Através do testemunho de antigos professores e alunos

A Telescola foi criada com o objetivo de fazer chegar a educação através da televisão a determinadas zonas do país, onde muitos alunos não teriam outra escolha se não a de abandonar a escola depois de completarem a quarta classe devido às limitações financeiras e de deslocação que era provocada pela deficiente rede de estradas e de transportes.

As emissões começaram por ser transmitidas em direto e mais tarde passaram a ser gravadas nos estúdios da RTP em Vila Nova de Gaia.

As aulas eram transmitidas durante a tarde de todos os dias úteis como complemento à rede de ensino tradicional, mas também podiam ser vistas por outras pessoas que se inscreviam para exame externo de modo a completar estes graus de ensino.

Os alunos aprendiam os conteúdos de cada disciplina que eram preparados por uma equipa pedagógica constituída por professores e que eram dados pelo professor através do televisor. A aprendizagem teórica era posta em prática através dos materiais didáticos – manuais e fichas de trabalho – que eram enviados para cada um dos postos de telescola, pré-fabricados, que eram instalados em diferentes zonas do país.

No final de cada aula, os alunos tinham a oportunidade de esclarecer dúvidas e desenvolver atividades com o professor presente, conhecido como monitor ou professor monitor. Por norma, existiam dois professores monitores, um ligado às letras e outro às ciências, a quem também cabia a avaliação de cada um dos alunos.

As emissões regulares da telescola foram transmitidas entre 1965 e 1987 e permitiram a milhares de alunos completarem os 5º e 6º anos de escolaridade. A última emissão foi transmitida em 1987, mas as aulas continuaram a ser dadas até 2000 através de vídeos que eram enviados diretamente para as escolas.

Para perceber o que se passava antes da gravação da aula no estúdio e depois na sala de aula, o labor foi ao encontro de quatro pessoas que viveram a experiência da Telescola.

“Para a altura era inovador e interessante”, mas “hoje é obsoleto”

Ermelinda Soares da Silva tem 67 anos, é professora com formação em Português, História e Estudos Sociais e deu aulas desde 1987 até 2019, ano em que se aposentou, no antigo ciclo e agora Escola Básica e Secundária de S. João da Madeira.

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Enquanto realizou o estágio na Escola Básica de 2º e 3º ciclo Maria Lamas no Porto, no ano letivo 1976/1977, recebeu o convite para integrar a equipa pedagógica da disciplina de Estudos Sociais e História do Instituto de Tecnologia Educativa que era a entidade responsável pela Telescola. “A nossa função era preparar as aulas, gravar as aulas e fazer um apoio pedagógico que constava do boletim onde iam os objetivos de cada aula e eram trabalhados na aula”, explicou Ermelinda Soares da Silva que chegou a aparecer na televisão “algumas vezes” para dar a formação aos monitores, em entrevistas ou em diretos nos trabalhos de exterior. Aos dois anos a dar aulas em contexto de sala de aula e em contacto direto com os alunos, um ano na Escola Básica de 2º e 3º ciclo Gomes Teixeira no Porto e outro no estágio, soma-se uma década de preparação de aulas para a Telescola. Um trabalho diferente, mas “um trabalho interessante. Uma experiência que se deve muito claramente ao planificar e ao conseguir fazer coincidir a teoria e a prática. Não havia nenhuma atividade que não estivesse ligada a um objetivo concreto. Tudo estava interligado”.

A mesma equipa pedagógica com que Ermelinda Soares da Silva entrou neste projeto, no ano letivo de 1977/1978, seria a mesma com quem o abandonou em 1997/1998. “A equipa era fantástica, ficámos amigos para sempre e continuamos a contactarmo-nos. Aprendemos muito uns com os outros”.

Para quem gostava de ser professora, como era o seu caso, a preparação dos conteúdos nos bastidores e a sua apresentação em frente à câmera da Telescola, “não é a mesma coisa” que estar em contacto direto com os alunos, mas foi “uma experiência fantástica”.

“Para a altura, (o projeto da Telescola) era inovador e interessante”, mas “hoje é obsoleto” devido à evolução das novas tecnologias, considerou Ermelinda Soares da Silva, assumindo estar “curiosa para ver” aquela que será uma espécie de Telescola 2.0 com muitas diferenças em relação à sua origem.

A maior diferença estará certamente entre o facto de que na Telescola original as aulas eram transmitidas através da televisão numa sala de aula com o apoio dos professores, enquanto agora as aulas também são transmitidas na televisão só que na casa de cada aluno que pode ter ou não alguém com disponibilidade e capacidade de o acompanhar, ajudar a desenvolver atividades e a esclarecer dúvidas.

“Eles viam tudo o que era dado. Ver é melhor do que ler”

Jorge Silva, de 63 anos, formado em Matemática e em Ciências, foi professor de todas as disciplinas ligadas às ciências da Telescola durante 20 anos. A experiência começou em 1980 e terminou em 2000 em escolas dos concelhos de Santa Maria da Feira e de Arouca.

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No início de cada ano letivo eram entregues os manuais, as fichas de trabalho e de avaliação. “Um trabalho muito bem organizado” e “um método de ensino que funcionava na perfeição”. “Inicialmente, quando cheguei à Telescola, todos os alunos só tinham aulas à tarde e eram transmitidas em direto pela RTP1”. “Os problemas técnicos levaram à falha de transmissão de algumas emissões” até que “começaram a gravar as aulas de cada disciplina em cassetes que eram enviadas para a escola e transmitidas no aparelho de vídeo”. Desta forma “tínhamos a vantagem de não falhar o sinal da televisão e de repetir a aula se sentíssemos necessidade para relembrar os alunos”.

A Telescola representou “uma melhoria no ensino” e o método poderia ter sido replicado em todas as escolas do país. “Acho que funcionava muitíssimo bem. Tive alunos da Telescola que hoje são pessoas com muita formação”, esclareceu Jorge Silva, confirmando a existência de um estigma em relação aos alunos que assim completaram os 5º e 6º anos. “Havia essa ideia mais pela questão do estrato social porque os alunos eram de meios rurais e os pais não os podiam enviar para as escolas devido a dificuldades económicas ou ao défice da rede de transportes”.

A gravação das aulas em cassestes também lhe permitiu batalhar pela mudança de horário da Telescola para de manhã. Esta foi “uma das minhas lutas e procurei pedir aos pais porque era muito mais rentável do que à tarde”, relembrou Jorge Silva, indicando ainda como aspetos positivos da Telescola o equilíbrio entre a vertente teórica e prática e as visitas de estudo no exterior ou no interior da televisão. “Eles viam tudo o que era dado. Ver é melhor do que ler. Muitas delas (visitas de estudo) não eram precisas porque eram visualizadas na televisão” através de trabalhos feitos no exterior pela equipa da Telescola. De todas as disciplinas, a Educação Física era a única que sempre que o tempo o permitisse era feita no exterior. “Tínhamos corta mato e até danças com todos os passos na televisão”, recordou Jorge Silva. Na transição de professor monitor da Telescola para professor sem suporte da Telescola, não sentiu dificuldade porque “já estava habituado ao contacto com os alunos”. Antes de entrar para a Telescola foi professor da escola primária em Milheirós de Poiares. Chegou a ser professor por acumulação durante dois anos na antiga EB2,3 e atual Escola Básica e Secundária de S. João da Madeira, onde “muitos colegas pediam-me material da Telescola porque estava tudo muito bem preparado e organizado por pessoas da área”. Desde 2000 que é coordenador e professor de apoio da Escola Básica de 1º ciclo com Jardim de Infância das Fontaínhas em S. João da Madeira

Tal como anteriormente dissemos, a Telescola de outros tempos não é igual à Telescola de agora. “É diferente. A emissão era na sala de aula e explicada pelos professores. Neste momento, os conteúdos podem  ser explicados em casa a uns, mas a outros não”. “Os professores deviam de ter acesso prévio ao plano e conteúdos do  programa (Estudar em Casa) porque podem não coincidir com a sua planificação”. Como toda esta fase que estamos a viver é nova para todos, “temos de ter paciência”, mas “no futuro não sabemos como vai ser”, concluiu Jorge Silva ao labor.

“Gostar até gostava, mas na fase em que vivi as ´cachopas´ tinham de aprender as coisas da casa”


Dos professores, passamos ao alunos. Conceição Cabral, tem 48 anos e completou o ensino primário na Escola da Alumieira, em Oliveira de Azeméis, e o 5º e o 6º anos no posto da Telescola junta à mesma escola primária nos anos letivos de 1981/1982 e de 1982/1983.

No primeiro ano de Telescola apenas teve uma professora monitora, a D. Odete, e no segundo teve o que era normal, duas, a D. Adosinda e a D. Maria de Jesus.

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No primeiro ano “não sentia muita diferença porque era uma professora monitora, a D. Odete”, mas no segundo “senti um maior impacto porque eram duas pessoas, a D. Adosinda e a D. Maria de Jesus, com métodos de ensino diferentes”.

Do que se lembra destes dois anos de ensino, “a professora ligava a televisão, ficava sentada na secretária e estávamos atentos ao que era dado. Eles faziam pausas para respondermos. A professora era uma espécie de intermediária. No fim da aula, a professora escrevia o sumário, tirávamos nota na capa, estudávamos e tirávamos as dúvidas com a professora monitora”.

“Na minha Telescola a gente tinha de ir para a escola”, por isso “(o Estudar em Casa) não vai ser a escola que tivémos porque vai ser em casa e quem lhes vai dar apoio são os pais”.

Depois de completada esta fase de ensino, os alunos podiam seguir os estudos. Um caminho que podia ter sido seguido por Conceição Cabral, mas não foi. “Gostar até gostava, mas na fase em que vivi as ´cachopas´ tinham de ir para casa aprender as coisas da casa, tive de ir ajudar a cuidar do meu irmão e a minha mãe no campo. Tornei-me numa ´mulherzinha´ muito cedo”. “Acredito que se fosse hoje, as coisas não seriam como na altura”, revelou Conceição Cabral, proprietária do café Bela Vista em S. João da Madeira, cidade onde reside, ao labor.

“Não senti diferença na capacidade de aprendizagem em relação aos restantes colegas”

Alberto Oliveira e Silva tem 52 anos e foi aluno da Telescola nos anos letivos de 1978/1979 e de 1979/1980.

As aulas foram divididas entre os Paços do Concelho, agora Casa da Cultura de Fermedo, e o posto da Telescola instalado junto ao polo escolar desta freguesia do concelho de Arouca.

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Os professores monitores foram pessoas da Terra, o Padre Benjamim e a D. Lúcia, que davam as aulas a cerca de 20 tal alunos. “A primeira parte da aula era na escola da RTP1.

A matéria era dada como é normal numa sala de aula. Não sei precisar o tempo que demorava.Tomávamos nota. Com o professor na sala de aula, o monitor, fazíamos fichas, tirávamos dúvidas e íamos ao quadro”.

No geral, “tenho uma boa recordação da Telescola” porque “quebrou a rotina de ser só um professor na primária” e “levou à abertura do nosso relacionamento social” uma vez que conheceram outros alunos provenientes de lugares e freguesias vizinhas.

Em relação à ideia criada de que este tipo de ensino poderia “não ser tão rigoroso” como o tradicional, “quando passei para o 7º ano no ano letivo de 1981/1982 para a escola secundária de Arouca, não senti diferença na capacidade de aprendizagem em relação aos restantes colegas. Tirava boas notas”, assumiu o ex-aluno da Telescola.

Como sempre foi melhor nas disciplinas ligadas às humanidades, Alberto Oliveira e Silva seguiu os estudos até ao 12º ano e mais tarde tirou o curso de Jornalismo. Desde 2012 que é jornalista no Diário de Aveiro que tem uma delegação em S. João da Madeira.

Uma “coisa importante” desta época é que, “na altura, a televisão, o audiovisual, tinha um fascínio muito especial. Víamos a televisão, mas nem sempre era fácil apanhar o sinal na zona de residência”, confessou Alberto Oliveira e Silva ao labor.

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