«A função de todos os profissionais de saúde é garantir os melhores cuidados possíveis»

Entrevista a Joana Guillet, sanjoanense que é enfermeira no Centro Hospitalar Universitário Vaudois em Lausanne na Suíça

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Qual o impacto do novo coronavírus no teu local de trabalho?

Sendo enfermeira, como era de esperar, o impacto é grande, uma vez que todos os profissionais de saúde estão na “linha da frente”, em contacto direto com a população, estando esta doente ou não, correndo alto risco de ser contaminada, tendo em conta toda a exposição a que estamos sujeitos. Trabalhei nestes últimos dias e para já a situação está calma, mesmo se número total de infetados já ultrapassa os 16.000 e temos o registo de 433 vítimas mortais*. Tenho quatro colegas de trabalho confirmados com a Covid-19 que estão em casa, mas encontram-se estáveis, e outros dois colegas enfermeiros que pertencem ao “grupo de risco” por terem problemas de saúde encontram-se já em casa em prevenção.

*dados oficiais de quarta-feira, às 14h00

De que forma as tuas funções estão a ser afetadas?

A função de todos os profissionais de saúde é garantir os melhores cuidados possíveis, protegendo-se de todo o contágio possível, e sensibilizar as pessoas relativamente à prevenção. Foram tomadas algumas diretivas no dia 13 de março que estarão em vigor até ao dia 30 de abril, mudando algumas rotinas: todas as pessoas com férias marcadas durante este período estão canceladas de maneira a estarem disponíveis para o hospital; visto que as escolas e infantários estão fechados foi organizado um infantário de campanha para os filhos do pessoal do hospital que não encontra outra forma de poder tomar conta das crianças, de segunda-feira a domingo das 6h30 às 20h00, para idades desde os quatro meses aos 14 anos; as visitas aos doentes estão proibidas, exceto, por exemplo, as visitas limitadas a doentes em cuidados paliativos; as cirurgias e consultas programadas estão limitadas, só as mais urgentes e necessárias é que estão a ser realizadas, pois todos os outros blocos operatórios foram postos à disposição caso haja um grande número de pessoas a precisarem de ventiladores e estes estão equipados para tal situação; a participação do exército em meio hospitalar, no que diz respeito à construção de infraestruturas se assim houver necessidade, ajuda no transporte de doentes, na logística e transporte de material, entre outras.

Os hospitais têm materiais de proteção suficientes para os profissionais e os doentes?

Penso que sim, pelo menos no que diz respeito ao meu local de trabalho, foi-nos garantido em comunicado pelo diretor geral do Hospital. Devido à rutura de stock, o Governo autorizou todas as farmácias a fabricarem a sua própria solução hidroalcoólica para desinfeção das mãos. O material de proteção para aqueles que estão em contacto directo com os doentes infetados também está assegurado. Para proteção dos doentes, é-lhes informado que devem lavar e/ou desinfetar as mãos sempre que necessário, as visitas externas estão proibidas e em caso de suspeita de contaminaçao pela Covid-19 é colocado em isolamento com máscara até que seja revelado o resultado do teste.

Qual o impacto deste surto no teu dia a dia, em particular, e nas estruturas do país em que estás a viver, em geral?

No meu caso tenho três filhos, uma de cinco anos e gémeos de três anos, confesso que tento-me organizar da melhor maneira possível, com o meu marido e a minha cunhada que já toma conta deles quando necessário. Sei que atualmente tenho sido um pouco mais exigente quanto a estas novas rotinas. Desde há duas semanas que estamos em casa e só eu e o meu marido é que saímos de casa para ir trabalhar ou às compras. Os míudos têm direito a “apanhar ar” no jardim cá de casa e de vez em quando a andar de trotinete no pátio. Tendo em conta o alto risco que corro de ser contaminada, acho que me sentiria culpada se algo de mais grave lhes acontecesse.

Tenho algum receio visto que a Suíça é um dos países da Europa com mais casos de Covid-19”

Que novas medidas foram adotadas pelo Concelho Federal (CF)?

O CF apenas reforçou a ideia de que as pessoas deviam ficar em casa, nomeadamente pessoas com 65 anos ou mais, assim como os que são considerados grupos de risco, só saem caso seja mesmo necessário. Em locais públicos só é autorizado um máximo de cinco pessoas com uma distância mínima de dois metros entre elas. Em algumas cidades foram também limitados alguns acessos, como à borda do lago, jardins públicos e parques infantis, de maneira a evitar os aglomerados de pessoas. Caso não seja respeitado, a polícia pode intervir e aplicar coimas no valor de 100 francos suíços a cada uma delas. Foi também anunciado que todas as PME, pequenos comerciantes, artistas, desportistas, pessoas independentes, etc, serão ajudados a nível financeiro durante este período mais crítico, até tudo voltar à normalidade. À semelhança de outros países europeus, as escolas, restaurantes e pequenos comércios estão fechados. Continuam abertos os supermercados, as farmácias, bombas de gasolina e quiosques. Os transportes públicos continuam a circular, mas com restrições/diminuição de horários.

As pessoas estão a cumprir as medidas na Suíça?

Quanto ao cumprimento destas novas diretivas pelo povo suíço, a verdade é que me sinto um pouco desiludida. Se de uma maneira geral há quem respeite, algumas pessoas têm dificuldade em aceitar, compreender ou pensam que nada lhes vai acontecer. Desde já queria felicitar o povo português e o Governo. Estou orgulhosa por terem agido o mais rápido possível e por respeitarem ao máximo as medidas de contenção.

Achas que as medidas adotadas pelo CF suíço deviam ter sidas tomadas antes?

Sim, tendo em conta a situação dos países vizinhos, nomeadamente a Itália. No cantão italiano (Ticcino) todos os dias entravam e saiam cidadãos italianos para trabalhar porque vivem perto da fronteira com a Suíça,. Quando foi decretada quarentena a todo o Norte de Itália, a Suíça continuou a permitir a entrada e saída desses mesmos cidadãos italianos. Quando começaram a aparecer os primeiros casos de Covid-19 no cantão, começaram por fechar os acessos a alguns pontos de fronteira entre os dois países, de maneira a centralizar a entrada numa das fronteiras principais, de forma a haver um melhor controlo. Mais tarde, quando os casos de Covid-19 começaram a aumentar a um ritmo acelerado, é que o cantão do Ticcino decidiu fechar todas as fronteiras com a Itália e mais tarde encerrou as escolas e alguns locais públicos, etc. Só quase duas semanas depois, é que o CF decidiu intervir e seguir um pouco o que se tinha já feito noutros cantões, que seguiram o exemplo do Ticcino, e impor as medidas de contenção a nível nacional. Cada cantão tem autonomia para tomar as medidas que acha ser as mais corretas e o CF só atua quando as medidas/leis têm que ser as mesmas para todo o território helvético. Sinceramente tenho algum receio visto que atualmente a Suíça é um dos países da Europa com mais casos de Covid-19, e que infelizmente está a seguir a mesma curva epidémica que a Itália.

Estás a acompanhar a evolução do vírus em Portugal?

Vou acompanhando pela televisão, pelas redes sociais e através dos meus pais, com quem falo todos os dias. Eles estão bem e em casa visto que os seus locais de trabalho assim o permitem.

Para quando prevês regressar a Portugal?

Estive aí na última semana de fevereiro, ainda tive sorte de poder ir, e estava previsto ir aí uns dias em maio, na altura do meu aniversário, mas para já está em “stand-by” até ver como correm as coisas. E se não for antes, em princípio, em agosto na altura das férias de verão. O regressar definitivamente para já não faz parte dos nossos planos.

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