Pedro Alves, de 43 anos, é um desses motoristas de longo curso. A trabalhar no setor dos transportes de mercadorias há 18 anos, 17 dos quais na empresa Transportes Álvaro Figueiredo, este sanjoanense acabou há dias de fazer mais uma viagem de trabalho por essa Europa fora. Foi a segunda que fez em plena crise pandémica e esta, tal como a primeira, tão cedo não esquecerá. E não é pelos melhores motivos!
Se “em tempos [ditos] normais” já não é fácil, com esta pandemia é caótico”, começou por garantir ao labor, acrescentando que, “por mais que nos protejamos com luvas e máscaras”, tanto ele como os colegas de profissão não sabem “onde está o perigo”. Ainda mais quando dependem de casas de banho e de duches públicos.
A 30 de março, Pedro Alves estava a viajar da República Checa para Espanha, onde “excecionalmente” ia “carregar uma carga”, quando falou com o nosso jornal. Encontrava-se em França e faltava apenas um dia para chegar a “porto seguro”, que é como quem diz ao seu país e à sua terra natal. Não é que em Portugal e em S. João da Madeira (SJM) não haja Covid-19. Mas, como admitiu, “o meu maior medo é ficar infetado” no estrangeiro e “de, um momento para o outro, precisar de ser hospitalizado”. “Tenho receio do ‘bota’ para o lado [de ser mais um número e não receber os devidos cuidados médicos]”. E, “pelo menos, em Portugal ainda existe esta possibilidade”.
Inicialmente era para ter ido para a Eslováquia, mas com todo este caos que se está a viver “a mercadoria [componentes e acessórios para o setor automóvel] ficou na República Checa”. Aqui “a área da produção está a trabalhar praticamente toda”. E também é obrigatório o uso de máscara. Aliás, “em meu entender, devia ser em todo lado”, contudo, como também reconheceu, “sei que não há máscaras nem luvas para todos”.
Ainda em relação à República Checa e a outros países europeus, Pedro Alves contou que “as próprias empresas já elaboraram sistemas de distanciamento”. “Não entramos em armazéns e não temos contacto direto com as pessoas”, descreveu, assegurando que estas “estão conscientes que não pode haver aproximação por uma questão de segurança”.

Chegam a “tomar banho dentro do próprio reboque”

Na estrada já há 14 dias, ou seja, há mais quatro dias do que é habitual, este camionista de SJM procurou ao máximo se confinar ao camião. Contou ao labor que já partiu de Portugal “prevenido” trazendo alimentos para cozinhar e “água suficiente” para – imagine-se – “tomar banho dentro do próprio reboque”. Perante toda esta situação, “tentamos fugir ao máximo a locais públicos”.
“Somos todos ‘inimigos’. Ninguém confia em ninguém”, afirmou Pedro Alves, cujo “medo” é também partilhado pela família. Casado e pai de dois filhos menores, quando regressou a casa desta última vez não houve abraços nem beijos, como sempre houve. Por uma questão de precaução.
Vivem-se tempos em que todo o cuidado é pouco e, contrariamente ao que seria lógico, os motoristas vindos de além-fronteiras, após vários dias de viagem, não estão a ser testados à Covid-19. Já depois de estar em Portugal, este sanjoanense disse saber que “um motorista da empresa está infetado e internado no Hospital de S. Sebastião”, sem, no entanto, adiantar “pormenores”.

“Empresas do setor vão ser obrigadas a parar por não terem o que transportar”

“Em termos económicos está a ser muito mau”, avisou Pedro Alves, para quem, por este andar, “as empresas do setor vão ser obrigadas a parar por não terem o que transportar”. Este sanjoanense acredita mesmo que “tão cedo não voltará à estrada”. Isto, porque no caso da sua empresa trabalha maioritariamente com o setor automóvel e como este está quase parado não há trabalho. “É que isto tudo acaba por ser uma cadeia”, como fez ver.
Com a Europa praticamente parada, “estamos a fazer quase dois mil quilómetros sem uma carga”, o que representa “um prejuízo de dois mil euros por camião”. Contrariamente a Pedro Alves, que ainda carregou em Espanha, houve “colegas que vieram da Polónia vazios para Portugal”. Daí ter referido não saber “como as empresas vão aguentar”.
No caso da Transportes Álvaro Figueiredo, onde trabalha, entrou em lay-off até 3 de maio.

 

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