“Sinto falta do barulho dos meninos no recreio”

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É a primeira vez que Sandra Bastos Peixoto, de 39 anos, está a dar aulas à distância. Toda esta situação relacionada com o surto pandémico que assola o mundo obrigou-a a ir para casa e, à semelhança dos outros colegas de profissão, a se adaptar a uma nova forma de ensino. Mas a verdade é que “está a correr bem”, contou Sandra ao labor. Em seu entender, “os professores são profissionais com uma excelente capacidade de adaptação, arranjando sempre forma de chegar aos nossos alunos, desta vez, por força das circunstâncias, virtualmente”.
Esta professora do 1.º ciclo na EB1/JI Conde Dias Garcia, residente em Fornos (Santa Maria da Feira), tem “trabalhado em grupo de ano: elaboramos tarefas diárias que enviamos aos colegas, que estão a lecionar o mesmo ano, nas diferentes escolas do agrupamento e cada professor adapta à sua turma. Posteriormente, cada um envia-as aos encarregados de educação, via email ou WhatsApp”. Ainda conforme descreveu, cada docente “está a usar o meio que melhor responde à realidade de cada turma” tendo em vista chegar “a todos ou à maioria dos alunos” e a promover a “equidade”. Aliás, “sempre que possível as tarefas envolvem a família, de forma a que a ‘brincar’ as crianças trabalhem competências que é preciso que não percam, como a leitura, escrita, raciocínio, cálculo, destreza”.
No caso de Sandra, está “a enviar áudios com a explicação da tarefa a desenvolver, com histórias, porque acho importante que os meus pequeninos, do 1º ano, continuem a ouvir a minha voz, a sentir a minha ‘presença’”. Além disso, como prosseguiu, “envio também tarefas de caráter mais formal de forma a que as rotinas não se percam e criei uma turma na plataforma Leya – aula digital”. Tudo isto, “sempre com o cuidado de não subcarregar as famílias, pois tenho consciência que muitos pais, que estão em casa com os seus filhos, estão em teletrabalho”.
Na sua opinião, “os pais estão a ser impecáveis”, fazendo-lhe “chegar o trabalho dos meninos”. Aliás, “receber a gravação da leitura de um texto, de uma voz tenrinha, que acabou de aprender a ler enche-me o coração e assim ganho o dia”, confidenciou.
Em conversa com o nosso jornal, Sandra ainda recordou os tempos em que ainda não havia Covid-19: “Antes desta crise, a minha rotina diária passava por dar as minhas aulas, prepará-las, estar atenta à individualidade de cada um dos meus alunos, acionando tudo que estava ao meu alcance para responder prontamente a essas necessidades/individualidades. Seguiam-se as tarefas de dona de casa e mãe de família. E ainda sobrava um tempinho para cuidar da saúde, do corpo e da mente, indo ao ginásio”.
Agora, não. Agora “o dia a dia é bem diferente: sinto falta do barulho dos meninos no recreio, de agitação, do convívio com as pessoas, das conversas, da ida ao ginásio”. Neste momento, Sandra passa o dia “a verificar o email, a responder a emails, a preparar tarefas para enviar aos alunos, a pesquisar, a reunir virtualmente com os colegas de trabalho”. Mantém as lides domésticas e aumentou o apoio escolar à filha. Quanto a sair de casa, “só mesmo para ir às compras”, conforme garantiu ao labor.
Vantagens desta sua nova vida? “Só mesmo a de estar mais tempo em família”, porque, “de resto, só vejo desvantagens”. Sandra disse mesmo não ver o dia “de ver restabelecida” a sua rotina. E até já pensou na primeira coisa que vão fazer quando voltarem a ser “livres”: “Vamos à beira mar, correr na areia, molhar os pés, respirar maresia, levantar as mãos para o céu e agradecer a Deus por termos conseguido ultrapassar esta fase menos boa, pois, acredito que vamos conseguir, somos portugueses, somos guerreiros”.
Sandra tem uma filha a frequentar o 5º ano. É ela que “verifica a plataforma e/ou o email que os professores estão a usar para enviar os trabalhos, os transfere e se organiza. Só tenho que supervisionar”, referiu, acrescentando que “a filha é uma criança bem resolvida, percebe e respeita perfeitamente bem o que se está a passar”. Tanto que, “depois das tarefas escolares, dança, cria coreografias, grava-as e também tem recebido propostas de trabalho do CDN, pois é aluna do articulado de dança, a sua paixão”.
Não só pela sua família, mas também por todas as outras, Sandra apelou a todos “para que sejam conscienciosos, respeitem as diretrizes da DGS [Direção-Geral da Saúde], por vocês, pelos outros”. “Que nunca nos falte a esperança de dias melhores!”, rematou.

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