quando saímos do palco. Fazemos sempre uma primeira reflexão e hoje sentimos que foi uma viagem sentida. Com os seus altos e baixos, é certo. Mas sentimos que foi com consistência, não foi uma coisa superficial. E isso satisfaz-nos muito”, revelou a também cantora ao labor.

Não era a primeira vez que Lúcia Moniz estava em S. João da Madeira, mas era a sua estreia na Casa da Criatividade. E o mesmo sucedia com Pedro Lamares. Aliás, no entender deste último, “há pequenos detalhes técnicos [da sala] que poderiam ter uma conceção um bocadinho melhor. Mas [apesar disso] acho uma sala muitíssimo bem conseguida. Está com uma acústica bastante boa, está muito confortável quer no palco, quer na plateia. É bonita, que é uma coisa que nem sempre acontece. E é uma sala que se percebe que está desenhada para ser uma [verdadeira] sala de espetáculos”.

 

Outras iniciativas do festival

 

  • Poesia na Corda, até 21 de março, Praça Luís Ribeiro e Centro Comercial 8ª Avenida
  • Inauguração da exposição de pintura “Duomo”, de Diana Costa, 6 de março, 18h00, Biblioteca Municipal
  • Apresentação do livro “Os dias são assim”, de Ana Oliveira, 6 de março, 21h30, Biblioteca Municipal
  • Poesia no Autocarro, 7 de março, 11h00, Linha Verde do TUS
  • Oficinas Poéticas, de 9 a 13 de março, escolas do 1º ciclo
  • Turno da Noite, 11 de março, 21h30, Fábrica Viarco
  • Poesia na Fábrica, de 12 a 19 de março, Project ID (Oliva Creative Factory), Bulhosas, Cortadoria Nacional do Pelo, Flexitex e Academia de Design de Calçado
  • Poesia na Mesa, de 12 a 21 de março, restaurantes Tudo aos Molhos, Neptúlia Bar, Oliva Palito, Bacana, Mutamba, Taberna do Zé, Bonzão, Harpa, Fénix, Aconchego do Quintal, Ideias Café, Bistrô da Dona Isa, Restaurante Almeida e Scarpa Caffe
  • Apresentação do livro “Manual da Solidão” de Tiago Moita, 12 de março, 21h30, Biblioteca Municipal
  • Apresentação do livro “Um dia tudo isto será silêncio – Conversa à volta dos livros de João Habitualmente e Emanuel Madalena”, 13 de março, 21h30, Biblioteca Municipal
  • Mercado de Poesia, 14 de março, 10h00, Mercado Municipal
  • Tertúlia dos Poetas Sanjoanenses, 16 de março, 18h00, Biblioteca Municipal
  • Poetizando com José Fanha e Fernando Alves, 17 de março, 21h30, Biblioteca Municipal

 

 

 

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