Números na pandemia

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No passado fim de semana ficou visível, por todo o país, a diferença entre os valores apresentados do número de casos de infeção de covid-19. Por um lado, os valores registados pelos delegados de saúde locais e por outro o boletim epidemiológico da Direção-Geral de Saúde, ambos com atualização diária. Salvaguardando-se estes últimos com a referência que apenas reportam 78 a 79% dos casos.

Caso semelhante havia acontecido há umas semanas atrás, no concelho do Porto, com a Direção-Geral da Saúde a duplicar o número de infetados para este concelho, justificando o erro com contagem dupla, tendo prontamente identificado o problema e retificado o método de contagem.

Desta vez, o diferendo numérico deveu-se à supressão do número de casos apresentados pelas autarquias, que reportavam os dados indicados pelos delegados de saúde concelhios e por indicação da Direção-Geral de Saúde passaram a estar indexados ao boletim epidemiológico, atrás referido. Ou seja, ao número de casos apresentados para cada concelho, deve-se fazer um acréscimo de 22%, para termos a noção da realidade.

Esta medida centralizadora permite desconfiança da população, que ao seguir os dados relativos ao seu concelho, verifica, de um dia para o outro, a redução do valor e obviamente, passa a duvidar dos dados apresentados. Não me parece que com esta medida, haja vontade em penalizar os delegados de saúde locais, nem colocar em causa a sua competência.

Há sempre várias formas de apresentar números.

Apesar do lamentável número de óbitos provocados pela pandemia, em março de 2020 morreu menos gente que em igual período de 2018. Quando foi publicada esta taxa, os jornais sensacionalistas do país não tinham manchete. Os mesmos que às primeiras mortes, não respeitaram privacidade e lutos dos familiares, noticiavam que afinal, apenas 2% dos falecidos de março tinham sido vítimas da covid-19. O confinamento nacional estava a resultar e esta prática poucas manchetes poderia trazer.

O número de casos suspeitos, no dia em que escrevo, praticamente 140.000 habitantes, nunca pode ser relacionado com o total da população portuguesa. Caso fosse, jamais seria respeitado o confinamento e dificilmente evitar-se-ia a propagação.

É nesta lógica, de apresentação de indicadores para condicionar a população, que se enquadra a amputação de valores por parte da Direção-Geral de Saúde. O número de casos confirmados em todo o país deverá ser praticamente 21.000 habitantes. Em alguns concelhos com esse diferencial, a percentagem de população infetada será de 1% (por exemplo, Ovar), no entanto, a maioria não se aproxima desse valor.

É para o quociente entre o número de óbitos e o número de infetados – taxa de letalidade – que devemos atentar. Com o valor do número de infetados amputado, esta taxa situa-se um pouco acima dos 3,1%, um indicador bastante alto, segundo os dados da Organização Mundial de Saúde. Seguindo o somatório do número de casos indicados pelos delegados de saúde concelhios, a taxa de letalidade diminuía para 2,5%, o que poderia não provocar qualquer reação de quarentena na demais população.

Os testes posteriores a quem acusou positivo ainda estão demorados. Muitas pessoas ainda estão à espera de fazer o primeiro dos dois testes, que caso acusem ambos negativos, lhes confere alta hospitalar. Só assim se explica que o número de recuperados seja tão baixo. Importa relembrar que em Portugal o primeiro recuperado foi anunciado antes do primeiro óbito, o que provocou alguma irrelevância à pandemia.

Não é irrelevante a apresentação de dados. Pode-se é escolher vários indicadores e trabalhar os números conforme se pretende, como aqui demonstrei.

Há, no entanto, dois que por serem reais, merecem toda a atenção: o número de óbitos e o número de doentes com covid-19 em cuidados intensivos (este permite aferir a capacidade de tratamento do Serviço Nacional de Saúde).

Se em março faleceram 187 pessoas com ou de Covid-19, em abril, ao fim de 12 dias, o número de óbitos é de 348 pessoas. Número significativo com grande incidência no distrito de Aveiro e de Braga, o que implicou uma subida de 25%, em comparação com o mesmo período do ano passado, da taxa de mortalidade destes distritos.

Apesar de ser aborrecido, quem tiver possibilidade deve manter-se em confinamento, evitando as saídas à rua. Para quem continua a ter que trabalhar, não basta desejar boa sorte, é importante saber que vai estar protegido e a respeitar os cuidados de higienização.

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