Esta foi uma época atípica para os clubes e associações, que viram o surto de Covid-19 paralisar por completo o desporto. Se numa fase inicial as medidas passaram apenas pela suspensão, o evoluir da pandemia acabaria por levar, inevitavelmente, ao cancelamento de praticamente todas as competições. A decisão condicionou os objetivos de muitos clubes, mas levou a que outros alcançassem ou ficassem próximo das metas definidas no início da temporada, como aconteceu com a equipa sénior de andebol da Associação Desportiva Sanjoanense, que está a um passo de “alcançar uma subida histórica à 1.ª Divisão Nacional “. Com o clube alvinegro a ocupar a segunda posição da Fase Final na altura em que a competição foi suspensa, atrás do Póvoa AC, a Federação de Andebol de Portugal optou, no entanto, pela realização de uma competição todos contra todos a uma volta, em setembro, entre Póvoa AC, AD Sanjoanense e AC Almada, os primeiros classificados das três zonas (1, 2 e 3) da primeira fase.

“Não é tão simples como parece”

Satisfeito por ver a equipa próxima de alcançar o objetivo, José Pedro Silva não concorda, contudo “com a realização da liguilha no início da próxima época”, por considerar que torna-se “extremamente difícil planear, ou mesmo tomar decisões”. “ A equipa que participar na liguilha terá de ser a mesma que competirá na época 2020/2021, pelo que temos de decidir se construímos um plantel para a primeira ou para a segunda divisão, sem saber em qual vamos jogar”, explica o responsável pelo andebol da Sanjoanense, que admite que a situação “não é tão simples como parece” e que afeta “não só a angariação de patrocínios e apoios, mas também a contratação de jogadores”. “Há muitos atletas que, simplesmente, não jogam na segunda divisão e querem ter essa garantia quando decidem com quem se comprometem. Ora, nós só teremos essa certeza quando o mercado estiver fechado. Não vai ser fácil, vamos trabalhar e fazer o nosso melhor”, assegura José Pedro Silva, sublinhando que a Sanjoanense “vai abrir a época com jogos a doer”.

“Aproximam-se tempos difíceis e transversais a toda a economia”

Com a equipa na segunda posição da Fase Final do Campeonato Nacional da 2.ª Divisão, o clube alvinegro era um dos candidatos à subida ao escalão principal da modalidade e a suspensão da prova não trouxe dúvidas ao dirigente. “Não esperávamos outra coisa. Ou a subida direta dos dois primeiros classificados ou esta pole de acesso”, refere José Pedro Silva, relembrando que a Sanjoanense “já esteve na 1.ª Divisão há 38 anos atrás” e que foram várias as direções que “tentaram a subida noutras alturas”. “É um facto que das últimas três épocas esta foi aquela em que apostamos menos. Estamos já há alguns anos a melhorar a performance das equipas de formação e, neste momento, estamos no grupo dos melhores nacionais em todos os escalões. A seguir esse caminho será inevitável que tal aconteça também com os seniores”, explica, admitindo que a subida pode surgir numa altura de crise, resultado de uma pandemia que trouxe também ao desporto consequências económicas, que José Pedro Silva acredita que irão afetar os clubes no geral. “Os orçamentos vão baixar em todos os campeonatos de todas as modalidades. Os técnicos e atletas vão receber menos e os apoios serão menores”, frisa o dirigente, assegurando que se aproximam “tempos difíceis e transversais a toda a economia” e que será necessária “muita coragem para ser dirigente na próxima temporada”. “O facto de a época passada ter terminado mais cedo levou a que não entrassem na secção receitas importantes que estavam previstas no orçamento. Os custos também baixaram ligeiramente, mas é algo geral e que será gerido e, com certeza, vai ser contornado, como temos feito com tantas adversidades que têm surgido nos últimos anos”, sublinha José Pedro Silva, garantindo que a secção irá fazer face às adversidades económicas utilizando o “medicamento habitual”.

“A Sanjoanense tem a equipa técnica que queria”

Assegurando que “até nas crises se podem encontrar oportunidades” e que é importante “estar atento e agir com moderação”, contenção de custos e organização de eventos são algumas das medidas apontadas pelo dirigente, que mantém também a esperança que os patrocinadores habituais não se afastem e garante que “a câmara municipal tem cumprido o seu papel”, ainda que discorde com a visão da autarquia, que considera ter uma política direcionada para o “desporto para todos e não focada na alta competição”. “É uma opção que respeito, mas, de facto, não é onde o andebol se enquadra, pois a nossa tendência é ir, cada vez mais, de encontro à alta competição. Há autarquias com um foco muito maior na alta competição, como a Maia ou Oliveira de Azeméis, mas também estou a comparar com o outro extremo. De qualquer forma, reforço que a participação da autarquia tem sido positiva, tanto na pessoa do presidente, que, dentro do possível, está sempre pronto para nos ouvir e ajudar, como da vereadora do desporto, que é bastante sensível às necessidades das associações”, explica o dirigente, que pretende, brevemente, apresentar à autarquia o “projeto e as fragilidades” da secção, com o intuito de “criar uma parceria de sucesso”. “Até pensando já na liguilha de setembro, pois tenho a certeza que serão muitos os sanjoanenses a querem deslocar-se com a equipa”, acrescenta, frisando que “as modalidades coletivas são a bandeira da cidade no país”.

Apostar na formação com foco nos seniores

E é já a pensar na próxima temporada, aproveitando o confinamento e o cancelamento das competições, que a secção de andebol está a trabalhar “desde meados de março”, tendo, neste momento, “praticamente 95% da nova época preparada” para, mais uma vez, entrar com o objetivo de estar entre os melhores. “Deveremos reforçar a formação masculina com um treinador e queremos manter os juniores na 1.ª Divisão, levar os juvenis à fase final da 1.ª Divisão e nos iniciados e infantis ir às fases finais nacionais. No feminino pretendemos reforçar qualitativamente as equipas técnicas e colar o nível com o atingido no masculino. Nas seniores femininas o objetivo é construir uma equipa competitiva com base em ex-atletas e jogadoras da formação. Precisamos que seja um ano forte na captação de base, temos de incidir nesse ponto. Já nos seniores masculinos, estamos a preparar uma equipa competitiva para a 1.ª Divisão, com cerca de 60% de atletas formados no clube. Penso que é importante haver uma empatia entre a cidade e a equipa, e ter no conjunto vários elementos da cidade dá-nos isso”, explica José Pedro Silva, assegurando que é necessário haver simbiose entre a formação e a competição sénior. “Um clube que não tenha uma formação consistente, não consegue ter uma equipa sénior consistente. Assim como um clube que aposte só na formação nunca a terá forte pois não consegue fixar os atletas, que acabam por sair muito cedo para equipas com seniores, desagregando as equipas”, esclarece o dirigente, que defende que a aposta deverá ser sempre “proporcional”. “Devemos ter condições para, com a prata da casa, fazer 50% da equipa sénior e conseguirmos ser competitivos”, acrescenta, sublinhando que caso a Sanjoanense alcance, em setembro, a subida de divisão ficará com “todos os escalões masculinos no topo nacional”. “Não me recordo de tal ter acontecido no passado”, realça, garantindo que com esse cenário “o objetivo é a manutenção”.

Apostar na fase final, mas lutar pela subida

A meta é ambiciosa, mas está ao alcance do clube alvinegro e para o dirigente o treinador Nuno Silva e o adjunto Hélder Vieira, são “os principais culpados” da Sanjoanense estar a um passo da subida de divisão. “O Nuno Silva tem dado provas de grande qualidade e o Hélder Vieira, para além de ser um ótimo treinador, tem a vantagem de ser um produto do clube, que conhece bem os cantos à casa, sente o emblema como ninguém e é muito sensível à sua realidade global”, conta José Pedro Silva, que assegura que “a Sanjoanense tem a equipa técnica que queria” e que a secção estruturou o plantel com o “objetivo de estar, como tem sido hábito, na fase final do campeonato”. “Sabíamos que tinha qualidade e que, para além der ser uma equipa pequena tinha uma componente de juventude exageradamente alta para quem quer subir, daí eu considerar, no início de época, ser muito arriscado assumir uma subida”, confessa o dirigente, assegurando, no entanto, que os atletas “tiveram sempre esse objetivo”.

Em setembro a Sanjoanense entra na nova época a lutar para estar entre os grandes do andebol nacional, meta que, se alcançada, trará algumas mudanças, nomeadamente nos jogos em casa, com alguns encontros a terem entrada paga. “Acho que há uma mentalidade muito má relativamente ao desporto na nossa comunidade. Ninguém pensa em ir ao cinema, ao teatro ou a um concerto sem pagar bilhete, mas quando se trata de ir ver equipas da cidade muita gente pensa que basta bater com a mão no emblema e surge algum milagre. Na equipa sénior, temos 30 pessoas entre jogadores, treinadores, equipa medica, administrativos que trabalham todos os dias para, no fim de semana, apresentar um espetáculo, e isso não cai do céu”, explica o responsável pelo andebol alvinegro, sublinhando que o pavilhão das Travessas tem algumas “condicionantes”, que acredita que serão ultrapassadas sem grandes constrangimentos. “Há uma boa relação entre a Sanjoanense e o Dínamo, que são os maiores utilizadores daquelas instalações. Estamos cientes das exigências e oportunamente conversaremos no sentido de ajustarmos os nossos calendários”, refere o dirigente, que considera que “operacionalmente a cidade não tem pisos suficientes” para as modalidades que acolhe. “Uma modalidade como o andebol, que se debate com inúmeros custos para ter sucesso, não pode gastar, como gasta, cerca de 6.000 euros por ano em aluguer de pavilhões. Os pisos municipais não são suficientes e os outros são caros”, conclui, recordando uma época em que a secção optou pela realização de treinos em Macieira de Sarnes.

Dirigente acredita que época 2020/2021 será a de maiores sucessos

Continuidade para garantir estabilidade

Há vários anos à frente dos destinos do andebol da Associação Desportiva Sanjoanense, José Pedro Silva confessa que a última época deveria ter sido a última, mas face a “alguma instabilidade diretiva”, sentiu-se “na obrigação de continuar”. “Achei que a saída poderia ter consequências negativas, colocando em causa tudo o que se construiu com muitos sacrifícios durante vários anos. Não havia problemas de continuidade pois surgiram várias possibilidades de sucessão, mas muito divergentes umas das outras e penso que foi a melhor opção que podia ter tomado”, explica o dirigente. Sublinhando que os anos de recuperação “foram os mais difíceis”, José Pedro Silva garante que agora é altura de “colher frutos do bom trabalho realizado ao nível da formação”. “Se tivemos o mérito de sofrer nos tempos mais difíceis, também temos o direito de disfrutar do sucesso”, conta o responsável pelo andebol alvinegro, garantindo que a direção da secção “vai fazer a próxima época” porque considera que “não seria correto”, numa altura de crise “criar problemas adicionais”. “Não acredito que numa altura de crise económica surgissem tantas soluções de sucessão como nas últimas eleições”, esclarece José Pedro Silva, confiante que a época de 2020/2021 “será a de maiores sucessos desportivos de sempre”. “A entrada de novos diretores, que serão brevemente anunciados, será também com o objetivo de expandir outras áreas na nossa organização”, revela o dirigente, para quem a última temporada foi “excelente” em termos desportivos. “Considero que o efeito de terminar mais cedo foi neutro em termos de resultados desportivos”, sublinha, frisando que a aposta incidiu, como habitualmente, nos escalões de formação, enquanto nos seniores a secção optou por uma redução no orçamento, sem, no entanto, colocar em causa a manutenção. “Infelizmente a época ficou a meio pelos motivos que conhecemos, mas, mesmo assim, foi repleta de conquistas”, destaca, enumerando alguns dos feitos alcançados, como a chamada de atletas às seleções e os resultados e classificações conseguidas pela maioria das equipas, sublinhando o facto da Sanjoanense ter terminado a temporada sem ser eliminada da Taça de Portugal.

Torneio continua ligado à Sanjoanense

Andebolmania e o impacto no orçamento da secção

Para além das competições, foram muitos os eventos desportivos cancelados por todo o país devido à pandemia, entre eles o Andebolmania, torneio internacional que é já uma referência da modalidade ao nível nacional. José Pedro Silva garante que o “impacto na secção é sempre grande”, uma vez que o torneio “foi criado para ser um dos equilibradores do orçamento da secção”, mas mostra-se confiante na próxima edição. “Será realizado talvez até com mais fulgor”, frisa, recordando que o Andebolmania “foi um sonho” seu e de Manuel Andrade cuja continuidade foi depois assegurada por outras pessoas que mantiveram a dimensão do evento. Um crescimento que o dirigente assegura que obrigou à criação de uma “pessoa jurídica própria”. “Com o passar dos anos, assim como noutra organização qualquer, a estrutura foi mudando. Saíram umas pessoas e entraram outras. Mas sempre pessoas com ligações presentes ou passadas com a secção”, explica, realçando que o Andebolmania continua ligado à Sanjoanense. “Não teria razão de existir de outra forma”.

Hoje nem José Pedro Silva nem Manuel Andrade têm ligação à estrutura do torneio, mas o dirigente garante que continuam presentes e a ajudar. “Vejo esta situação de uma forma positiva, pois há muitas pessoas disponíveis. Tenho a certeza que, se por qualquer razão, a direção do andebol tiver de sair, terá ali uma solução, e vice-versa. No fundo temos duas equipas titulares e que também são o backup uma da outra. Isto só traz segurança e não instabilidade”, explica, referindo que “o grande ponto de viragem foi há sete anos”. “Só quem esteve antes e depois dessa data consegue ver as diferenças. A secção mudou completamente. Alias, o nosso objetivo foi sempre esse, criar uma estrutura que se regenere sozinha não ficando ferida quando sai um ou outro elemento”.

Loading Facebook Comments ...

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here