Itália é o país europeu mais afetado pela pandemia de Covid-19 e, infelizmente, já ultrapassou o número de vítimas mortais da China, onde a doença teve origem e que em dezembro de 2019 reportava os primeiros casos. Desde então, o surto propagou-se por quase 170 países e o continente europeu é um dos mais afetados, com Itália a liderar a longa lista.

Nuno Resende, que regressou a Portugal há cerca de três semanas, viveu o desespero italiano de perto. O técnico sanjoanense é treinador da equipa de hóquei em patins do Amatori Lodi, que pertence à província de Lodi, localizada na região da Lombardia, a mais afetada pela pandemia do novo coronavírus. “Tínhamos noção do que se passava na China através das notícias, mas não tínhamos consciência do que estava para acontecer”, recorda o sanjoanense, referindo que em Lodi, numa fase inicial, as decisões “passaram pelo encerramento de edifícios, nomeadamente desportivos”. “O resto da vida foi seguindo com alguma normalidade, mas com o evoluir da situação e o aumentar dos contágios decretaram também o encerramento de restaurantes e cafés e a imposição de regras para frequentar determinados espaços”, conta Nuno Resende. Mas com o número de casos em constante crescimento, depois do país “isolar” a região de Lombardia, era Itália que entrava em quarentena. “A situação é bastante complicada e as pessoas só podem sair para ir ao supermercado ou à farmácia”, refere o técnico, que considera que a decisão mais drástica “peca por tardia”. “Sendo que o principal foco de transmissão reside, precisamente, no contacto social, deveriam ter tomado esta medida mais cedo.

“Algumas pessoas não têm consciência da realidade e da gravidade da situação”

De regresso a Portugal e depois de um período de “quarentena voluntária”, Nuno Resende deparou-se com uma realidade que parecia refletir os primeiros dias do surto em Itália e considera que, se calhar, o país “está a cometer o mesmo erro ao permitir que as pessoas continuem a movimentar-se com alguma facilidade”. “Algumas não têm consciência da realidade e da gravidade da situação e não querem abdicar de determinadas coisas. Há pessoas que continuam a expor-se, a andar na rua e há ainda muitos estabelecimentos abertos”, refere o treinador, assegurando que “os responsáveis têm de tomar decisões baseadas em excesso de zelo”, já que considera que “só dessa forma se pode pôr fim a esta pandemia”. “Pode haver muita gente que está infetada que não sabe e não se isola e o vírus vai-se propagando. Os números não são nada diferentes dos que se viram em Itália nas primeiras semanas e, se calhar, Portugal está caminhar no mesmo sentido, sendo que o nosso sistema de saúde não tem a qualidade do italiano, explica Nuno Resende, que quando chegou a Portugal optou pela quarentena voluntária. “Isolei-me e não vi a minha família”, conta, revelando que no dia em que aterrou ligou de imediato para a linha SNS24 onde foi submetido a uma série de questões para avaliar o seu estado de saúde e se tinha tido contacto com algum caso em Itália. “Agradeceram a minha quarentena voluntária e pediram que se surgisse alguma alteração ao meu estado de saúde que voltasse a telefonar para serem tomadas medidas”, revela o treinador que, agora, e já perto da família, limita as saídas de casa ao estritamente necessário. “Saio apenas para ir aos meus sogros ou para ir buscar alguma coisa para os miúdos”, conta Nuno Resende, recordando as primeiras saídas após o confinamento: “Depois de chegar, desloquei-me por duas vezes a dois hipermercados para fazer compras e não tive coragem para entrar. Estava chocado e mal emocionalmente devido ao momento que passei em Itália”.

“Os números não são nada diferentes dos que se viram em Itália nas primeiras semanas”

Com tudo o que é competição suspensa e o futuro uma incógnita, o técnico acredita que as repercussões “serão enormes”. “Não há, ainda, uma perceção da dimensão real, quer desportiva quer financeira, mas prevê-se que será bastante dura”, admite o treinador, recordando que o seu clube foi dos primeiros na Europa a suspender toda a atividade. “Desportivamente será bastante complicado. Não há jogos e não há entrada de receita”, frisa Nuno Resende, que acredita que financeiramente as consequências serão “um desastre”. “A Itália tem uma economia muito forte e com muita indústria, nomeadamente na Lombardia, que é um dos motores económicos do país, mas com tudo parado está um caos”, desabafa o técnico, que acredita que as dificuldades “também vão acontecer em Espanha, França, Alemanha e Portugal”. “Está tudo preso pela falta de mobilidade e pelas dinâmicas normais de uma sociedade que está completamente parada. Por muito que as pessoas queiram, acho que o regresso à vida normal ainda vai demorar muito. Vão continuar a existir restrições”, acrescenta Nuno Resende, que em termos desportivos não vislumbra um panorama mais otimista em todos os aspetos. “O regresso da competição poderá ser um escape para muitas pessoas e cidades, mas haverá mentalidade e disposição para ir para um pavilhão cheio?”, questiona o treinador, que destaca também as repercussões financeiras do surto nos clubes. “Algumas visões e orçamentos vão mudar. Com o golpe que a indústria vai sofrer, se calhar as pessoas vão pensar nos investimentos de outra forma e isso irá ter um impacto negativo no panorama desportivo, porque o dinheiro não chega para tudo”, frisa, destacando em particular “as modalidades amadoras e de pavilhão”.

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