João Costa é um dos três sócios da Padaria do Souto, situada na Rua da Liberdade. Tem 46 anos e também – conforme partilhou com a nossa reportagem – “o desejo de fazer 65 anos de idade na Padaria do Souto quando esta fizer 100 anos de existência”, daqui a aproximadamente duas décadas.

Em declarações ao labor, este empresário licenciado em Administração e Gestão de Marketing, residente na Murtosa, não escondeu o orgulho que sente por ser um dos donos de um estabelecimento comercial que é tido como “património da cidade de S. João da Madeira”. A Padaria do Souto “existe desde 1939, pelo que já passou pela Grande Guerra, ditadura do Estado Novo, Revolução do 25 Abril”, mantendo-se ao longo de 46 anos de democracia, “com altos e baixos, mas sempre a alimentar os sanjoanenses e os vizinhos também”.

Esta crise pandémica, que o mundo está a viver há meses, é outro dos momentos menos bons que vai fazer parte da história da Padaria do Souto. Quando muitos dos sanjoanenses ficaram confinados em casa, João Costa, sócios e colaboradores continuaram a trabalhar. Mas atenção que “não me senti herói, pois faço o que faço por minha livre vontade, assim como os outros profissionais que continuaram a trabalhar em diferentes áreas”, disse o proprietário, admitindo, no entanto, ter de lidar com “a pressão da preocupação saúde versus economia da empresa”.

João Costa reconheceu ter ficado preocupado “com os familiares mais idosos”, “os clientes que tiveram de encerrar e cancelar as suas encomendas”, “a supressão de receitas”. Inicialmente, houve ainda “o receio de termos algum infetado no nosso núcleo”, que foi desaparecendo à medida que foram tendo “informação” e “tomando os cuidados necessários”. Entretanto, o “layoff” também lhes foi trazendo “alguma calma”, “embora com custos para todos os envolvidos”.

 

“Os heróis são figuras de banda desenhada”

João Costa não considera que ele e os sócios sejam “heróis nesta pandemia”.  Na sua opinião, “os heróis são figuras de banda desenhada”, “figuras míticas com poderes sobrenaturais”. Quanto aos três, “quando muito somos heróis por investir na resiliência”. “É difícil singrar num país fantástico, mas sempre envolto em ‘pandemias económicas, em que os tribunais e a justiça não funcionam de igual modo para todos nem são céleres como deviam e se exige”, fez ver, defendendo, de seguida, que “nós, portugueses, temos de exigir muito mais da justiça que é um dos travões do desenvolvimento do país”.

Para este empresário, pai de dois filhos, “este tempo que já foi vivido similarmente há cerca de 100 anos vai passar, mas não sem deixar marcas mais profundas para uns e menos para outros”.

 

Padaria deixou de vender para mais de 20 escolas

Vivem-se dias em que, segundo João Costa, há “muita oferta de produtos similares e de outros que podem substituir o consumo dos nossos produtos”. “A padaria de hoje não vende apenas pão e bolos”. Daí, em seu entender, “a disponibilidade e conveniência serem hoje cruciais para este tipo de negócio”.

No caso da Padaria do Souto, dedica-se atualmente, “em grande medida, ao fabrico de pastelaria e de variados tipos de pão, entre outros produtos específicos, para cafetarias e outros negócios similares, mas também vendemos para 24 escolas, infantários, lares, cafés, restaurantes, hospitais e supermercados”, vendas que, com a pandemia da Covid-19, decaíram muito. Isto, também, para não falar na “venda ao balcão”. “A Rua da Liberdade, sempre muito condicionada e de difícil acesso, tem contribuído para o distanciamento dos potenciais clientes que deixam de passar nesta rua cada vez mais despovoada de transeuntes locais e forasteiros”, chamou à atenção o comerciante.

Balanço feito, e mesmo agora, já em fase de desconfinamento, em que “os clientes do retalho (balcão) procuram mais a esplanada e procuram mais produtos que já tinham ‘saudades’ pela ausência no confinamento”, “o número de transações ainda estão abaixo cerca de 45%”.

Relativamente às escolas, cuja reabertura está prevista para setembro, “são ainda uma grande incógnita”. João Costa não sabe “em que medida vai afetar a nossa produção e os postos de trabalho, que estão em causa, pois não é fácil a angariação de clientes que possam garantir as mesmas ou aproximadamente as encomendas necessárias à manutenção dos operacionais”.

 

Para já, despedimento de colaboradores está fora de questão

A Padaria do Souto tem 15 colaboradores, alguns dos quais presentemente em layoff. João Costa garantiu ao nosso semanário que estes são “a nossa maior preocupação”, não querendo chegar ao ponto de ter de dispensar quem quer que seja, “pois todos trabalham porque precisam e com o seu trabalho também me ajudaram”. O empresário acredita, aliás, que, “após estes percalços e se as escolas em setembro reabrirem com os bares e cantinas, não vou ter necessidade de dispensar colaboradores”.

Mas até lá é viver “um dia de cada vez”. Como referiu, “a legislação que nasce todos os dias tem vindo a condicionar a nossa vida e a das nossas empresas”. “Nós enquanto empreendedores temos o capital de investimento, o projeto, mas primeiro de tudo temos colaboradores que dependem também das nossas decisões e da nossa capacidade de resiliência para conseguirmos dar a volta. Também tenho família que depende do meu salário”, acrescentou.

De qualquer modo, e ainda antes de setembro, “seria bom que os sanjoanenses fizessem as suas compras nos estabelecimentos locais e que reduzissem as suas compras em grandes superfícies”. “Ajudem os locais, sejam mais bairristas”, apelou.

 

 

 “Em países como Bélgica, Países Baixos e Alemanha, os padeiros são reconhecidos”

 Nas pequenas empresas, como a Padaria do Souto, donos e colaboradores “têm necessidade de ser versáteis e adaptam-se às diferentes necessidades e funções”. No caso de João Costa, como sócio da empresa remunerado, executa “diversas operações juntamente com os nossos dedicados colaboradores”. Mas não se considera padeiro. Pelo menos, por enquanto.

“Na verdade, não sou padeiro, pois fazer pão requer conhecimentos adquiridos ao longo de anos junto com outros conhecedores e técnicos”, disse ao labor, acrescentando que “o saber fazer requer saber aprender e estou no local certo para aprender”.

Na sua ótica, “a nobre profissão de padeiro é hoje menos valorizada pela sociedade, pois tudo aparece nas prateleiras com preços módicos”. Mas a verdade é que “os padeiros assumem o cuidado e esmero no tratamento de ingredientes, massas, leveduras, tempos pesagens, temperaturas, encomendas, para termos um produto final de acordo com as expectativas dos clientes”. De acordo com João Costa, “os clientes não conhecem o padeiro, obreiro, verdadeiro responsável pela saúde e segurança alimentar. ‘Não é tudo pão, dizem algumas pessoas, mas, na realidade, trata-se de alquimia para obter a transformação dos cereais em alimento nutritivo, saudável e o mais acessível de todos”.

Contrariamente a Portugal, em outros países da Europa como Bélgica, Países Baixos e Alemanha, os padeiros são reconhecidos, distinguidos, protegem a sua profissão valorizando a formação ao nível técnico mas também ao nível de rentabilidades, são ensinados a pensar o negócio do pão”, chamou à atenção o dono da Padaria do Souto.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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