Ao derredor

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Tantas vezes o autor é agente do seu momento,
Criador, após sentir emoções ainda latentes,
Treme e geme ainda impotente; só depois o estremecimento
Leva-o à página inocente que recebe tais sementes…

A página, a folha, o limbo, onde estão almas dos justos,
Ou também onde se lançam tantas coisas sem valor,
Parte, folha vegetal, orla de encontro de sustos.
Que sofremos pela estrada, vindos do nosso derredor…

Oh! Tão ingentes ingénuos, que logo cedo se arrogam
Mártires da vida, sem dela terem o sabor do seu fel,
Logo aspirando à cruz, quando depressa se afogam,
Na avidez da glória, na doçura do seu mel…

Em que vórtices se enrola a vontade desmedida:
Quando se aspira ao ápice, da vertigem ascendente,
Ganhar a luz do sucesso, sem ter a visão da vida,
Num fulgor que ambiciona, mas que se apaga de repente…

Tem de voltar às origens, quando ainda tem de seu
Os princípios que o regem, de um saber mais ancestral,
Tem de acalmar os demónios soltos do que dependeu
De uma existência feroz quando simples animal…

Flores Santos Leite

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