Até ao confinamento

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No início de março, optei por enviar para o jornal labor um longo texto, dividido em três partes, cada um correspondendo a uma edição semanal, por prever que o mês seria difícil e pouco tempo me restaria para o exercício de escrita.

Assim foi.

Apesar de na primeira semana de março estar convalescente, devido a um bloqueio no esófago, obrigando-me a fazer uma endoscopia baixa, que não resolveu o problema e uma alta, definitiva, no bloco de pequenas cirurgias do Hospital de Santo António do Porto, tudo na madrugada de 29 de Fevereiro, consegui ter discernimento para decidir o que publicar nessa semana. Como senti que a aproximação do vírus Covid-19 era inevitável, naquele mesmo dia surgiu o primeiro caso em Portugal, com internamento no mesmo hospital, onde horas antes eu tinha feito os tratamentos, fiquei apreensivo, decidindo editar uma breve história da AEJ, nos moldes atrás descritos.

Nos 14 dias seguintes fiquei de alerta aos possíveis sintomas físicos. Recorrendo a uma tabela sintomática ilustrativa, publicada pela Organização Mundial de Saúde, fui avaliando o meu estado, esperando que rapidamente ultrapassasse o período de incubação, sem qualquer complicação. Entretanto, surgiam notícias de testes ao vírus Covid-19 positivos nos concelhos de Ovar e de Santa Maria da Feira, com uma grande proximidade ao meu perímetro de residência e de trabalho. Na segunda semana de março, a aproximação foi cada vez maior. A freguesia onde habito passou a ser notícia nacional e a freguesia onde trabalho, faz fronteira com outra freguesia, que se tornou mundialmente famosa, por ser dali oriunda a mãe infetada a fazer o primeiro parto nessa condição. No final dessa semana, estando eu a perfazer a quinzena após noite no Hospital Santo António, mais confiante portanto, sou informado que a esposa de um colega de trabalho tinha acusado positivo. Apesar do colega ter ficado em isolamento uns dias antes, desde que havia suspeitas de contaminação, o perigo de contágio era agora muito superior.

A terceira semana de Março foi terrível. Cada dia, mais casos em Portugal, piores notícias vindas de Espanha e de Itália, enfim, do mundo inteiro. Trabalhei a semana toda de máscara, sempre a limpar as mãos, a desinfetar objetos, impondo regras sanitárias aos restantes elementos da equipa de trabalho, evitando o aproximar, o aglomerar, o falar sem máscara. Enquanto isso, no município de Ovar pedia-se uma cerca sanitária e o Estado ficava em emergência. A dupla condição e a confusão gerada ainda me permitiram atravessar a calamidade, com um certificado da empresa durante dois dias. Entretanto, apesar dos seus esforços, junto do SNS24, para realizar o teste ao vírus Covid-19, apenas ao fim de uma semana, o meu colega conseguiu fazer o exame. Ainda assim, apenas dois dias depois, o resultado foi divulgado – positivo. Ao chegar a casa, no final de sexta-feira à tarde, respondo ao inquérito telefónico do SNS24, apesar de eu não ter sintomas, só tinham passado nove dias desde o último contacto com o infetado, sendo que a partilha de espaço fechado, por mais de 15 minutos, foi condição determinante. Passei a estar referenciado, ficando em isolamento profilático durante cinco dias.

O fim de semana foi penoso. Mantive-me de máscara. Aprendi finalmente a respirar com este equipamento de proteção individual. Lembrei-me da respiração de Carlos Lopes, campeão olímpico, enquanto fazia a maratona: pelo nariz. Deste modo, a boca não seca tanto e não é preciso beber tanta água. Aproveitei o isolamento para a leitura, colocando em dia a leitura diária do Público e dedicando-me à releitura do livro “Os Irmãos Karamazóv” de Fyodor Dostoevsky.

Os restantes dias estive em teletrabalho, sempre confinado ao quarto. Uma experiência curiosa, sem tempos de deslocação: acabar de lavar os dentes, em seguida ligar o portátil e entrar em contacto com os restantes elementos da empresa; o regresso “a casa”, em sentido contrário, fechar o portátil e começar a ler, ou fazer outra atividade (aproveitei para visualizar uma série britânica, sobre os adeptos de futebol do Surderland). Sintomas, não tive. Passei a medir a temperatura duas vezes por dia (obtendo valores disparatados como 34,9º ou 35,2º); não tive dores de cabeça, nem de garganta, nem outras complicações (comi com apetite e não perdi o olfato). Apesar de tudo, perdi peso. Teste não fiz. Prioritários por estes dias eram os profissionais de saúde e os doentes com sintomas. Entre estes contavam-se alguns colegas da empresa, que apesar de terem pequenos sintomas, o teste efetuado revelou estarem limpos do Covid-19.

Ao quinto dia tive alta. Apesar disso, como a cerca sanitária de Ovar se tinha tornado mais seletiva, não pude sair do concelho. Passei do isolamento profilático para o estado de quarentena comunitária. Deixei o quarto, para começar a trabalhar em teletrabalho em qualquer compartimento da casa, podendo fazer as refeições com a restante família.

No final dessa tarde, outro caso do vírus Covid-19, provocado por outro foco, colocou a totalidade da empresa em quarentena. Voltei a ficar em isolamento. Desta vez, não me confinei ao quarto. Nem em teletrabalho.

O meu segundo isolamento profilático já terminou.

Continuo sem sintomas.

Aprendo a viver em confinamento.

O relato desta experiência ficará para uma próxima edição.

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