Recuperação, reconversão e regeneração

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Os dados disponíveis, no dia 11 de maio, indicam que no mundo a relação entre recuperados e doentes infetados por Covid-19 é de sensivelmente um para três. Em Portugal, apesar do número de recuperados estar a subir, a mesma relação é de um para nove, ou seja, pouco mais de 3.000 recuperados, num total de cerca de 27.000 casos. Lendo estes números e sendo conhecido alguns casos que tardam em obter o primeiro teste positivo, pode-se ficar com a sensação que o vírus em Portugal tem uma mutação especial. Esmiunçando os dados por concelho, suportando-me nos indicadores fornecidos pela Câmara Municipal de Ovar, verifica-se que neste concelho num total de 703 casos positivos, apenas 120 doentes ainda não recuperaram. Como se comprovou, o sistema nacional de indexação de dados da Direção-Geral da Saúde é extremamente lento, por isso, factos positivos tardam em ser notícia e de acordo com os dados publicados no dia em que escrevo, 12 à tarde, em que o número de recuperados relativamente ao dia anterior foi superior ao número de infetados, não tardará muito para Portugal obter uma taxa de recuperados mais simpática, próxima da proporção mundial.

Há 20 anos, na viragem do milénio, o setor produtivo Português deixou de ser competitivo à escala global. Seguindo a tendência europeia, demasiadas indústrias foram deslocadas para o oriente asiático e os seus trabalhadores colocados numa situação de desemprego. Para muitos, com uma infância interrompida, sem possibilidades de continuar os estudos e colocados em tenra idade em fábricas, para ficarem com uma qualificação técnica, a única solução foi a reconversão profissional. Apesar de lógico, a mudança de profissão, que nem sempre correu bem, trouxe precaridade, baixos salários e empregos pouco qualificados, que permitiram “atravessar” as sucessivas crises até ao presente ano. Nestes dias de pandemia, a economia de proximidade tende a suceder à globalização, pelo menos com consequências imediatas em termos de saúde pública, com o uso generalizado de máscaras pela população em espaços públicos. Oportunidade para as proscritas da globalização, aquelas que aprenderam a costurar ainda em tenra idade, aquelas que preservaram a sua máquina de costura. Agora com dois elásticos, um arame, um filtro e dois pedaços de algodão podem fabricar máscaras homologadas e proteger a demais população. Sem dificuldade, podem produzir mais de 200 máscaras por dia e atendendo ao facto de serem laváveis e reutilizáveis consegue-se escoar uma unidade produzida por 2,5 euros, no mínimo. Ironia destes tempos.

O último erre, o último parágrafo, para a referência às obras de regeneração da Praça Luís Ribeiro. Empreitada iniciada, em tempos de calamidade. Estruturas metálicas retiradas, árvores cortadas (seria mesmo necessário?), máquinas em movimento. Parece não haver contestação. Pelo menos não tive conhecimento. A amplitude conquistada transporta-nos para o passado e para outras latitudes. Apetecia-me escrever: não mexam mais. Tapem buracos, nivelem o piso, padronizem a calçada e não façam mais nada. Só que há um projeto e a obra tem que respeitar a vontade do autor. Ou autores, já não me lembro. Lamento que o anterior projeto não tivesse sido implementado. O lado poente da Praça com trânsito no sentido, único Sul-Norte, entrando pela Rua Visconde e seguindo para a Rua Oliveira Júnior, era voltar ao original. Sem pecado, com perdão, por 35 anos de erro. Uma zona pedonal foi uma novidade urbana que a cidade absorveu. O seu posterior alargamento provou-se uma tentativa desesperada, com pouco significado, nem enquadramento comercial, nem funcionalidade para a população. Houve arruamentos que perderam utilidade, restando-lhes o parqueamento, desordenado. É certo que se cedeu ao automóvel, o estacionamento na frente dos Paços da Cultura é confrangedor. No entanto, entre parar e passar, há uma pequena diferença, que poderia ter sido suportada na Praça Luís Ribeiro, isolando o Parque América dos restantes edifícios. Para já, a obra arrancou. Ainda falta muito para tudo terminar.

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