E quase tudo o tempo levou

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O tempo arrefeceu e estava nublado. Levantou-se o vento e o passeio à beira rio encurtou-se apesar da beleza dos barquitos, dançando sobre as águas agitadas da foz, e do colorido da Ribeira, estampado nas fachadas do casario onde baloiçam as roupas a secar.

A Afurada foi sempre recordação familiar, desde a nossa infância, ligada a traineiras e estaleiros. Soares de Almeida, sobrenome de nossa mãe, ainda hoje se mantém vivo em pessoas, bens e ruínas, casas bem tratadas ou restos de pedras que foram alicerces de gente ligada à pesca e ao comércio.

Depois de comermos umas sardinhas assadas no Café Vapor, já gordinhas e suculentas, percorremos a beira-rio até bem longe. À frente dos nossos olhos erguia-se o imponente palacete do Marques Gomes, no alto da colina em cuja base fica o bem conhecido cabedelo. Nome tão familiar nas memórias da nossa mãe, pois não têm conta as vezes em que a ouvimos falar da paixão da prima Laurindinha por alguém dessa família e da serenata que lhe fizeram frente a um dos torreões da Quinta dos Três Castelos, em Coimbrões, rica mansão de seu pai, Bernardo Soares de Almeida, tio de Aurora, nossa mãe, e amigo de Marques Gomes. Nunca se esqueceu dos versos aí cantados, dos foguetes da festa de S. João que iluminavam a noite escura e as faziam tremer de medo de que o tio Bernardo viesse a descobrir esses fortuitos e proibidos encontros.

Posteriormente, nascera uma grande rivalidade entre estes dois ricos e importantes senhores da Vila Nova, Bernardo Soares de Almeida e Marques Gomes. Tinham sido grandes amigos, mas desconhecemos a razão da inimizade que se criou, não sendo difícil adivinhá-la como decorrente dos negócios, ambos ligados ao comércio, ou das políticas entre monárquicos e republicanos. Fosse qual fosse o motivo, amores entre filhos eram impossíveis, tal qual o amor entre Romeu e Julieta, fustigado por Montéquios e Capuletos.

Tantas vezes por ali passeámos com nossa mãe, que em lágrimas olhava ao longe o palacete de Marques Gomes em total ruína, reduzido a um esqueleto fantasma.

Hoje, está a ser reconstruído, e a enorme quinta de milhares de hectares, bem visível da margem direita do Douro, frente à Afurada, está a dar origem a um luxuoso condomínio residencial de modernas e aprazíveis vivendas.

Marques Gomes era um self-made-man que nasceu pobre. Com a ajuda de uma benemérita e de muito esforço, trabalhou até enriquecer. Emigrou para o Brasil, partindo do nada e fez em Belém do Pará grande fortuna. Um dos muitos “torna-viagem” que no seu país construíram grandes casas e belas quintas. Gente pobre, sem nome, sem história, construindo a sua história e a sua memória com os calos das próprias mãos.

O palacete foi erigido no meio da enorme Quinta do Montado no Canidelo, rodeado de árvores frondosas, algumas vindas do Brasil, que lhe emprestavam um ar misterioso. O famoso arquiteto António Correia da Silva, também ele autor do Edifício da Câmara do Porto, quis dar-lhe a imponência de um castelo, aparência de um “château”, talvez levado pela influência dos seus estudos na École des Beaux Arts “ em Paris. O local é magnífico, debruçado sobre a Foz do Douro, dominando o Atlântico, criando assim distanciamento, poder, imponência, mistério. Marques Gomes era a figura maior do Canidelo, não só por ser capitalista de sucesso mas também pelas obras humanitárias e de benemerência que dizem ter feito, como convém, aliás, a todos os ricos, para que o seu nome permaneça na lembrança dos mortais.

Saudosos das recordações de nossa mãe, eu e o meu irmão, quisemos revisitar o local da outra quinta, a Quinta dos Três Castelos, mais acima, onde ela passou uma boa parte da sua vida. Estávamos convencidos de que já nada restava, pois há muitos anos, quando por lá passámos, estava praticamente tudo demolido. Para grande surpresa nossa, deparámos ainda com muitos restos, raízes e resquícios do passado.

Revimos neles, com ternura, as palavras de nossa mãe e as suas emoções. Aquela visão levou-nos muito longe no tempo, ao distante passado dela e ao nosso próprio passado. Assim se misturavam os tempos numa espécie de rio de águas paradas, onde apenas a saudade emergia em cada pedra que mais não era do que uma palavra de nossa mãe. Lá restam ainda os três castelos, em frente à linha férrea, agora electrificada. Ali, minha mãe, a Aurora Adormecida do livro que sobre a sua vida escrevi, vivera ela depois da perda de toda a família, vítima da pneumónica, os melhores tempos da vida, ali alimentara os mais belos sonhos, juntamente com a prima, vendo passar o comboio, o cavalo de ferro ou o pássaro sem asas, que lhes levava a imaginação para bem mais longe do que aquelas muralhas acasteladas. A meio da quinta, nesta altura, numa mata selvagem por desbravar, ainda se consegue ver parte do lago e do repuxo já sem o menino a deitar água pela boca, o cata-vento de ferro sem o galo e mais um pequeno torreão derreado, deixando vislumbrar os restos da escadaria que dava para um depósito de elevação de água, grande inovação e luxo daquele tempo, a que só os ricos tinham acesso. Da casa mãe nada resta. O local está agora ocupado por um quartel de bombeiros que se estende pelo espaço da outra quinta, a da Lavoura, que pertencia também aos mesmos donos. Apenas o portão com belo gradeamento de ferro ainda lá se encontra, de pé.

Contava minha mãe que iam enfeitar o jazigo todas as semanas. Saíam de uma quinta, atravessavam a outra até ao cemitério de Santa Marinha. Dizem que ainda lá se encontra esse jazigo de arquitectura majestosa e singular, também ele construído ao gosto romântico.

Sempre me pareceu muito estranha esta ligação do romantismo à morte, mas a vida tem coisas que não entendemos. Como dizia Rilke, na sua melancolia modernista e romântica:

“…melhor é imaginar se vemos uma rosa que o nada em que se convertera pode ser agora ali, contraditoriamente, para nosso consolo, um sono, ainda que o sono de ninguém sob aquelas múltiplas pálpebras.”

Eva Cruz

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