Cerca de um mês depois da suspensão e já depois de optar pelo cancelamento de todas as competições jovens, a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) decidiu dar por terminadas as provas nacionais não-profissionais de futebol e futsal. A decisão, tomada no passado dia 8 de abril, surgiu depois de reunir com as associações distritais e regionais e foi divulgada num comunicado onde a entidade que tutela o futebol nacional sublinha que “continuam a não estar reunidas as condições de saúde pública para que clubes com estruturas amadoras, como é próprio das provas em que participam, possam treinar e competir em segurança”. Para além disso, a FPF recorda que “vigora em Portugal o Estado de Emergência, pelo menos, até ao dia 17 de abril, sendo possível a sua prorrogação”, circunstâncias que “impedem o normal decurso das competições, sendo imprevisível antever quando e se tais condições de saúde pública estarão reunidas ainda durante esta época desportiva”. “Assim, a Direção da FPF entendeu dar por concluídas, sem vencedores, todas as suas competições seniores que se encontram nesta data suspensas, não sendo atribuídos títulos nem aplicado o regime de subidas e descidas”, esclarece o organismo acrescentando que “analisará e comunicará com a maior brevidade possível de que forma serão indicados os dois clubes que acedem à II Liga de futebol, bem como os representantes de Portugal na Liga dos Campeões de futebol feminino e de futsal masculino”.

Numa decisão que parece não reunir consenso entre clubes, a Associação Desportiva Sanjoanense, que competia na Série B do Campeonato de Portugal, é um dos que viu interrompida a atual época desportiva a nove jornadas do fim quando ocupava a sexta posição a oito pontos do segundo lugar, que, juntamente com o primeiro, dava acesso à fase de promoção. “Achamos que é a solução possível, visto que ainda não estão reunidas as condições de segurança para retomar o campeonato”, sublinha Carlos Rui, presidente da AD Sanjoanense – Futebol SAD, admitindo, no entanto, que é uma decisão “penalizadora” para um clube, que “estruturou a equipa com um plantel jovem com o objetivo de promover jogadores”. “É óbvio que para quem quer fazer montra desses atletas a falta destes últimos nove jogos é penalizador”, explica, assegurando que “70%” do “equilíbrio financeiro” reside precisamente em “tentar promover e vender, como se verificou na temporada passada”. “Esta paragem vai penalizar-nos imenso porque os momentos decisivos do campeonato, onde os clubes começam a apertar as suas observações, estavam a aparecer. Nós tínhamos cinco jogadores referenciados por outros clubes e agora o que poderá acontecer é uma incógnita”, acrescenta Carlos Rui, garantindo que “esta quebra financeira vai refletir-se nos clubes”. E é precisamente o impacto económico o aspeto que mais preocupa o presidente da AD Sanjoanense – Futebol SAD para a próxima época. Com a maioria dos clubes a “viverem de alguns patrocínios da indústria e comércio local”, que Carlos Rui reconhece que estão a ser “muito penalizados” pelo momento que se vive, na próxima temporada o responsável acredita que muitos dos parceiros poderão não ajudar. “Não por não quererem, mas por não terem possibilidades”, explica, revelando que “o orçamento para a nova época vai ter de ser ajustado”, mas que a intenção da SAD é “continuar com a equipa técnica e manter o núcleo duro do plantel”.

Ainda sem qualquer decisão por parte da Federação Portuguesa de Futebol quanto aos moldes em que decorrerão as competições nacionais não-profissionais na época 2020/21, Carlos Rui reconhece que “esta paragem era uma boa altura para a FPF fazer a reestruturação dos quadros competitivos”, uma vez que considera que o modelo atualmente em vigor “não é justo”. “Em 72 equipas só duas sobem à 2.ª Liga. Está na altura de se mudar os quadros competitivos”, explica, apelando aos adeptos e sanjoanense para continuarem a apoiar o clube e para se “aproximarem mais do futebol sénior”. “Temos muita ambição para levar a Sanjoanense para outros patamares, mas ainda não estamos preparados para isso em termos financeiros nem em infraestruturas. Isso não pode ser um projeto de dois anos. o Clube tem de gerar as suas próprias receitas e ser autossustentável”.

Para Paulo Moreira, presidente do Dínamo Sanjoanense, a decisão tomada pela FPF também é a mais acertada, ainda que traga consequências desportivas para o clube que vivia um dos seus melhores momentos. Depois de uma primeira fase de grande nível, o Dínamo preparava-se para entrar na segunda etapa do Campeonato Nacional da 2.ª Divisão e era uma das equipas participantes com fortes possibilidades de lutar pela subida ao escalão principal. “Estava a ser uma época muito positiva para a equipa sénior. Os resultados desportivos foram, com toda a certeza, a melhor época de sempre. Pena que não tenhamos tido a possibilidade de terminar esta fase que tanto desejávamos, pelo que, naturalmente, ficou um sabor amargo. Também os juniores e iniciados conseguiram apurar-se para a fase de subida aos campeonatos nacionais, enquanto os infantis e benjamins estavam na fase de apuramento de campeão. Os juvenis ficaram a um lugar na tabela que lhes permitiria disputar também o apuramento de campeão, sendo que os traquinas continuam com excelente desempenho na sua fase de aprendizagem. Enfim, seria provavelmente a melhor época de sempre a nível desportivo”, explicou o dirigente, frisando, no entanto, que o bem estar deve sobrepor-se aos interesses desportivos. “Foi difícil aceitar que este vírus maldito deitou tudo isso por terra, mas neste momento o mais importante é a saúde de todos. Essa deve ser a primeira prioridade”.

Com os moldes desportivos da nova época ainda por definir, Paulo Moreira acredita, no entanto, que “esta calamidade vai colocar em causa muita coisa” quer ao nível desportivo como económico e admite mesmo a possibilidade de alguns clubes não conseguirem recuperar e refere que “deveriam haver subidas e descidas”, ainda que reconheça tratar-se de uma “questão muito delicada”.

Quanto à nova época, que deverá ser acompanha de dificuldades económicas, o dirigente destaca a necessidade de “algumas restrições ao nível de quantidade de pessoas juntas”, acompanhadas das precauções essenciais para prevenir o contágio, como a limpeza e desinfeção frequente dos espaços e pessoas.

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