Tempo no confinamento

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A falta de noção de tempo no confinamento causa desconforto. Não o dia a dia, pois o ritmo diário é mantido de acordo com a luz solar e horário das refeições, mesmo com tolerância, obrigando a manter uma certa ordem.
A desordem começa quando não se sabe qual o dia da semana ou o dia do mês. Apesar do esquema diário ser semelhante, é na sucessão de dias idênticos que se sente o tal mal-estar. Dias sem sair de casa, dias com a mesma rotina, dias monotemáticos, sempre com a mesma conversa com o mais diverso interlocutor.
Para contrariar a incerteza, recorro à paginação semanal dos colunistas do jornal diário, que avidamente leio. Ao ver cada coluna, sei qual é o dia da semana e assim, tranquilizo-me.
A alvorada é feita precisamente com o jornal a acompanhar o café matinal e o pão fresco, recolhido minutos antes ao portão (uma das vantagens do confinamento, entregas diárias pela madrugada). Sem pressa, sem preocupações de cumprir horários, sem calcular tempos de transporte, metade do jornal fica lido.
Sem atividade profissional, opto pelo exercício físico, dedicando tempo à malhação. O que começou por ser um concerto de expetoração, oferecido por uns brônquios carregados e uma caixa de ar pouco estimulada, ao fim de uma semana transforma-se numa tosse suave, ou mesmo, apenas e só numa respiração com inspirações e expirações breves. A forma física, sem adjetivo, permite-me intervalar os medicamentos da asma, suavizando a posologia, feito apenas alcançado em dias de verão, em climas claramente quentes e pouco húmidos.
A acompanhar o exercício, para manter a cadência, opto por ouvir música. Oportunidade para escutar vários dos pequenos concertos, oferecidos por uma rádio norte-americana (NPR). Escolho o primeiro, muitas vezes sugerido pela plataforma de partilha e a partir daí fico a aguardar pela escolha seguinte, em modo automático selecionada pelo algoritmo. Desta forma, passei a conhecer uma série de bandas, que não fazia a mínima ideia que existiam, e muitas delas a partilhar com os meus conhecidos, familiares ou amigos.
Entretanto, dou o lugar a outro membro da família: a partilha é um dos segredos do confinamento. Outro, é estar cada um ocupado com as suas tarefas, independentemente das horas despendidas, em diferentes divisões da casa. A reunião familiar, dos quatro elementos, faz-se à hora das refeições. As tarefas para esse momento estão previamente definidas, para não haver discussões sobre inércias individuais, ou evidências de preguiça. Momento para falar dos mais variados assuntos, para trocar impressões sobre o evoluir da infeção na região, no país e abordar o quotidiano de cada um: inscrições para exames, trabalhos enviados pelos professores para os mais novos, tarefas profissionais da cara metade, tarefas domésticas já realizadas ou a programar, ou mesmo, para partilhar as conversas com outros confinados, espalhados pelo país. Tempo até para os inevitáveis conselhos paternais, que surgem sempre nestes momentos.
Depois de almoço, oportunidade para executar aqueles “trabalhos” há muito adiados. Se necessito de mão-de-obra para ajudar tenho que requisitar com antecedência. Terminada a tarefa, oportunidade para colocar a leitura em dia. Se a meteorologia ajudar, umas horas passadas no exterior a fixar vitamina D, é a melhor opção. Caso contrário, a partilha de compartimento, sem incomodar os outros.
Nesta fase do dia surge a necessidade, por defeito profissional, de controlar indicadores. Escolho um diferente cada dia, para evitar sistematizações e repetições na quinzena: fluxos financeiros, fluídos de abastecimento à casa, tráfego de internet no telemóvel, entre outras verificações. Também é uma boa hora para utilizar os telefones e colocar a conversa em dia com os demais destinatários.
Pelas 18h30, liga-se a televisão. Procura-se um filme, um episódio de uma série, em site especializado e até ao jantar, com os óculos na cara, atenta-se no programa escolhido. Depois de jantar, um pequeno zapping, até à hora da série do canal 2. Terminada a visualização, escolhe-se outro programa aleatoriamente e por mais meia hora, ou coisa e tal, pois o sono começa a apertar.
A rotina criada é interrompida com a chegada do jornal labor, entregue pelo carteiro, à quinta-feira. Um facto diferente, que ajuda a colocar ordem no dia da semana.
Curiosamente no domingo passado, o corpo pediu mais descanso e a alvorada foi já tardia. A confirmação humana, mesmo em tempo de confinamento, dos textos sagrados.

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