“Poética Não Oficial, Poesia Contemporânea Chinesa” é a primeira publicação de poesia traduzida de Sara F. Costa e vai ser lançada no dia 19 de junho, pelas 18h30, na Livraria Centésima Página em Braga.

Aquando do lançamento do livro “A Transfiguração da Fome”, em 2018, a escritora foi desafiada a publicar um trabalho desta natureza pelo editor João Artur Pinho.

Passados dois anos de entrega a este “projeto muito pessoal” com o qual quis “sobretudo aprender”, Sara F. Costa publicou uma coletânea de poesia “não oficial” de 33 poemas da cena literária “underground” ou “subterrânea”, isto é, não ortodoxa ou institucional que considera serem da maior relevância para compreender o panorama literário da China pós-revolução cultural.

Esta poesia é considerada “não oficial” por estar associada a “movimentos considerados ´obscuros´ (朦胧诗人)como, por exemplo, a criação da revista literária não oficial ´Jintian´ (今天), ´Hoje´, que acabou por ser censurada, mas continuou a existir fora do país”, deu a conhecer a escritora, explicando que, em contraposição, existem os “poetas oficiais” que “devem vangloriar o regime e escrever sobre os grandes feitos históricos da China à luz da interpretação do Partido Comunista”.

Se não fosse a mais recente obra de Sara F. Costa, muitos destes poemas apenas continuariam a estar acessíveis em Mandarim.

Neste livro podem ser encontrados poetas como Hai Zi, Bei Dao, Xi Chuan, Zang Di e Zhang Zao, tendo a escritora tido contacto com Zuo Fei, uma amiga e colega no coletivo artístico em Pequim, e com Zhai Yongming no seu bar em Chengdu. “A escolha dos autores veio muitas vezes de longas conversas literárias na noite pequinesa”, o que “pode parecer pouco académico, mas é um interesse visceral pela arte e pelo outro que ultrapassa o mero interesse académico, vem de uma curiosidade intelectual que é um ímpeto incontrolável”, revelou a escritora ao labor.

Esta obra de poesia chinesa contemporânea era para ter saído em abril, mas devido à pandemia saiu um mês depois, tendo já despertado o interesse de muitos leitores, jornalistas e críticos literários tanto em Portugal como em Macau.

Para já pode ser comprada na loja online Editora Labirinto (www.editoralabirinto.net). Dentro em breve estará disponível em todas as livrarias do país.

“Não há nenhum sistema de opressão que possa sufocar a essência da arte”

Destes 33 poemas, dois – “Pátria ou sonhar em ser um cavalo” de Hai Zi e “A amante do poeta” de Zuo Fei – foram transformados em vídeo poemas. Esta é “uma forma de interpretar um poema e dar-lhe uma nova casa. Uma casa linguística. Sem dúvida que traduzir faz parte de um processo criativo que complementa a escrita”, considerou Sara F. Costa.

O poema “Pátria ou sonhar em ser um cavalo” de Hai Zi termina com as palavras “vou certamente falhar, mas o poema vai vencer”, ou seja, o ser humano pode sempre falhar, mas a palavra vai sempre vencer porque é imortal. “A palavra é imortal. O contributo da arte em geral e da literatura em particular é o de ditar espaços de liberdade absoluta. Por vezes, o indivíduo pode não ter liberdade, mas a sua arte vai transcendê-lo e não há nenhum sistema de opressão que possa sufocar a essência da arte”, admitiu a escritora, concordando que a imortalidade das palavras é o sonho de todos os escritores depois de questionada pelo nosso jornal. “Um escritor ambicioso vai querer deixar o seu contributo, a sua marca, vai querer criar a sua pequena revolução. Nesse sentido, acredito que o sonho de um escritor é ser lembrado por esse sentido visionário e inovador que, preferencialmente, será uma influência para as gerações futuras”.

Escritora continua sem saber quando poderá voltar para Pequim

Entre os vários projetos literários que poderá levar a cabo ao longo deste ano está o dar seguimento à poesia traduzida. Uma das poetisas da antologia, Zuo Fei, já lhe lançou o repto de traduzir “a novíssima poesia chinesa”. Aliás, Sara F. Costa tinha a intenção de traduzir apenas os novos, mas Zuo Fei achava que deveria traduzir primeiro os pós-revolução e só depois passar para os mais novos. “Agora diz que me vai apresentar uma lista de jovens autores. Talvez haja seguimento se se proporcionar”, deixou em aberto.

Para além destes projetos literários, Sara F. Costa tem “um novo projeto muito especial”, o seu filho que nasceu em janeiro deste ano em Portugal, o que a leva a assumir que não sabe “até que ponto” vai “conseguir conciliar tantos projetos tão interessantes”.

Desde então que a escritora está com o filho na Vila de Cucujães uma vez que continua a ser uma incógnita quando é que poderá voltar para junto do marido e para o seu trabalho que estão em Pequim. “Todos os dias acordo na esperança de vir a saber a resposta a essa pergunta. Tenho lá o meu marido e o meu trabalho. Só regressarei quando a China voltar a permitir a entrada de estrangeiros no país”.

“Ficar subitamente sem liberdade de circulação veio lembrar-me que nenhum direito é adquirido”

Apesar de a cultura ser uma das áreas mais afetadas pela pandemia, a nível profissional, a escritora não sentiu muito impacto. “Nunca recebi nenhum tipo de apoio para escrever ou produzir cultura. Obtive prémios literários, terão sido esses os meus maiores apoios. Os prémios literários continuam a existir, por isso, nesse sentido, a nível profissional não posso dizer que haja um grande impacto”.

As expectativas para este ano, que ficará marcado pelo facto de vivermos com condicionalismos, é “uma pergunta difícil” que nos leva a uma outra “como ler o mundo pós-pandemia? Não sei”, assumiu. “A China impôs grandes restrições, deu ares do seu estado musculado que já todos conhecemos. Eventualmente terá controlado a disseminação do vírus. É o que desejo”. Já a nível pessoal “ficar subitamente sem liberdade de circulação, que parecia ser uma banalidade na minha vida, veio lembrar-me que nenhum direito é adquirido. Não sei se vai ficar tudo bem, como gostaria de poder afirmar”, mas “sei que vai ser difícil em todo o mundo e espero que consigamos enfrentar esta tragédia com muita coragem”, concluiu Sara F. Costa ao labor.

 

DR

A escritora Sara F. Costa tem 32 anos, é natural da Vila de Cucujães e reside em Pequim, China.

Já publicou seis livros e venceu vários prémios literários. Entre os quais, por três vezes, o Prémio Literário João da Silva Correia, promovido pelo Município de S. João da Madeira, e o Prémio Literário Internacional Glória de Sant´Anna para melhor obra de poesia publicada em países de língua portuguesa em 2018.

A próxima apresentação de “Poética Não Oficial, Poesia Contemporânea Chinesa” vai realizar-se no dia 25 de junho, pelas 18h00, na Livraria Almedina em Lisboa.

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