O primeiro Estado de Emergência foi declarado a 18 de março em Portugal. Entre as medidas decretadas, que entraram em vigor a 22 de março, tínhamos o encerramento de estabelecimentos como salões de cabeleireiro e estética e lojas de roupa e de calçado.

O labor falou, sexta-feira passada, com estes estabelecimentos que fecharam antes de ser obrigatório, o que levou a que estivessem cerca de 50 dias encerrados ao público.

O salão de cabeleireiro e estética “Me Amo” abriu há oito anos na Rua Oliveira Júnior, é gerido por Lília Barra, e tem três funcionárias, duas cabeleireiras, e uma esteticista. O “receio” sentido por si e pelas clientes que cada vez “vinham menos” e a necessidade de “proteção” da família, levaram a que fechasse antes de ser obrigada. Uma decisão que lhe custou “imenso” porque “parecia que estava a abandonar isto”. Agora que voltou a abrir as portas, nada é como dantes. Já trabalhava por marcação, mas agora o número de clientes é muito mais limitado por dia. “Antes, numa hora tinha uma pessoa a pintar e atendia dois brushings. Hoje (sexta-feira passada) tenho duas clientes de manhã, umas madeixas às três e risquei o resto da tarde”, contou Lília Barra, admitindo que ponderou “aumentar os preços, mas as pessoas não têm dinheiro” e se há coisa que esta “crise” fez perceber é que, “se as pessoas aguentaram tanto tempo em casa, aguentam mais e não vêm pintar o cabelo de mês a mês”. Passou a atender apenas duas pessoas de cada vez em cadeiras devidamente separadas, deixou de ter pessoas à espera nos sofás, de comprar revistas, passou a ter de preencher um papel sobre os sintomas que podem ser sentidos pelos funcionários e a ter de desinfetar tudo que é usado durante o atendimento a cada cliente. “Agora tenho uma nova função que é a de estar sempre a desinfetar e atenta aonde é que as clientes tocam”, revelou a gestora do espaço ao labor.

Um novo investimento é nos equipamentos de proteção individual para cada um dos funcionários desde máscaras, viseiras, batas de proteção, manguitos, luvas. Na opinião de Lília Barra, a adaptação a todos estes equipamentos é “uma questão de hábito”, mas também acha que “a capa de proteção, as luvas e os manguitos eram desnecessários” porque “bastava desinfetar as mãos e continuar com a bata de pano”. Já para não falar na despesa que tem com eles. Só na primeira semana de regresso ao trabalho já tinha gasto 187 euros, um valor que não inclui as luvas cujos stocks estavam esgotados. Para além deste gasto com equipamentos de proteção individual, de higiene e segurança , a gestora do espaço vê-se confrontada com a diminuição de clientes consequente da limitação do número de pessoas que pode atender por dia. Portanto, nestes primeiros tempos “estamos a trabalhar para a despesa em atraso como a renda do espaço que vamos pagando aos poucos devido à compreensão da senhoria pelo facto de nunca lhe ter falhado ao longo destes anos e para os materiais”, admitiu Lília Barra que pediu lay off, mas “até agora continuo sem resposta”, suportando, desde o encerramento, do seu próprio bolso o salário de uma das cabeleireiras já que a outra está de baixa devido à gravidez e a esteticista trabalha por conta própria.

O cenário que encontrámos no salão não foi o mais animador devido ao facto de não estar a dar para “ter dinheiro de lado depois de pagar a rendas e as despesas”, mas “para mim está fora de questão desistir”, assegurou Lília Barra.

“É preciso mais tempo para fazer as coisas com calma”

Pouco depois chegou Jacinta Rocha, a cabeleireira, com quem falámos depois de vestir todo o equipamento de proteção individual que passou a ter de usar para fazer o seu trabalho. “Não é fácil ter as luvas para cortar o cabelo nem usar a máscara e a viseira porque cria-se muito calor, os elásticos incomodam-me bastante nas orelhas e como uso óculos ainda pior”, confessou Jacinta Rocha, não sem reconhecer que tanto ela como qualquer outro profissional vai ter de “se adaptar” a esta nova realidade, na qual “é preciso mais tempo para fazer as coisas com calma” e “o que fazíamos em pouco tempo passou a demorar mais”. Uma vez que “tudo mudou as pessoas deviam ser mais compreensivas, mas não”, afirmou Lilía Barra. “Não há paciência, não querem esperar e não percebem que os trabalhos demorem mais”, confirmou Jacinta Rocha. O que nos leva a perceber que depois de termos sido obrigados a parar e a repensar sobre muitas coisas, depois de voltarmos a ser livres, ainda que de forma faseada, esquecemos a maior parte delas. “Nunca partilhei essa mensagem (de que tudo ´vai ficar bem´) porque não vai ficar tudo bem, vai ficar igual ou pior”, concluiu Lília Barra ao labor.

“Acho uma estupidez colocarem as roupas de quarentena porque vamos ao supermercado e não o fazem com os produtos”

Clara Gomes é dona loja de roupa “Be Yourself” há cinco anos na Avenida Dr. Renato Araújo e fechou as portas a 14 de março porque “não havia movimento, nada”. Desde então “tem sido horrível porque tudo aconteceu no início da nova estação e ainda não vendemos nada”. Só para termos uma noção, a lojista disse que quando reabriram o  “movimento era nulo” e que muito provavelmente resulta do facto de “as pessoas terem medo de uma segunda pandemia”. Neste que se adivinha um “retorno muito difícil”, “acho uma estupidez colocarem as roupas de quarentena (depois de experimentadas têm de ser devidamente desinfetadas) porque vamos ao supermercado e não o fazem com os produtos embalados e sem ser embalados”, considerou Clara Gomes ao labor.

Embora tenha os artigos da loja nas redes sociais (Facebook e Instagram), as pessoas “não compraram. Elas gostam de sentir o tecido, de experimentar e de ver como fica”. Enquanto sócia-gerente não teve direito a nenhum apoio estatal, por isso é que antevê este como um ano que “vai ser ainda mais complicado”. Num cenário em que as atuais regras se possam manter por mais um ano, a reação da lojista foi imediata. “Não, de forma alguma. Ninguém aguentaria assim um ano. Se já está a ser complicado com uma estação, que fará com todas ao longo de um ano”, disse Clara Gomes ao nosso jornal. 

“Temos de ter a consciência de que as vendas não vão ser o que eram”

DF

Na Rua Visconde encontrámos Ana Pinho que fechou antes do dia 16 de março a loja “Gato Sapato”, que tem juntamente com o marido, há sete anos, no centro da cidade. “Deixámos  tudo sem noção do que ia acontecer e com tanta mercadoria em armazém”. Desde que  reabriu ao público, a sensação é de que “se a pessoa não tivesse um pé de meia para suportar este tempo todo seria muito complicado”. Este casal pediu lay off e já recebeu o valor referente à segunda quinzena de março. “É uma ajuda, mas o valor pago pelo Estado não suporta a renda, água e luz. Já nem falamos dos encargos fiscais”, admitiu Ana Pinho.

À loja “Gato Sapato”, este casal tem associada uma atividade comercial de venda de sapatos a outras lojas que também está a sentir os efeitos da pandemia. “Os clientes começam a cancelar as encomendas e é muito difícil aguentar a situação”.

Nos primeiros dias “as pessoas apareceram com ansiedade de ver os artigos”, mas agora estão “mais paradas”. Por um lado, se há clientes que continuam com o mesmo poder compra por pertencerem a setores que continuaram a trabalhar e não tiveram uma quebra salarial. Por outro, também sente que há clientes que tiveram uma quebra no rendimento e não compram de imediato o produto como noutros tempos. “As coisas vão ser complicadas por causa dos despedimentos. É lógico que nada mais será igual. Se as pessoas estão mais por casa, não viajam, não vão de férias, não vão comprar sapatos e roupa”, constatou Ana Pinho, salientando que “temos de ter a consciência de que as vendas não vão ser o que eram”.

Entre o encerramento e a reabertura com as novas regras de higiene e segurança “temos de perceber que não havia outra forma de resolver a situação”, compreendeu a lojista. Contudo, não entende a divergência de critérios entre os cuidados que devem ser tidos em estabelecimentos, dando como exemplo “os supermercados”, onde “as pessoas podem pegar na fruta e legumes que não estão embalados, quando devia ser um funcionário a fazê-lo, e os produtos embalados são tocadas por muitas pessoas e não são desinfetados”. Para além do gel desinfetante para as mãos, a sua loja de sapatos tem “pézinhos” para cada cliente que lá entrar usar caso experimente um sapato que é  posteriormente desinfetado. Seja nos estabelecimentos, seja noutro espaço qualquer, “temos de ser agentes de saúde pública de nós próprios” porque “não pode haver um polícia para cada um de nós”, defendeu Ana Pinho, apontando ainda o dedo à comunicação social por estar a falar na possibilidade de termos um novo surto em outubro. “Acho que está a criar alarmismo antes do tempo e antes de podermos voltar ao que era o nosso dia a dia”, indicou a lojista com a convicção que este tipo de informação vai “afastar ainda mais  as pessoas de sair à rua” e “aí (o comércio) entra em colapso”.

Neste momento, “o que me assusta não é o presente, que gerimos com um fundo de maneio, mas o futuro com todas estas incertezas e alarmismos. O futuro é assustador”, confidenciou Ana Pinho ao labor.

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