A sala de aula do futuro não é a minha sala de estar!

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Desde há largos anos que quem se interessa pelo setor da educação ouve falar sobre a sala de aulas do futuro e, erradamente, a maioria das pessoas associava logo a salas de aula computorizadas, em que os alunos passariam a ter os conteúdos em formato digital e que o ensino passaria a ser, digitalmente, interativo.

Neste momento, olhando para a situação que hoje nos aflige, posso afirmar, quer se queira ou não, que o futuro chegou no dia 12 de março de 2020, com o encerramento de todas as escolas em Portugal.

O facto é que esse futuro chegou e Portugal não estava nada preparado para isso. Não existem protocolos de ensino à distância em Portugal no ensino obrigatório, excetuando para os casos específicos de crianças e jovens com necessidades de isolamento hospitalar, por exemplo, para além do ensino obrigatório nas universidades que já utilizavam o método de ensino à distância com aulas online. As famílias portuguesas não estão preparadas para a aprendizagem em casa por vários motivos, nomeadamente o facto de que a maioria dos alunos (por ex. em São João da Madeira) só ter contacto com um computador em ambiente escolar quando ingressa no 2.º ciclo, o que obriga a um trabalho de acompanhamento das aulas à distância pelos pais e que redobra o esforço das famílias. Esforço esse que ainda se torna mais difícil quando os dois pais estão em casa em teletrabalho e quando não existem computadores em número suficiente (os pais não podem deixar de trabalhar para que os filhos possam ter aulas). Se colocarmos ambos os pesos na balança, para que lado devemos pender?

Os formalismos, conteúdos e métodos tradicionais não se coadunam com este tipo de ensino à distância, sendo que temos um longo caminho a percorrer para podermos, verdadeiramente, enveredar por este tipo de ensino em massa, quer seja por necessidade (como é o caso atual), quer seja por opção.

Várias editoras tomaram a iniciativa e disponibilizaram as suas plataformas e conteúdos em formato digital, nesta altura de emergência, para que os alunos e professores pudessem aceder de forma gratuita, (e bem haja por isso) de forma a poderem ter algum tipo de continuidade da escola em casa.

Na realidade, o ensino no seu geral não estava nada preparado para esta situação e, como a situação é de emergência, não houve tempo para assegurar que cada aluno tivesse os meios necessários para aceder a este tipo de ensino. Estou a referir-me, claro, ao acesso à internet, ao óbvio computador e/ou tablet e indo também ao extremo de falar em impressora e scanner (ferramentas essas de que nem todos dispõem em casa, simplesmente, porque não os utilizam no seu dia a dia e não carecem dessa necessidade).

Falta perceber como é que um aluno de 12 anos se torna responsável para ficar em casa sozinho por falta de apoios do Estado aos seus pais, para que estes possam ficar com os seus filhos longe do perigo. Admitindo que até possam ficar sozinhos com os pais a trabalhar, apenas e só porque as empresas onde trabalham não encerraram e, como tal durante o horário de trabalho, estas crianças e jovens maiores de 12 anos ficam sozinhos deixados à sua sorte a olhar para um computador à espera que os vários professores coloquem trabalhos, para que estes o executem. Pergunto então qual é a idade certa para se ter essa maturidade e essa responsabilidade? Os jovens que terão de ficar sozinhos em casa e, de facto, lidar com a ausência dos pais, irão realmente cumprir com todas as regras? Falamos tantas vezes e alertamos para os perigos que a internet representa para os jovens “imaturos” e agora dizemos-lhes que podem estar à vontade?

Temos de ter verdadeira consciência sobre tudo o que se está a passar e pôr os pés bem assentes na Terra. É certo que temos e nos devemos adaptar às circunstâncias que nos rodeiam e todos nós vamos ter de “aprender” de novo. Mas, agora pergunto, a que preço?

A sala de aulas do futuro também não é a sala de estar das nossas casas, mas poderia ser se estivéssemos formatados para isso. As empresas já há muito tempo que perceberam que os horários fixos e rígidos podem ser prejudiciais ao bom desempenho dos seus profissionais e com as nossas crianças e jovens não será muito diferente. Cada ser humano desempenha melhor as suas funções segundo o seu próprio tempo metabólico e cerebral, daí a expressão “cada um ao seu ritmo”.

As empresas (as boas, pelo menos) deixaram de avaliar os seus funcionários mediante a assiduidade e cumprimento do horário de trabalho, mas sim, através de KPI’s (Key Performance Indicator), Indicador-chave de desempenho, ou seja, importa que se cumpram os objetivos dentro de uma determinada janela tempo e, desta forma, flexibilizam os tempos de trabalho para melhor gestão do processo de trabalho de cada um.

Esta é uma época que, apesar de trágica, pode ser de ouro para uma mudança de paradigma na educação. A introdução do digital que já existe na sociedade em que mais depressa uma criança aprende a manejar um tablet do que a falar e todo um setor da educação tem vindo a resistir a estes meios que, a meu ver, não servem para substituir em pleno o ensino “tradicional”, mas tem muito, mas mesmo muito, para lhe acrescentar.

Um dos perigos que existe com a passagem integral para o ensino à distância é o perigo de exclusão e de abandono em especial daquelas crianças e jovens mais desfavorecidos que por uma qualquer razão não têm acesso aos meios (computador e internet) e não podem ser deixados para trás. A escola como espaço físico é também (ou pelo menos assim se quer) um espaço que promove a equidade entre todos os alunos, onde aqueles que têm mais dificuldades têm acesso a apoios, o que se torna difícil se à distância não se conseguirem garantir os meios para esse apoio.

As crianças e jovens com necessidades educativas especiais precisam também que este sistema que venha a ser implementado de ensino à distância preveja a especificidade do apoio que cada uma destas crianças e jovens precisa.

Haverá também uma mudança de paradigma na economia do setor da educação, porque as famílias passarão a pagar mais, frequentemente, por conteúdos digitais e não pelos seus suportes. O livro escolar, por exemplo, há muito que poderia ser em formato digital, até pela própria questão do “excesso de peso” a que os alunos estão sujeitos e também pelo facto da Era em que vivemos e da geração da qual os nossos filhos que serão o nosso futuro fazem parte ser muito mais apelativa e a meu ver mais “eficaz”.

Não estavam as escolas preparadas para isto. Por isso ainda não se conseguiram organizar e é difícil para as famílias acompanharem os trabalhos que são pedidos nas várias plataformas que existem, porque uns professores preferem a plataforma da Leya, outros preferem da Porto Editora, outros o Classroom, outros o Teams, outros o Moodle, outros o Edmodo. Isto, apenas para falar de algumas das plataformas a que os alunos têm de recorrer para trabalhar. Todas elas com formatos diferentes, umas com mais funcionalidades, outras com menos. Mas, com tantas, é difícil para uma criança de 10 anos que até pode ser um nativo digital, mas não sabe (ou não sabia) trabalhar com um computador (porque isso não consta do programa de ensino da maioria das escolas antes do 5º ano) e, como tal, sobra para os pais a tarefa de estar em permanência a acompanhar o seu educando durante o período em que este estiver em “aulas”. Se muitos encarregados de educação estão em casa ao abrigo do apoio à família disponibilizada pelo Estado, muitos são os que por estarem em teletrabalho não têm esse tempo disponível por estarem eles próprios a trabalhar. Então qual será a solução? Como é que se apoiam essas crianças e jovens que terão que se “desenrascar” sozinhos e não o sabem fazer?

O facto de os trabalhos apresentados pelos professores também não serem todos em formato editável, ou seja, não poderem ser realizados diretamente no próprio documento e depois reencaminhados, também se torna como um entrave e não como um facilitador, na medida em que alguns trabalhos têm que ser realizados, como os próprios professores pedem no caderno, em que depois se tira uma fotografia ao mesmo e se envia por telemóvel. Agora pergunto onde está a qualidade do dito trabalho? Não dispomos já de “ferramentas” suficientes para que não tenhamos que recorrer à “moda antiga”?

As “ditas” plataformas digitais têm o propósito de nos facilitar a vida, não complicar. Por isso, por favor, vamos simplificar. Obrigada

Nesta parte de simplificação o papel do director de turma ganha uma importância acrescida na coordenação do trabalho dos seus colegas professores com a turma e na comunicação com os encarregados de educação, assim como o papel do pai representante de turma como pivot dessa comunicação entre os encarregados de educação e a escola.

Importa a todos que esta batalha se ganhe o mais rapidamente possível e que as nossas crianças e jovens possam ser felizes nesta aprendizagem.

Fiquem em casa! Essa é a melhor arma na prevenção à Covid-19.

Ricardo Mota

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