Entrevista a Normando Oliveira, Coordenador Municipal da Proteção Civil e Comandante dos Bombeiros Voluntários de S. João da Madeira

 

Os dois cargos que ocupa levam a que se dedique todos os dias à proteção das pessoas e da cidade?

Sim, tem sido sempre de segunda a domingo. Tanto o comando dos bombeiros, como a coordenação da proteção civil são atividades que nos envolvem bastante. Como toda a emergência não escolhe nem dia nem hora, obriga-nos a estar pelo menos despertos durante as 24 horas por dia ao longo do ano. Mas isto faz parte da nossa missão, foi a que escolhi, e obriga-nos a ter este modo de vida.

O que mudou desde que acumulou o cargo de Coordenador Municipal da Proteção Civil (CMPC) à de Comandante dos Bombeiros Voluntários (CBV)?

A responsabilidade é acrescida, é olhar para a cidade de uma forma global juntamente com todos os agentes de Proteção Civil que colaboram para a resolução dos problemas e é um desafio que se tem de novo.

E com o aparecimento da Covid-19?

Muita coisa. Tivemos de nos adaptar rapidamente a esta nova forma de vida e nova forma de abordar o socorro com os cuidados que temos de adotar no combate a esta pandemia.

É algo que era desconhecido e como é óbvio tudo o que é desconhecido obriga-nos a uma adaptação rápida, adequada às situações em que tivémos de envolver todas as mulheres e homens que temos no corpo dos bombeiros. Ao fim e ao cabo toda a sociedade teve de se adaptar a esta situação.

“Isto não é algo que desaparecerá de um momento para o outro”

Está a ser o maior desafio que teve de enfrentar enquanto CMPC e CBV?

Sim. Foi algo inusitado que apareceu, algo novo para todos, que não se vê e por isso é mais complicado de gerir. Todos os procedimentos e atitudes que tivemos de tomar foi para que de alguma forma se tivesse alguma prevenção e precaução. É daquelas situações para as quais não conseguimos arranjar explicações de imediato porque não estávamos à espera, é histórico, mas temos de saber viver com elas, temos de nos adaptar, ter o cuidado de perceber o que as autoridades de saúde dizem sobre isso, acreditando piamente que eles estão a indicar-nos tudo o que é razoável de se fazer, enquanto procedimentos, e acreditando nas pessoas que cumpram e façamos cumprir as novas regras de higiene e segurança para que possamos minimizar ao máximo o impacto que possa ter.

As novas regras de segurança e higiene vão acompanhar-nos até ao fim do ano?

Segundo as autoridades de saúde é algo que vamos ter de gerir durante algum tempo. Esse tempo ainda não está programado nem temos conhecimento de qual será o tempo. O que é facto é que as autoridades dizem que isto não é algo que desaparecerá de um momento para o outro. Por isso temos de ter a prevenção e precaução com os cuidados adequados para que o impacto seja o menor possível e a nossa vida prossiga.

Qual a decisão mais difícil que teve de tomar relacionada com a Covid-19?

Tentamos tomar decisões o mais ponderadas e o mais adequadas possíveis ao momento. Contudo, foi efetivamente das primeiras situações que tivemos em que havia efetivamente a necessidade de fazer um transporte em que todos os sinais e sintomas eram indicadores de que poderia existir ali um caso. Foi tentar incentivar todos os operacionais de que tínhamos de o fazer, de estar bem protegidos e foi a primeira situação que tivemos na CERCI.

No início da pandemia tiveram muitas pessoas com sintomas a ligar para o quartel, mas não podiam atuar diretamente. O que acontece nestes casos?

Caso liguem para o quartel, fazemos a passagem da chamada para o CODU (Centro de Orientação dos Doentes Urgentes) que através da Linha de Saúde 24 ou 112 fazem uma pré-triagem e que nos passam esse tipo de serviço (transporte) e nos informam o mais minuciosamente possível sobre a circunstância do doente e a formascomo devem ser abordados o doente e o pedido de socorro

“Não baixamos a guarda nem vamos facilitar para bem de todos”

Que procedimentos tiveram de adotar para transportar este doente?

Todo o equipamento de proteção individual na área da saúde desde a utilização de fato integral, máscara, luvas, óculos, viseiras, tudo que é  necessário para que o operacional se sinta seguro.

Sentiram-se seguros?

Sim. Fizemos sempre um trabalho de sensibilização e de formação constante no início sobre como se deviam equipar e não menos importante como se deviam desequipar. Às vezes achamos que o equipar é que é complicado, mas numa situação em o quadro é de pandemia e há um vírus que pode estar alojado em qualquer uma das partes da roupa, é muito importante fazer um desequipar do equipamento adequado para que depois não haja esse contágio. Por isso, tiveram formação para que tivessem os cuidados máximos para que o compromisso na emergência estivesse sempre assegurado. Como lhe disse, nada disto ainda terminou e não baixamos a guarda nem vamos facilitar para bem de todos.

Quantos doentes com Covid-19 já transportaram?

Essa é uma questão que não lhe consigo dizer porque todos os serviços que fazemos, quase na sua totalidade, em termos de socorro, tirando as quedas e os acidentes, mesmo assim vamos adequadamente equipados, são todos suspeitos. Para que primeiro não se baixe a guarda e em segundo não sejamos surpreendidos por uma situação que possa estar menos bem avaliada. Por isso é um conjunto muito grande de transportados avaliados como suspeitos e por isso não lhe posso dar esse número corretamente.

A Proteção Civil tem feito tudo que está ao seu alcance ou poderia fazer mais?

Penso que sim. Apesar das incertezas, tivemos sempre a preocupação de tentar antecipar os problemas. Temos feito o que é possível e aquilo a que o momento obriga a ser feito. Tem sido prática recorrente diária tentar acompanhar ao máximo o que se passa na cidade e tentar resolver as situações que vão ocorrendo da melhor forma possível.

“O comportamento humano é que vai de alguma forma equilibrar ou potenciar uma situação mais complicada”

Até quando vão estar adaptados os três espaços com 190 camas disponíveis para responder a casos de emergência?

Neste momento, tudo isto é imprevisível. Aguardamos que a população tenha comportamentos adequados que nos levem a um estabilizar da situação. Contudo, como disse, tudo isto é imprevisível, novo e não sabemos exatamente quando será o seu termos. Por isso, estará até que as autoridades de saúde entendam ser o adequado.

Como tem sido conciliar os cargos de CMPC e CBV?

O corpo de bombeiros tem chefias e estamos todos integrados num serviço em que tentamos sempre fazer o nosso melhor e as coisas ficam mais facilitadas. Por isso o conciliar foi relativamente simples. Temos capacidade de adaptação e de criatividade em criar soluções e temos de reconhecer que temos uma resposta muito boa quando não estávamos de forma alguma preparados para isso.

O que mudou no dia a dia da corporação?

Algumas coisas para não dizer muitas. Nós fizemos várias alterações ao normal funcionamento e criámos um novo normal de funcionamento. Em todas as reuniões tivemos de nos adaptar às videoconferências entre o comando e as chefias para que houvesse ligação sempre contínua com as decisões tomadas e partilhadas com o resto do pessoal. Depois criámos outros procedimentos num plano de contingência do corpo de bombeiros que foi atualizado conforme as necessidades. Desde medição da temperatura dos bombeiros à chegada, tomar banho e mudar de roupa para a farda, desinfeção e limpeza do quartel como práticas recorrentes e diárias. Para não colocarmos todas as pessoas, em termos operacionais de serviço, criámos inicialmente quatro turnos de 24 horas e deixámos pessoal em casa de reforço caso houvesse alguma situação menos boa.

Até agora houve alguma situação menos boa?

Felizmente não. Temos isto dividido por funções, temos um elemento que tem como compromisso todas as semanas e quase todos os dias fazer uma monitorização dos bombeiros que consiste em ligar para as pessoas e perguntar se tem alguns sinais ou sintomas e se tem alguma situação familiar. Depois faz-me o reporte da situação.

Qual a razão que levou  quatro bombeiros a realizar hoje (terça-feira) o teste à Covid-19?

É uma medida de precaução, mas nunca baixando a guarda. O teste nunca pode ser encarado como: ”faço o teste, deu negativo e posso andar à vontade”. Todos somos suspeitos de ter este vírus. Por isso, o que fazemos sempre que necessário é rastrear algum grupo de bombeiros, não por ter sinais e sintomas, mas aleatoriamente e por prevenção.

Quantos bombeiros já fizeram testes?

Neste momento, não tenho noção. Com a zaragatoa estes são os primeiros. Também fizemos os serológicos numa fase inicial.

Nos últimos dias o número de casos tem-se mantido estável no concelho. Como é que deve ser encarada esta aparente estabilidade?

Apelo a que as pessoas tenham todos os cuidados necessários e que escutem aquilo que a autoridade de saúde tem dito. Penso que todas as indicações são para o bem comum e para aquilo que de mais importante temos na vida que é a saúde. Por isso, peço que as pessoas continuem a ter cuidados como o distanciamento físico, a etiqueta respiratória, os cuidados ao chegar a casa com a própria roupa usada na rua para que não haja uma cadeia de transmissão do vírus. Acho que temos de ter a noção de que estamos num ciclo de vida diferente. A vida continua, mas temos de nos adaptar a esta situação porque estou convicto de que não estará no seu fim de maneira nenhuma e o comportamento humano é que vai de alguma forma equilibrar ou potenciar uma situação mais complicada.

 

Normando Oliveira

DF

É comandante dos Bombeiros Voluntários de S. João da Madeira faz amanhã, dia 15 de maio, 10 anos e foi nomeado Coordenador Municipal da Proteção Civil no dia 25 de outubro de 2019 pelo presidente da câmara, Jorge Sequeira, que anunciou a sua tomada de decisão um dia depois, a 26 de outubro, durante as comemorações do Dia Municipal do Bombeiro.

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