Casa de Repouso Manuel Pais Vieira Júnior voltou a receber visitas 

Foram cerca de três meses de isolamento rigoroso, como medida de combate à Covid-19, que mais pareceram três anos. Ao longo deste tempo, Isabel Maia falou com a sobrinha, também ela Isabel Maia, por videochamada. E até a viu “para aí umas três vezes”, mas separada por um vidro. Viu a sobrinha e a neta Maria, que tanto “adora”. “A minha neta Maria é a menina linda dos olhos dela”, contou Isabel Maia ao labor, acrescentando: “Quase não nos conseguíamos ouvir. Para falar era uma gritaria, mas pronto só de a ver já confortava o coração”.

Esta tia e esta sobrinha cabo-verdianas, que vivem já há muitos anos em S. João da Madeira (SJM), foram, assim, matando as saudades. Da forma como podiam. Mas a verdade é que, à medida que o calendário foi avançando, a separação foi-se tornando insuportável.

“O confinamento foi muito doloroso, muito penoso, tanto para eles como para nós”

A última vez que estiveram juntas na Casa de Repouso Manuel Pais Vieira Júnior, onde Isabel Maia reside há sete anos, foi no dia 16 de março. Esta última terça-feira reencontraram-se. Isabel Maia, de 83 anos, estava visivelmente feliz. Mesmo com máscara, os seus olhos espelhavam felicidade. E ela própria disse que estava “muito feliz”. “Acredite que estou feliz”, repetiu à nossa reportagem.

Esta utente da Casa de Repouso, uma das respostas da Santa Casa da Misericórdia (SCM) para idosos, confidenciou que esteve “completamente ‘louca’ devido à ausência da família”. “Passei muito mal (…). Elas são como filhas. Vi-as nascer, criei-as. Precisava urgentemente de estar com elas”, vincou.

De acordo com a sobrinha, “o confinamento foi muito doloroso, muito penoso, tanto para eles como para nós”. Mas agora com a retoma das visitas, a partir desta semana, “tiraram-me um peso de cima”. Tia e sobrinha continuam a não poder abraçar-se e continuam a estar separadas, desta feita por um acrílico. Só que nunca estiveram tão próximas desde que foram proibidas as visitas.

Isabel Maia admitiu ao labor que “não estava à espera que este espaço [adaptado para as visitas e com acesso direto ao jardim] estivesse tão bem, está muito bem aproveitado. Uma pessoa sente-se mesmo confortável”. Aliás, tanto ela como a tia fizeram questão de realçar que toda a equipa, inclusive a diretora, tem sido incansável. A Drª Sílvia tem sido extremamente prestável e carinhosa com a nossa família”.

Esta primeira visita durou apenas 30 minutos, mas “foi como que um balão de oxigénio”. Afinal, Isabel Maia teve direito não só a estar perto da sobrinha, como também ainda falou por videochamada com uma sobrinha-neta que está na Alemanha.

Por enquanto, cada utente da Casa de Repouso poderá estar com uma pessoa por semana. A visita terá uma duração máxima de 30 minutos e terá de ser marcada previamente. A ideia é fazer com que todos os utentes possam receber visitas.

“Muito do sucesso que temos tido foi por causa de termos antecipado a suspensão das visitas”

Dispondo de suites e quartos, bem como de diversos espaços comuns destinados à alimentação, lazer e recreio, a Casa de Repouso tem, presentemente, 59 utentes, entre os quais alguns casais. A maioria é de S. João da Madeira, mas também há quem seja oriundo de concelhos vizinhos.

Mesmo antes de o Governo proibir as visitas aos lares de idosos, tanto esta como as restantes estruturas residenciais dirigidas à população idosa, que estão sob alçada da SCM, já as tinham suspendido. Sílvia Fernandes é de opinião – e partilhou-a com o nosso semanário – “que muito do sucesso [note-se que até ao momento a Misericórdia não registou casos de infeção pelo novo coronavírus] que temos tido foi por causa de termos antecipado a suspensão das visitas”.

Segundo a diretora técnica da Casa de Repouso, “esta nossa decisão foi muito bem acolhida desde logo tanto pelos idosos como pelos próprios familiares”. E, de acordo com o diretor de serviços da Misericórdia, “genericamente [os utentes] foram colaborantes com a execução das medidas de contenção e compreensivos quanto às razões da sua implementação”.

No entanto, como chamou à atenção Vítor Gonçalves, há “sempre comportamentos individuais que se diferenciam. Ou pelo excesso de receio de infeção – houve utentes que se resguardaram nos quartos sem deles saírem sob qualquer pretexto – ou por serem excessivamente temerários – houve também quem tivesse tentado sair dos edifícios à socapa”. O que, aliás, Sílvia Fernandes acabou por, também, confirmar ao labor.

Para além de pessoas demenciadas e, por conseguinte, mais dependentes, “temos outras muito válidas que fazem uma vida perfeitamente normal” e que, de repente, se viram privadas “de sair, passear, fazer compras”.Este fechar de portas ao exterior foi contrabalançado com a realização de videochamadas (houve até o neto de uma utente que ofereceu um tablet para a avó e os restantes idosos usarem) e, igualmente, a deslocação dos utentes às varandas dos quartos, estando os familiares nos jardins contíguos.

Mas com o passar tempo “verificámos que as pessoas foram ficando mais deprimidas, mais tristes. As demências começaram a ter alguma aceleração, por falta de estímulo familiar. Faltava-lhes a família”, sublinhou Sílvia Fernandes.

Notícia da retoma recebida “com muito agrado”, mas também com “algum receio”

A notícia da retoma das visitas foi, pois, recebida “com muito agrado”, tanto pelos utentes como pelos familiares. Aliás, as visitas já há muito que se impunham “pela saúde mental dos nossos idosos. Estava a tornar-se quase incomportável mantê-los tanto tempo isolados”, descreveu Sílvia Fernandes.

De facto, a retoma era “algo que tínhamos de fazer”, apesar de “não estarmos muito seguros”. “Ainda temos algum receio de como isto pode vir a correr”, admitiu a diretora técnica, adiantando  ainda que “faremos reajustes, se for necessário”.

“Esta primeira semana, vai ser feita uma reavaliação com a animadora, que é a que vai ficar responsável por gerir máscaras e informações várias. Depois, passados 15 dias, vamos fazer uma avaliação dos vários lares da Misericórdia. Vamo-nos juntar todos com a direção de serviços, com o Dr. Vítor, para avaliar como correu e na expectativa daquilo que vai acontecer no dia 1 de junho, em que, em princípio, haverá mais uma fase de desconfinamento”, completou Sílvia Fernandes.

Para já, utentes acamados não têm visitas

No sentido de implementar as diretrizes emanadas pela Direção-geral da Saúde, a Misericórdia teve de adaptar espaços, pedindo, inclusive, sete acrílicos à câmara municipal, que até esta última quarta-feira só lhe tinha conseguido arranjar três.

No que diz respeito à Casa de Repouso, onde antes funcionava a biblioteca e também eram desenvolvidas atividades lúdicas, isto é, “no espaço da [Ana Filipa], a nossa animadora, como costumo dizer”, é agora a nova “sala de visitas”. Aqui encontramos “uma mesa preparada com um acrílico e gel desinfetante das mãos”. Quem vem de fora, do lado do jardim, entra diretamente neste local, não precisando de circular pelas instalações até chegar ao utente. Tanto o idoso como a visita têm de usar máscara, desinfetar as mãos. Além disso, “temos um documento onde registamos o contacto do visitante, a que horas veio, com quem esteve, para fazermos o rastreamento”, digamos assim.

Para já, “as visitas são limitadas às pessoas que podem vir cá baixo, seja pelo próprio pé, seja de cadeira de rodas ou de cadeirão”, avisou a diretora, esclarecendo que “em relação aos acamados ainda mantemos a casa fechada, porque isso implica a circulação do visitante pela casa”.

Em declarações ao nosso semanário, Vítor Gonçalves assegurou que vão “tentar um paulatino regresso à normalidade. Progressivamente e em segurança”. Se bem que, como admitiu, “a plena normalidade levará tempo a regressar”.

 

Quais são as novas regrasdos lares de idosos?

 – a instituição deve ter um plano para operacionalização das visitas e ter identificado um profissional responsável pelo processo

– a instituição deve garantir que a visita decorre em espaço próprio, amplo e com condições de arejamento (idealmente, espaço exterior), não devendo ser realizadas visitas na sala de convívio dos utentes ou no próprio quarto, exceto nos casos em que o utente se encontra acamado (nos casos de quartos partilhados terão de ser criadas condições de separação física)

– a instituição deve acautelar que, no momento da primeira visita, os seus profissionais informam os familiares e outros visitantes sobre comportamentos a adotar de forma a reduzir os riscos inerentes à situação e às condições nas quais as visitas decorrem

– as visitas devem ser realizadas com hora previamente marcada e com tempo limitado (não devendo exceder 90 minutos)

– as visitas devem respeitar um número máximo por dia e por utente, sendo, numa primeira fase, de um visitante por utente, uma vez por semana (este limite pode ser ajustado mediante as condições da instituição e a situação epidemiológica local, em articulação com a autoridade de saúde local e segundo a avaliação de risco)

– os visitantes devem respeitar o distanciamento físico face aos utentes, a etiqueta respiratória e a higienização das mãos

– os visitantes devem utilizar máscara, preferencialmente cirúrgica, durante todo o período de permanência na instituição

– os visitantes não devem levar objetos pessoais, géneros alimentares ou outros produtos

– os visitantes não devem circular pela instituição nem utilizar as instalações sanitárias dos utentes (se não for possível, deve ser definida uma instalação sanitária de utilização exclusiva pelos visitantes durante o período de visitas que deve ser higienizada, entre visitas e antes de voltar a ser utilizada pelos utentes)

– a instituição deve ter organizado um registo de visitantes, por data, hora, nome, contacto e residente visitado

– a instituição deve disponibilizar, nos pontos de entrada dos visitantes, materiais informativos sobre a correta utilização das máscaras, higienização das mãos e conduta adequada ao período de visitas

– a instituição deve assegurar o distanciamento físico entre os participantes na visita, mantendo, pelo menos, dois metros entre as pessoas, e identificando, visivelmente, as distâncias

– a instituição deve, sempre que possível, definir corredores e portas de circulação apenas para as visitas, diferentes de utentes e profissionais

– a instituição deve certificar-se do cumprimento das regras definidas pela DGS para a contenção da transmissão da Covid-19, nomeadamente a correta utilização de máscaras pelos utentes

Loading Facebook Comments ...

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here