“Não acredito que seja possível retomar a competição e se isso acontecer estará desvirtuada”

João Tiago, treinador da equipa sénior de basquetebol da AD Sanjoanense

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Porque aceitou o desafio de treinar a Sanjoanense?

A história e passado da Sanjoanense são conhecidos por todos. É um clube histórico do basquetebol português. Poder fazer parte dessa história e tentar acrescentar algo de positivo são algumas das principais razões. O ambiente que sempre senti no Paulo Pinto como adversário sempre me agradou. O iniciar um projeto desafiante com um grupo novo também me motivou. Depois de várias conversas e ajustados alguns pormenores não foi difícil.

E qual era o ambiente que sentia quando visitava a Sanjoanense como adversário?

Um ambiente exigente, de gente conhecedora da modalidade e sempre presente. Sempre deu gosto jogar no Paulo Pinto, primeiro como adversário e agora estando do mesmo lado. É um apoio que ajuda a equipa a fazer mais e melhor.

Há alguma característica que evidencie na ADS relativamente a outros clubes?

O conhecimento que os nossos adeptos demostram acerca do basquetebol e a exigência que nos é transmitida são fatores que saliento. Não é fácil “agradar” a 100%. Nos jogos dá para sentir isso. Não nos queixamos de falta de apoio porque sempre tivemos o pavilhão muito composto. Chegamos a encher várias vezes, mas sente-se que não chega só ganhar. Os adeptos são conhecedores do basquetebol e, por isso, exigem, o que nos faz querer fazer mais e melhor.

“Chegamos a encher várias vezes, mas sente-se que não chega só ganhar”

Quando chegou ao clube, quais as primeiras impressões?

Conhecia todos os atletas. Alguns já tinham sido meus jogadores, enquanto os outros conhecia como adversários. Iniciar o trabalho com um grupo jovem e com muitas caras novas nunca é fácil, mas senti, e ainda sinto, muita vontade de fazer as coisas bem. Estamos, ou melhor, estávamos, a crescer e sentir essa evolução diária é muito estimulante.

Sentiu algumas dificuldades iniciais, quer ao nível de equipa quer logísticas?

Foram as dificuldades normais de quando começamos a treinar com um grupo novo e num clube novo. Há sempre um período de adaptação que é preciso ultrapassar, mas sempre senti vontade, tanto dos atletas como da estrutura do clube, em facilitar ao máximo essa adaptação.

Com que ambições entraram esta época na Proliga?

Definimos objetivos parciais que foram sendo ajustados ao longo da competição. Alguns para a época, como assegurar a manutenção e, antes da pausa, de chegar aos playoffs. Também fomos definindo objetivos que tinham a ver, por exemplo, com vitórias consecutivas ou com algum parâmetro estatístico.

Qual o balanço que faz até ao momento da prestação da Sanjoanense na Proliga?

Achamos que o balanço é positivo mas podia ter sido melhor. Das 10 derrotas que temos cinco foram por cinco ou menos pontos. Desses cinco jogos tivemos três que, claramente, podíamos ter ganho. E três vitórias numa competição tão equilibrada como a Proliga fazem muita diferença e colocavam-nos numa posição bem mais confortável.

“Achamos que o balanço é positivo mas podia ter sido melhor”

Algum momento em particular ao longo das 22 jornadas já realizadas que destaque?

A forma como demos a volta ao último jogo em São Paio de Gramaços. Por ser o encontro mais presente na nossa memória e porque simboliza aquilo que procuramos. Ser uma equipa que nunca desiste e acreditar que mesmo a perder por nove pontos a quatro minutos do fim podemos dar a volta e acabar por ganhar.

O desporto sofreu há cerca de 1 mês uma paragem forçada. De que forma esta suspensão afeta, ou pode afetar, não só a competição como as próprias equipas?

Afeta muito, tanto a competição como as próprias equipas. Treinamos até dia 12 de Março. Estávamos numa sequência de quatro vitórias nos últimos cinco jogos e sentíamos que podíamos fazer mais e melhor até ao final da fase regular.

Não acredito que seja possível retomar a competição e se isso acontecer estará desvirtuada. As equipas não treinam há quase um mês e os grupos já não são os mesmos. As equipas que tinham jogadores estrangeiros fizeram o que era acertado e permitiram que regressassem para perto das suas famílias.

Caso seja possível o regresso da competição, os objetivos da Sanjoanense mantêm-se inalterados?

Sim. Tentaremos fugir aos lugares de baixo e assegurar o melhor lugar possível para participar no playoff.

Com o momento que se vive, como acha que se deveria proceder ao regresso para que o campeonato retomasse a normalidade da melhor forma possível?

Não acho que se deva regressar. A regressar tem que haver um período mínimo de preparação para as equipas, pois estão paradas há bastante, ainda para mais se a proposta for realizar jornadas duplas.

“Não acho que se deva regressar”

Se acha que não se deve retomar os campeonatos, como encara esta época? Como se não tivesse existido?

Esta época vai ser sempre encarada como uma época atípica. Acho difícil que seja retomada, mas não sou eu que decido. Contudo, mesmo que seja retomada não vai perder esse carimbo de “diferente”, mas nunca como algo que não existiu. Não vamos ter 100% de justiça nas decisões que forem tomadas, por isso acredito que o que já foi determinado pelos regulamentos e conquistado pelos clubes deve ser mantido. O resto, por mais injusto que seja, não deve ser alterado.

“Esta época vai ser sempre encarada como uma época atípica”

E com este atraso causado com a paragem forçada, como será a próxima temporada?

Sinceramente não sei. As dificuldades dos clubes já são muitas numa situação normal. Muitos dependem de apoio das Câmaras Municipais e de patrocinadores locais. Com esta situação que se vive esses apoios não vão ser fáceis de assegurar e vai obrigar a um trabalho intenso por parte das direções.

A FPF e a AFA optaram pelo cancelamento de todas as competições jovens (nacionais e distritais). Acha que a Federação Portuguesa de Basquetebol deveria seguir o mesmo caminho?

Acho que vai ser esse o caminho nos escalões de formação. No entanto, se ainda formos a tempo disso, e mal se possa, deviam ser organizadas competições pelas Associações ou juntando algumas Associações. Um período tão grande de pausa não é benéfico para ninguém e treinar e não competir também não motiva os mais jovens. Não sei é se irão existir condições para isso.

De que forma atletas, clubes, treinadores e entidades que tutelam o basquetebol (ou outras modalidades) devem aproveitar esta paragem?

Para as entidades que regulam a modalidade não tenho sugestões. Sei que qualquer decisão que seja tomada não vai ser 100% justa. Já os atletas devem aproveitar para, com a ajudas dos seus clubes e treinadores e de forma criativa, não pararem completamente e fazerem outras coisas. Ler mais, ver filmes com conteúdo (ou não), ajudar os pais em casa, experimentar tarefas que nunca fizeram e lutar contra a preguiça, que é normal nestas situações. Para os treinadores, agora temos aquele tempo que nos queixamos de nunca ter. Devemos aproveitar para avaliar o que temos feito e pensar no que podemos melhorar e aprender. Não faltam formas de o fazer.

E como treinador deu algumas recomendações aos seus atletas para manterem alguma regularidade física?

Nós somos uma equipa amadora, com muitos estudantes e trabalhadores e alguns ainda continuam a trabalhar. Foram sugeridas e partilhadas algumas sugestões. Acredito e sei que alguns continuam, dentro das suas possibilidades, a fazer alguma coisa.

 

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