Estrutura residencial da Misericórdia tenta “manter a normalidade dentro da anormalidade”

Tentar “manter a normalidade dentro da anormalidade que se vive”, desde que o nosso país também foi atingido por esta crise pandémica global sem fim à vista, é uma missão difícil, mas não é impossível. “Se para nós entender o que se está a passar não é fácil, para eles muito menos”, disse Vera Ferreira ao labor referindo-se aos utentes do Lar de Idosos São Manuel, da Santa Casa da Misericórdia (SCM) de S. João da Madeira, que de um momento para o outro, devido a um “bicharoco” como alguns lhe chamam, se viram privados dos abraços, dos beijos, das visitas da família, das atividades em grupo e no exterior, que faziam parte das suas rotinas diárias.

Nada é como dantes, quando os dias tinham “sabor” a liberdade… Mas há todo um trabalho que está a ser feito para atenuar os efeitos colaterais desta “guerra” contra um “inimigo invisível” que está a ser travada há já muitas semanas por “soldados” com viseiras, máscaras e fatos de proteção.

Vera Ferreira tem 37 anos e é animadora sociocultural da SCM há 10, oito dos quais no lar. Integra uma equipa multidisciplinar composta por vários colaboradores que trabalham “por amor” e em quem “os idosos confiam”. Só desta forma estão a conseguir “levar o barco a bom porto”. Mas fazem-no “com o coração nas mãos”, porque estão a cuidar de um grupo de risco que, em Portugal e no resto do mundo, não tem sido poupado à doença.

Misericórdia sem casos de infeção por Covid-19

No caso da Misericórdia sanjoanense, mantém-se sem casos de infeção por Covid-19 até à data. E assim se espera que continue! Para Tânia Pinto, enfermeira de Vale de Cambra a exercer na instituição sanjoanense há cerca de seis anos, “não haver casos já é uma vitória”. Algo que, no entender desta jovem profissional de saúde de 28 anos, é possível “graças a termos tomado as medidas de contenção atempadamente”, desde “a suspensão das visitas, a utilização de equipamentos de proteção individual (EPI) e a própria colaboração das equipas multidisciplinares”.

Tanto Tânia Pinto como Ana Maria Almeida, encarregada, garantiram ao nosso jornal que a Santa Casa tem cumprido “religiosamente todas as regras da Direção-Geral da Saúde”. Aqui é feito diariamente o registo da temperatura quer de funcionários, quer de utentes; são monitorizados os principais sintomas do novo coronavírus; é obrigatório o uso de EPI’s; foram suspensas as visitas; é assegurado o distanciamento social.

Fomo-nos adaptando às diretrizes que nos iam dando”

Fomo-nos adaptando às diretrizes que nos iam dando”, contou Vera Ferreira, dando nota que, por exemplo, “o que antes era feito em espaço comum e em grupo agora é feito individualmente e quase se resume aos quartos” de forma a “evitar que [os idosos] deambulem pela instituição”. Atividades como música e ginástica, bem como “tudo o que é externo (piscina e boccia), deixaram de se fazer”.

Em contrapartida, há um “cronograma diário” que é cumprido com alma e coração. Em tempos de pandemia, a animação sociocultural começa às 10h00 com uma música de bom dia. Segue-se o desafio do dia, que consiste numa “atividade [normalmente] feita em papel, mais individual e que pode ser executada no quarto”, no fim da qual é atribuído um prémio. Por exemplo, ainda na sexta-feira passada, assinalou-se o 25 de Abril com um ‘quiz’ com 12 questões sobre a data e um resumo de algo que tenham vivido naquela época.

A saudade começa a ser tanta que alguns até já beijam o telemóvel”

Depois do almoço, conforme descreveu a animadora sociocultural, “temos feito atividades manuais em grupos pequenos, de seis pessoas”. Neste momento, “estamos a fazer trabalhos relacionados com o Mês de Prevenção dos Maus-tratos Infantis para serem expostos no exterior [nas varandas]”. Mais tarde, às 16h30, reza-se o terço.

Para além de tudo isto, em dias em que o S. Pedro permite, “temos feito passeios higiénicos com alguns utentes nos jardins da instituição”, sempre com as regras de higienização bem presentes.

Não sendo possível a visita de familiares, vão-se matando as saudades através de videochamadas e telefonemas. Ou seja, como mencionou Vera Ferreira ao labor, “mesmo não sendo o que era antes, estamos a tentar fazer tudo por tudo para manter as rotinas e matar as saudades”. Se bem que “a saudade começa a ser tanta que alguns até já beijam o telemóvel”.

Entre os utentes há os que, por exemplo, por motivos de demência, não se apercebem verdadeiramente do que se está a passar. Mas também há aqueles que estão cientes do problema. Aqueles que “já passaram por muito na vida, desde fome, trabalho duro”, mas que nunca viram nem ouviram falar de tal coisa.

Há, inclusive, quem já confessou a Vera Ferreira que “não quer morrer agora, porque quer ter um funeral digno, com a família presente e cerimónias ditas normais”.

Estamos a fazer tudo para que não sintam falta do que costumavam ter”

Quanto às refeições, “os mais válidos continuam a fazê-las no refeitório”. Mas por turnos, com duas pessoas a serem servidas por mesa. Já os utentes “mais dependentes” fazem-nas nos quartos.

E por falar em refeições, ao fim destas quem estava habituado “a tomar café da máquina” continuou a tomar, embora já não seja da máquina. “Servimos o cafezinho no final do almoço”, afirmou Ana Maria Almeida, acrescentando que, para além disso, “damos-lhes uns docinhos para terem no quarto para não sentirem falta daquilo que as famílias lhes traziam”.

Estamos a fazer tudo para que não sintam falta do que costumavam ter. Mesmo estando aqui dentro têm tudo o que precisam”, assegurou esta colaboradora da Misericórdia há já 38 anos, que está “a viver tudo isto com grande emoção”.

Se me dissessem para deixar de fazer o que estou a fazer, ia-me custar muito, porque sinto que tenho de estar aqui. Gosto muito do que faço”, confidenciou Ana Maria Almeida, segundo a qual “temos aqui muito boas equipas, que ‘dão a camisola’ pela instituição, fazem as coisas por amor”. Aliás, continuaremos, aqui, firmes até quando for preciso”, sublinhou.

Alinhando pelo mesmo diapasão, Gracinda Monteiro também está disponível até quando e para o que for preciso. Ajudante de cozinha há aproximadamente 12 anos, esta cucujanense de 55 anos continua a preparar “quase 300 refeições por dia”, para os idosos, beneficiários da cantina social, entre outros.

Fá-lo, como sempre fez, com os máximos cuidados de higiene. Aliás, como assegurou ao nosso semanário, “na cozinha já estávamos habituadas a estas regras”. Bem vistas as coisas, as únicas alterações foram o uso de viseira, a medição da temperatura e a realização de desinfeções mais frequente.

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