Sanjoanenses no Mundo

Pedro Heitor tem 32 anos, é natural de S. João da Madeira e especialista em proteção de dados na Accenture em Praga. O percurso escolar começou nas primárias dos Ribeiros e do Parrinho, continuou no ciclo, na Escola Básica e Secundária Oliveira Júnior e terminou o 12º ano à noite na Escola Básica e Secundária Dr. Serafim Leite. Enquanto terminava o 12º ano, trabalhou na Faurecia. Tirou a licenciatura em Direito na Universidade de Coimbra, seguida do mestrado em Direito e Informática na Universidade do Minho. Ao mesmo tempo, estava a preparar a admissão à Ordem dos Advogados e a estagiar num escritório de advogados em Santa Maria da Feira. Após a admissão à Ordem dos Advogados, apareceu a oportunidade de fazer o estágio INOV Contacto no México e agora encontra-se a trabalhar na República Checa.

O que te levou a deixar a tua cidade, o teu país?

Quando estava a fazer o mestrado em Direito e Informática em 2013, percebi que essa área ainda não estava muito desenvolvida em Portugal e comecei a participar em escolas de verão no estrangeiro para adquirir mais conhecimento. Comecei a fazer investigação académica e científica na área do cibercrime, da cibersegurança e da proteção de dados, com alguns artigos publicados. À medida que fui participando nessas escolas comecei a perceber que se quisesse evoluir, de forma mais rápida e plena, teria de abandonar Portugal porque não consegui encontrar a mesma quantidade de recursos em termos académicos, científicos e de oportunidades de trabalho.

Escola sobre cibersegurança na Holanda foi preponderante para aceder ao trabalho onde estou agora”

Em que escolas de verão participaste?

A primeira na Áustria em setembro de 2014, a segunda na Rússia em julho de 2015 e a terceira em agosto de 2016 na Holanda.

Como foram estas experiências?

A escola de verão na Áustria foi fantástica, onde conheci gente de muitos países. Logo aí a minha mentalidade começou a mudar, porque percebi que as pessoas de outros países acabavam por sentir muitas vezes as mesmas dificuldades não só a nível académico, de acesso a recursos, etc, mas também em causas comuns aos habitantes deste planeta.

E na Rússia?

Toda a gente tem uma ideia da Rússia como tem de muitos outros países e depois de visitar verifica-se que isso não acontece. Foi uma experiência muito boa não só pela Rússia em si mesma, mas por todo um mundo que não imaginava num outro lado.

E na Holanda?

Nesta escola é digno de menção que consegui estar presente devido ao enorme apoio de sanjoanenses, principalmente amigos e conhecidos, porque fiz uma campanha de crowdfundig em que muito me ajudaram. Esta escola sobre a cibersegurança na Holanda foi uma das coisas que ponderou anos mais tarde para aceder ao trabalho onde estou agora. Estas escolas de verão deram-me muita capacidade em termos de conhecimento da matéria de direito e informática, cibercrime, cibersegurança, proteção de dados, propriedade intelectual, etc. Apesar de não ter experiência profissional na área, já tinha bastantes conhecimentos e isso foi preponderante para mais tarde vir a conseguir uma oportunidade nesta área. A escola da Holanda digamos que foi o ponto de viragem porque depois dessa escola de verão já estava absolutamente claro que mais cedo ou mais tarde viria a abandonar Portugal.

Conheci uma parte do México que não vem nos guias de viagem”

Qual foi o teu próximo passo?

Três meses depois da escola de verão na Holanda obtive a minha cédula profissional de advogado, estava a enviar currículos e a procurar uma oportunidade fora. Foi através do programa de estágio INOV Contacto que fui selecionado. No próprio processo de recrutamento perceberam que estava muito interessado em sair, não tinha qualquer objeção a ir para onde quer que fosse porque era mesmo isso que queria.

Para onde foste trabalhar?

Fui trabalhar como estagiário para a AICEP (Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal) em 2017 dentro da Embaixada de Portugal no México. Foi uma experiência espetacular.

O que era o teu trabalho?

Basicamente consistia em elaborar estudos de mercado, auxiliar empresários mexicanos que quisessem vir para Portugal, auxiliar empresários portugueses que quisessem ir para o México, organizar eventos entre empresários, analisar certos setores de atividade e entender quais eram as características desse setor de atividade, onde havia mais necessidade, onde estavam mais concentradas as fábricas, o que precisavam mais, quais os países que negociavam mais, qual era o produto, etc. Tive imensa sorte de estar esse ano nesse sítio porque tivemos a visita do atual Presidente da República.

Quanto tempo estiveste lá?

Estive a estagiar durante seis meses, até agosto de 2017, mas depois consegui ficar mais um mês só para viajar. Fui a Cuba e conheci um bocadinho do México desconhecido que não vem nos guias de viagem. Quero muito voltar.

Que tal esse “México desconhecido”?

Nevado de Toluca, México

Espetacular. Fui à selva, às praias do Pacífico, a imensas vilas, aldeias perdidas e posso dizer que em termos de segurança é um país que em geral é seguro. Tem zonas de conflito e uma pessoa tem de ter cuidado para as evitar. Uma pessoa evitando ir a zonas de conflito, evita os problemas. Que saiba, todos os estagiários que estiveram no México nunca tiveram um problema sério de segurança. Pode haver um roubo ou assim, mas isso é uma coisa que pode acontecer em Lisboa ou no Porto. Trabalhar com investimento e comércio externo foi uma perspetiva diferente daquilo que fazia na advocacia e da área da cibersegurança, proteção de dados, etc. Acabou por ser um “input” necessário para também entender muitas vezes como é que funcionam os negócios. Além disso, aprendi a falar Espanhol, o que veio a ser muito importante para o futuro. Na atual empresa temos uma equipa grande na Argentina, alguns dos meus chefes são argentinos e o facto de comunicar com eles em Espanhol pesou na hora da contratação. Algumas pessoas têm dificuldade em falar Inglês e na área em que estou preciso que as pessoas sejam motivadas a fazer aquilo que lhes peço e é muito mais fácil comunicar quando eles dominam a língua e eu domino a língua.

Pela forma como falaste tinhas sido capaz de ficar no México?

Sim. Fui a algumas entrevistas de trabalho. O problema é que os salários no México são baixos e se uma pessoa quiser assegurar um estilo de vida europeu fica bastante caro. É preciso ter um salário adequado a isso. Para além disso, se quisesse vir pelo menos duas vezes por ano a Portugal, nunca ia gastar menos de 2.000 euros. Isso pesou bastante na decisão de não ficar no México.

Então decidiste mudar…

Tive sorte. Cerca de um, dois meses, antes do meu voo de regresso do México fui contactado por uma amiga que tinha recebido uma proposta que não podia aceitar, mas perguntou-me se estava interessado. Uma oportunidade que procurava há anos, justamente para trabalhar na área da segurança de informação. Mostrei a minha disponibilidade para essa oportunidade na Accenture. Contactaram-me, fizemos o percurso normal de entrevistas e apesar de não ter experiência na área, que era algo que eles queriam, pelas escolas de verão, pelo meu mestrado, pela minha tese, pelo conhecimento que consegui demonstrar na área, decidiram investir em mim. Claro que isto implicou uma grande absorção de conhecimentos técnicos que não tinha, mas foi algo que consegui e desfrutei.

Gasto 25 euros por mês e tenho acesso a todos os transportes públicos”

Logo a seguir foste para Praga?

Sim. Os primeiros dias foram bastante difíceis porque é uma cultura bastante diferente. Enquanto a adaptação no México foi instantânea, na República Checa foi um processo que demorou algumas semanas. Assim que comecei a trabalhar, consegui a minha casa, as coisas melhoraram. Isto também implicou aprendizagem da minha parte de que nem toda a gente tem de sorrir para mim nem tem de ser amigável, mas continuo a esperar que sejam minimamente educadas e saibam o mínimo de cortesia. O facto de as pessoas serem mais distantes foi bastante difícil na adaptação.

Ao fim de dois anos sentes alguma diferença?

Sim. O sentimento generalizado em Praga é que os próprios checos estão a mudar as suas própria atitude e mentalidade. O momento económico é bom, embora com um momento político algo estranho. Tenho encontrado muitos e bons exemplos de checos que são boas pessoas, sobretudo quando saio da capital para passear, ainda que as pessoas não saibam falar Inglês, são muito amigáveis. Também mudei a minha postura no sentido de ser mais paciente e tentar entender mais as pessoas, o outro lado.

Como é o nível de vida?

O que se gasta em transportes públicos na República Checa é muito reduzido. Gasto 25 euros por mês e tenho acesso a todos os transportes públicos. Tenho metro, elétrico e autocarro. Ir ao supermercado é um bocadinho mais barato, restaurantes são mais baratos, acesso ao sistema de saúde é gratuito. Se precisar de um especialista basta telefonar para uma clínica ou para um hospital, dizer que tenho o sistema de saúde deles, preciso de uma consulta e consigo ter acesso a um especialista no máximo em vários dias. Não há qualquer necessidade de usar carro em Praga. Em lugares remotos torna-se mais difícil, mas aluga-se um carro.

Qual é a tua função na empresa?

Neste momento, estou a implementar o programa interno de proteção de dados em empresas recém-adquiridas pela minha empresa. A Acccenture compra outras empresas e ajudo a implementar o seu programa de proteção de dados nessas empresas para que tenham os mesmos “standards” em termos de segurança de informação. Ou seja, basicamente faço uma espécie de assessoria/auditoria em termos de proteção de dados/segurança de informação. Por isso, é que digo que a minha função é um bocadinho difícil de explicar. É um misto de consultor, assessor e auditor.

Qual a desvantagem de trabalhar numa empresa enorme?

Um dos defeitos é que o esquema de promoção não é como numa empresa pequena em que diz: vais ser promovido e és. Aqui o sistema é muito mais lento, envolve revisão de partes e normalmente o trabalho para o qual vais ser promovido já tens de o estar a fazer. Aliás, é uma própria segurança para eles verem se consegues ou não.

Quantos países visitaste só em trabalho?

Alguns: França, Alemanha, Dinamarca, Suécia, Holanda, Espanha e Chile.

Sou gestor do meu próprio trabalho, os meus chefes só perguntam se está a correr bem”

Como é a relação com os teus chefes?

Eles são muito acessíveis, pragmáticos, vou-lhes dizendo quais são as minhas ambições. A relação é uma relação muito próxima porque eles sabem que quando têm os trabalhadores motivados fazem muito mais do que aquilo que às vezes é pedido. E isso traduz-se em coisas muito positivas para a empresa. Acho que a empresa sabe que pode sempre investir nos trabalhadores porque vai sempre ter um retorno.

O que fazes é uma paixão?

Sim, posso dizer que trabalhar com segurança informática é uma paixão. O que só por si é motivador, aliado ao facto de ser recompensado também em termos salariais, bónus ou progressão na carreira. Há benefícios que não são só medidos em dinheiro, como o facto de poder trabalhar em casa, estar doente e pedir para ficar em casa sem trabalhar e ser pago por isso, a flexibilidade em tirar férias.

Além disso sou gestor do meu próprio trabalho, os meus chefes só perguntam se está a correr bem. Posso indicar alguma situação menos positiva, mas em geral sou eu que estou a controlar o que faço e o meu próprio trabalho.

Achas que o mercado de trabalho, em algumas áreas, passará a ser cada vez mais sem um horário definido?

Sim. Isso é uma coisa muito importante que tenho vindo a reparar. O teletrabalho é uma coisa de futuro e a empresa ganha muito com isso. Tem menos custos em termos de escritório, o trabalhador não tem de se deslocar, em termos de impacto ambiental e mobilidade urbana. O meu próprio trabalho não é propriamente um trabalho de equipa com os meus colegas. É um trabalho em que trabalho com outras pessoas, mas estão em locais diferentes do mundo. Então não há uma grande necessidade de estar no escritório a tempo inteiro. A minha empresa tem uma política que permite o teletrabalho, mas há setores de atividade em que isso não é possível. Também se colocam algumas restrições a trabalhar remotamente fora da República Checa devido a questões fiscais e de contribuições para a Segurança Social. Mas as possibilidades de recorrer ao teletrabalho seguramente continuarão a aumentar.

Se alguma vez me senti motivado em Portugal foi por mim próprio e pelos meus objetivos”

O teletrabalho em Portugal seria difícil?

Pois. Não quero dizer isto de forma crítica, mas o que acontece é que ainda há muito a mentalidade de que passar muitas horas no escritório é sinónimo de produtividade. Isso é uma mentira. Posso dizer que passo muito menos horas no escritório do que passava em Portugal e sinto que sou muito mais produtivo. A motivação também é preponderante, porque como estou mais motivado sou mais produtivo.

Em Portugal sentias-te motivado?

Não. Se alguma vez me senti motivado em Portugal foi por mim próprio e pelos meus objetivos. Em termos de recompensa por aquilo que fazia não me sentia devidamente recompensado. Os meus patrões tentavam de alguma forma mitigar isso, mas eles próprios pela força, pelo peso do mercado e da situação laboral em Portugal, sentiam-se constrangidos a dar-me isso. E lá está, a mentalidade é sempre a mesma, se não quisesse existia um grande número de pessoas para fazer a mesma função. O que me levou a sair de Portugal foi a perspetiva de crescer como pessoa e profissional. É óbvio que aliado a isso estiveram os fatores económicos. Acredito que se tivesse melhores condições económicas em Portugal teria ficado e não saído.

Então valeu a pena ter saído do teu país?

Valeu muito a pena. Em termos profissionais é indiscutível, porque sinto-me valorizado, estou bastante satisfeito com as condições económicas e foi um enorme crescimento em termos de conhecimento.

Que te permitem entre outras coisas viajar…

Sim. Das coisas que mais me deu e continua a dar paixão é viajar. No primeiro ano em que estive na República Checa fui a 12 ou 13 países que nunca tinha visitado antes.

A motivação de ir para o desconhecido mantém-se, mas sempre com os pés bem assentes na terra”

Como é que os teus pais lidam com estas “aventuras”?

Eles próprios não eram favoráveis à ideia de deixar a carreira na advocacia e ir para o México, mas depois de tudo o que tem vindo a acontecer até agora eles perceberam que tomei a decisão correta. Através do meu prisma, eles vieram a alterar um bocadinho a mentalidade ao perceberem que viajar não é só gastar dinheiro, também é aprender muito. Mesmo assim, os meus pais sempre me apoiaram imenso e constantemente me exortam a escolher o que é o melhor para mim.

Das duas vezes em que foste trabalhar para fora, nunca tiveste medo?

Não. Quando fui fazer o estágio INOV Contacto no México, o meu patrão era o Estado português, o que foi muito importante no sentido em que tens pessoas que te ajudam com a logística de ir para o local, tens alguém à tua espera, tens um seguro de saúde, etc. Não fui sozinho, lançado, como muitos portugueses fazem, sem ter um trabalho garantido e isso é de admiração. Nesse aspeto fui um privilegiado porque tinha muita segurança. No caso de Praga, quando cheguei já tinha a proposta de trabalho e depois assinei o contrato. Sempre optei por fazer as coisas com alguma segurança. A motivação de ir para o desconhecido mantém-se, mas sempre com os pés bem assentes na terra.

Conheceste muitos portugueses e estrangeiros?

Sim. A comunidade portuguesa no México não para de aumentar. O México tem alguns problemas políticos neste momento, mas em termos económicos é um país com muito potencial por causa da dinâmica que tem com a América Latina e com os Estados Unidos.

Na tua empresa trabalham muitos portugueses?

Sim. Tem muitos portugueses. A minha empresa é uma grande prestadora de serviços, tem muitos serviços partilhados concentrados em vários países. Há imenso pessoal qualificado que se mudou para Praga com esta possibilidade de melhores rendimentos, custo de vida mais baixo, segurança. Fora do meu trabalho também conheço muitos portugueses, alguns a estudar, outros a trabalhar e de visita que estão satisfeitos como eu.

A comunidade de expatriados é cada vez maior devido à deslocalização de empresas” como Simoldes, ERT e Faurecia

Qual a tua perspetiva de continuares em Praga?

Quando vim para cá tinha a perspetiva de ficar dois anos e mudar-me para outro lado. O que é certo é que a experiência foi melhor do que pensava, as coisas têm corrido bem e neste momento alarguei esse período para mais dois anos. A comunidade de expatriados é cada vez maior devido à deslocalização de empresas de serviços partilhados, mas não só, também na área automóvel – por exemplo a República Checa é onde está a empresa principal da Skoda que é do tamanho de S. João da Madeira – e outras áreas de empresas que estão lá como Simoldes, ERT, Faurecia que recrutam portugueses. Já conheci pessoas de Oliveira de Azeméis, de Cucujães, que estão a trabalhar na Simoldes e de outras áreas geográficas de Portugal e da Europa que foram trabalhar para a ERT e a Faurecia.

Quais os pratos e bebidas típicos?

Incontornavelmente, a bebida da República Checa é a cerveja, que tem uma qualidade suprema. Se alguém não gosta de cerveja, na República Checa é onde isso muda. A comida é uma comida típica do centro da Europa que é mais à base de carne, batata, “dumplings” e assim. Todos nós sentimos muito a falta da comida em Portugal. Mas adaptamo-nos, muitos de nós, com as saudades, aprendemos a cozinhar e preparamos pratos típicos portugueses. O meu prato favorito checo é queijo frito porque eles fazem uma espécie de panado só com queijo, derretido. Ao início achei a ideia de queijo frito um bocado repugnante, mas depois de provar mudou. Enquanto estava no México a oferta de vegetais e de fruta, a própria comida deles é muito mais saudável e aí sem grandes preocupações até acabei por perder peso. Na República Checa já não é assim.

Mas já te adaptaste?

Sim. O que é curioso é que nós como portugueses, comunidade portuguesa, já nos adaptámos a certos hábitos checos como ao fim de semana ir para a natureza. Eles foram os que inventaram o sistema europeu de trilhos por cores. Na República Checa é possível encontrar-se sempre um caminho que conecta tudo. Se a pessoa seguir as indicações nunca se perde. O cuidado que eles têm com a natureza é indescritível. Nunca vi na República Checa uma floresta que tivesse sinais de um incêndio nas últimas décadas. Todos os trilhos estão bem cuidados e vemos as famílias ao fim de semana pelos trilhos.

A República Checa é o país com mais castelos por quilómetro quadrado”

Quais os locais mais emblemáticos?

A República Checa é o país com mais castelos por quilómetro quadrado. Só os mais emblemáticos são pelo menos 50. Eles têm um legado de castelos, mosteiros e casas de campo interminável (mais de 2.000). A área e extensão de floresta são incríveis. Há locais muito bonitos. Depois cria-se a dinâmica de castelos, florestas e rios e isso é uma das coisas que tem de se assinalar. A paisagem é uniforme em geral porque é um país plano, mas também tem montanhas nas fronteiras com a Alemanha, Polónia e Eslováquia que também são muito bonitas. Também assinalaria duas cidades: Karlovy Vary que é uma cidade de spa e termas, onde vivem muitos russos, muito bonita pela arquitetura; e Cesky Krumlov que é património da Unesco, onde pelos vistos fizeram a gravação de um filme chinês muito conhecido, e em Praga, e há charters de aviões cheios de chineses a virem para a República Checa porque querem visitar e até se casarem nesse lugar.

O que mais te surpreendeu?

A qualidade do transporte público, o acesso rápido ao sistema de saúde, a segurança e as oportunidades de trabalho.

O que mais te custou a adaptar?

Interação no quotidiano com pessoas que não conheço. Não podemos contar que a todo tempo as pessoas vão ser amigáveis e simpáticas. Mas sinto que a própria atitude deles tem vindo a melhorar muito. Também a comida porque o acesso a vegetais e a peixe não é o mesmo.

Alguma expressão típica?

Tivolé. É tipo raios. Uma forma de se queixar. Se acontece alguma coisa que não gosto digo Tivolé (risos).

Creio que ajudo a desmistificar algumas ideias em relação à República Checa e aos checos”

Que sítios costumas frequentar?

As caminhadas junto ao rio, as exposições de certos museus que vão mudando e normalmente são muito boas, os piqueniques e convívios nos parques, os concertos cuja oferta é interminável. A caminhada junto ao rio na ponte Carlos, ver o castelo é uma coisa que nunca me vou cansar.

Curiosamente, como gosto muito de história e arquitetura, ao fim destes dois anos já conheço tanto a cidade que de vez em quando faço de guia turístico, ao meu próprio ritmo e disponibilidade. O setor do turismo é uma área incrível. Acho que não nos passa pela cabeça o que movimenta. Por exemplo, quando há grandes grupos de portugueses em Praga para alguma convenção ou congresso, uma empresa específica pergunta se tenho disponibilidade e é sempre uma experiência fantástica porque encontro o grupo, conheço pessoas, posso dar a minha perspetiva da cidade e creio que ajudo a desmistificar algumas ideias em relação à República Checa e aos checos.

Como são os checos?

Tal como os portugueses, os checos têm uma carga histórica com eles. Tiveram sob o comunismo até 1989. Curiosamente há uma ligação entre a revolução em Praga e o 25 de Abril, onde houve interação entre ativistas dos dois países e mais tarde entre os seus presidentes. Infelizmente, não é tão fácil fazer amigos com os checos como é com os portugueses, simplesmente, porque têm um peso histórico diferente. A boa característica deles é que são muito pacíficos. Não são nada de entrar em conflito com ninguém. Eles têm muito a perspetiva de que cada um vive a sua vida e ninguém tem nada que dizer sobre a vida dos outros. O facto de não falar checo ajuda a ter essa noção (risos).

Ao fim de dois anos continuo a aprender bastante no meu trabalho e a sentir que tenho uma margem de progressão”

Qual o balanço que fazes de dois anos em Praga?

Um balanço muito mais positivo do que poderia esperar porque, apesar das dificuldades que senti ao início, ao fim de dois anos posso dizer que vivo numa cidade lindíssima com um estilo de vida muito tranquilo para uma capital. Muitas vezes nem parece uma capital. É uma cidade suficientemente grande num sentido, mas também suficientemente pequena noutro sentido. Ao fim de dois anos continuo a aprender bastante no meu trabalho e continuo a sentir que tenho uma margem de progressão grande e há possibilidades de continuar a crescer.

Do que sentes mais falta?

Da família, do não estar perto dos meus pais e não poder estar perto para qualquer coisa. Acho que é disso que sinto mais falta. Dos meus amigos, da comida, das paisagens e das pessoas. Nós, como portugueses, apesar de todas as lutas que temos, continuamos a ser um povo muito afável. As pessoas que conheço no estrangeiro elogiam sempre muito os portugueses. Acho que isso é uma imagem de marca nossa.

Do que sentirias falta de Praga?

Da cerveja (risos). Seria do contacto com a natureza, o estilo de vida relaxado.

Os teus planos passam por voltar a Portugal?

À medida que o tempo tem passado a ideia que tenho é que é cada vez mais difícil porque já estou acostumado a um certo patamar, a um certo nível de vida que acho que já não conseguia ter em Portugal. Consigo poupar dinheiro, consigo viajar, consigo fazer muitas coisas que se estivesse aí acho que ia ser difícil de fazer. Em Praga a taxa de desemprego anda à volta de 1%. Por isso, isso significa que os próprios empregadores têm muitas vezes de andar atrás dos trabalhadores no sentido de que têm de apaparicá-los, de certa forma, têm de valorizá-los porque se não, passado um tempo, já estão noutro sítio. Por exemplo, no ano passado tive um aumento que nem sequer pedi porque os próprios recursos humanos disseram que já estava a receber abaixo da média para a mesma posição noutras empresas.

Impacto Covid-19 

Républica Checa foi “um dos países que mais rápido reagiu ao surto de coronavírus na Europa”

A Accenture “não foi extremamente afetada pelo novo coronavírus e continua a prestar a maior parte dos serviços aos clientes”, tendo inclusive pedido a todos os trabalhadores para trabalharem a partir de casa, deu a conhecer Pedro Heitor ao labor.

As funções deste sanjoanense, que é especialista em proteção de dados nesta empresa em Praga, também não foram afetadas porque o seu trabalho pode ser feito remotamente.

O único senão está no facto de neste momento não ser possível viajar em trabalho. “O progresso nos meus projetos é um pouco mais lento, mas posso cumprir com as minhas funções a 100%”, explicou Pedro Heitor.

Pedidos de compras online têm no máximo um período de espera de um dia”

Já o impacto da Covid-19 na sua vida, em particular, e nas infraestruturas da cidade onde vive, em geral, assemelha-se ao que tem sido dado a conhecer por outros “Sanjoanenses (que estão) no Mundo” nas últimas edições do nosso jornal.

A Républica Checa foi “um dos países que mais rápido reagiu ao surto de novo coronavírus na Europa” e “neste momento o estado de emergência, que está previsto durar até meados de maio, já não inclui o distancimento social obrigatório, nem o fecho de fronteiras”, deu a conhecer este sanjoanense, acrescentando que “o sistema nacional de saúde da República Checa está a reagir bastante bem e não está saturado”, os “supemercados e farmácias estão abertos e a operararem dentro da normalidade” e os “pedidos de compras online têm no máximo um período de espera de um dia”. Além disso, o número de casos infectados já é inferior ao número de casos curados diariamente.

Apesar das limitações iniciais impostas pelo Governo checo, o país lidou e está a lidar bastante bem com a situação e as pessoas encontram-se bastante tranquilas”, contou Pedro Heitor ao labor.

Covid-19 na República Checa*

7.504 casos confirmados

2.960 recuperados

227 mortes

*Dados atualizados até ao fecho da edição que podem ser consultados em  https://www.worldometers.info/coronavirus ou https://gisanddata.maps.arcgis.com/apps/opsdashboard/index.html#/bda7594740fd40299423467b48e9ecf6

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