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Algumas até rezaram juntas por videochamada 

 

Esta última Páscoa foi “diferente”. Mas, apesar de todas as restrições impostas pelo estado de emergência em que o país se encontra, foi “uma Páscoa crente” e, para muitos, vivida até mais intensamente. Que o digam Emília Pereira e Susana Oliveira, ambas catequistas na Paróquia de S. João da Madeira (SJM).

Emília, de 59 anos, começou por dar catequese nas Caldas de S. Jorge. Nesta freguesia de Santa Maria da Feira viveu e cuidou dos avós até eles “partirem”. Entretanto, veio morar para a SJM, terra natal do seu pai, onde está há mais de 30 anos. Mesmo residindo cá, ainda continuou a ser catequista nas Caldas de S. Jorge, deixando de o ser há quatro anos, quando passou a catequizar na paróquia sanjoanense.

Desta vez, Emília passou o domingo de Páscoa em casa e sozinha, porque, contrariamente a outros anos, não pôde estar com os irmãos por estes residirem fora de SJM e terem estado impedidos de circular entre concelhos. “Normalmente ia a casa da minha irmã no domingo e na segunda-feira eles vinham cá beijar a Cruz”, contou ao labor esta catequista há cerca de 25 anos.

 

“Quem tem fé sabe que nunca está só”

O “beijar a Cruz”, os abraços, os beijos e a casa repleta de gente tiveram, pois, de ser adiados para 2021. Mas não foi por isso que Emília deixou de fazer quase tudo o que era habitual neste dia. Depois de assistir à missa transmitida no Youtube (aliás, já tinha feito o mesmo em relação à vigília pascal), “fiz um almoço requintado na mesma [polvo à lagareiro, o seu prato preferido, e o tradicional pão de ló]”, com direito à melhor louça que tem lá por casa.

Da parte da tarde, viu televisão, falou com o irmão e rezou juntamente com a irmã e uma sobrinha que também é sua afilhada, por videochamada, a oração que o pároco, Padre Álvaro Rocha, enviou a todos os paroquianos sanjoanenses.  Pelo meio houve telefonemas e mensagens enviadas, através do telemóvel e das redes sociais, por muitos amigos. Lá está… a tecnologia serviu para celebrar a Páscoa e, ao mesmo tempo, matar saudades de quem já não vê, pessoalmente, há várias semanas.

Emília garantiu ao nosso jornal que teve “um dia muito tranquilo”, sentindo-se “sempre acompanhada”, porque “quem tem fé sabe que nunca está só”. Além do mais, “porque me hei de queixar se vejo tantas pessoas nos hospitais internadas e outras a perderem familiares e quase sem poderem se despedir deles?”, questionou, acrescentando: “Não consigo queixar-me perante o que se passa no mundo”.

Em seu entender, “o mais essencial na vida é ter saúde e haver entreajuda, partilha, amizade. O resto é supérfluo”.  “Viver este tempo de quaresma, de ‘deserto’, tem dado muito para pensar e refletir nisto”, disse ainda esta técnica oficial de contas, para quem “há tanta coisa que podemos abdicar e nem sabíamos”.

Segundo Emília, estes tempos de pandemia permitem tomar consciência de que “podemos abdicar [por exemplo] de um simples café tomado na rua ou de fazer uma viagem” e do quão somos capazes de nos adaptar a uma vida nova.

 

“Ainda consegui ir almoçar com os meus sogros, porque vivem na Margonça, que pertence ao mesmo concelho”

Para além de catequista, Susana, de 44 anos, é ainda ministra extraordinária da comunhão, cursista e pertence à Pastoral do Batismo e ao Movimento da Mensagem de Fátima. Tudo isto em S. João da Madeira. Apesar de viver em Vila Chã de S. Roque (Oliveira de Azeméis), freguesia de onde é o marido, “faço tudo em S. João da Madeira, acabando por praticamente só vir dormir a S. Roque”, como explicou ao nosso semanário.

No domingo de manhã, tal como Emília, também assistiu à eucaristia celebrada pelo Padre Álvaro Rocha através do Youtube e “ainda consegui ir almoçar com os meus sogros, porque vivem na Margonça [Vila de Cucujães], que pertence ao mesmo concelho”. À tarde e já de volta a casa, “rezámos em família [Susana, o marido e os dois filhos] a oração entregue pelo Padre Álvaro” e depois “fomos fazer o mesmo em casa da vizinha da frente”. “Foi muito engraçado, porque o meu marido pegou numa campainha pequenina que tem e saiu para a rua como se fosse o compasso pascal. Rezámos, convivemos, só não beijámos a Cruz”, relatou.

De acordo com Susana, apesar da distância e de todos os condicionalismos, “foi uma Páscoa muito mais calma e familiar, não tendo havido tanta correria”. O não poder sair do seu concelho de residência não foi coisa que tivesse custado muito suportar, porque “nunca vou para fora nesta altura do ano”. Além disso, as saudades, sobretudo, dos pais que vivem em Arrifana foram atenuadas através de uma videochamada feita em conjunto com os tios e primos. “Partilhámos desta forma um bocadinho da nossa tarde”, confidenciou, assegurando que “a minha família é muito unida”. Tanto que em outros anos, como a casa dos pais era sempre a última a receber a Cruz, “jantavam sempre lá 15, 16 pessoas”.

Ainda em conversa com o labor, Susana fez questão de dizer que gostou “imenso da Via-sacra que o Padre Álvaro fez”: “Apesar de não ser comunitária, na rua, ‘mexeu’ muito comigo. Deu para interiorizar mais e meditar. Foi muito bonito”. Terminou, partilhando um desejo: “Espero que tudo isto passe rápido, para podermos voltar à nossa rotina do dia a dia, podermos abraçar, dar beijos, conviver, estar juntos!”.

 

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