Devemos fazer exames de consciência

0
35

Na tentativa de elaborar um caderno de encargos para o ainda corrente ano (2020) que evite os erros cometidos no passado. Plenamente convictos que nos cabe a inteira responsabilidade por aquilo que os nossos filhos são, resultado direto dos nossos atos, palavras e lacunas, já para não para falar nas origens que lhes transmitimos, martirizamo-nos com a culpa que nos cabe pelos seus defeitos . Se são egoístas, é porque não os ensinámos a pensar nos outros. Se são tímidos, só pode ser porque não lhes arranjámos amiguinhos para brincar; se preguiçam e parecem incapazes de perseguir os seus objetivos é porque os mimámos; se são ansiosos, é porque os contagiámos com os nossos medos; se deitam para o chão as toalhas depois do banho, é porque fomos incapazes de lhes explicar a lei da gravidade ou dizer-lhes que falta de respeito; se esborratam os cadernos, é porque não lhes facilitámos uma borracha ou então não lhes perguntámos pela borracha que lhes comprámos; se são multados por terem parado onde é proibido, só pode ter sido porque nos recusámos a ir lá pô-los, apesar de nos terem avisado que por aqueles lados estacionar não era fácil. E de tanto fazermos um acto de arrependimento público pelas nossas insuficiências familiares diretas (paternas), de tanto tentarmos remediar as nossas supostas falhas, conseguimos mesmo que os filhotes se convencessem que os seus erros, e os obstáculos que têm de enfrentar, são resultado de uma qualquer incapacidade nossa. Ainda por cima, embalados por traumas insuperáveis, como o de  terem sido alimentados a biberão, separados algumas horas do colo materno, “vítimas” de um irmão que lhes roubou o lugar ou por simplesmente terem sido amados de mais ou de menos, que na medida certa é que nunca foi, prezam-se em atirar à cara dos progenitores crises infantis que explicam tudo. Tudo, desde o seu insucesso escolar às respostas tortas, e até, sim até, à incapacidade de pendurarem a toalha depois do duche, porque o pai ou a mãe não fez, disse, mostrou, deu oportunidade, etc… É a fórmula mágica que inicia as desculpas esfarrapadas. Mas que aos seus olhos merecem, no mínimo, ser apresentadas a um juiz de menores ou uma associação de psicanalistas que, confiam, lhes darão certamente toda a razão. É claro que “andam” por caminhos de vida errados, porque os pais discutiram várias vezes à sua frente, é claro que não passam de ano porque em pequenos foram obrigados a dormir num quarto sem luz, e se são incapazes de prolongar a mesada até ao fim do habitual (trinta dias) é porque os pais compram roupa de marca quando lhes apetece (o facto de o dinheiro ser deles não parece fragilizar a força da argumentação). Pois bem, é claro que certamente que os traumatizámos nalgum momento, pela simples razão de que um dos efeitos secundários de viver é mesmo esse, o de magoarmos por vezes os outros, mesmo aqueles de quem mais gostamos.

Loading Facebook Comments ...

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor, insira o seu comentário!
Por favor, insira o seu nome aqui