Entre as mais de 20 obras da sua autoria publicadas, consta a mais recente monografia do concelho, “São João da Madeira – Cidade do Trabalho” (1996)

Faleceu no passado dia 25 de junho, aos 93 anos de idade, vítima de doença, Maurício Antonino Fernandes, conhecido professor de Filosofia, História e Português, que durante anos exerceu funções em S. João da Madeira (SJM), inclusive no Colégio Castilho e, depois, no Liceu. Acaba de “partir” um “homem com ‘H’ muito grande”, como disse um dos seus alunos sanjoanenses com quem o labor falou.

Natural de Felgueiras, o professor Maurício Fernandes viveu quase toda a sua vida entre Oliveira de Azeméis – onde também deu aulas, no Colégio e na Escola Industrial e Comercial, assim como casou e residiu durante mais de seis décadas – e SJM. Aliás, foi na cidade oliveirense que, em janeiro de 2019, nos abriu as portas da sua casa e nos mostrou a sua biblioteca particular onde guardava religiosamente cerca de 20 mil obras literárias. Na altura, encontrava-se a fazer a monografia da Vila de Cesar e, ainda nesse ano, queria publicar, em regime de edição de autor, o testamento de Cristóvão Alão de Morais, “grande vulto” de S. João da Madeira que viveu no século XVII (1632-1693).

Entre os mais de 20 livros da sua autoria publicados, consta a mais recente monografia do concelho “São João da Madeira – Cidade do Trabalho” (1996), que viria a aprofundar e complementar a primeira “publicada em 1944, com base num trabalho escolar, organizado em 1939 por três jovens estudantes”. O convite surgiu da câmara, na ocasião presidida por José Pinho.

Mas já antes, nos anos 60, também em S. João da Madeira, o investigador de História e genealogista foi responsável pelo trabalho de inventariação e catalogação dos livros legados à Biblioteca Municipal (BM) por José Moreira, de Nogueira do Cravo, emigrado no Brasil, referindo no seu relatório a existência de “…obras de grande valor patrimonial e inúmeras edições príncipes…”, ou seja, primeiras edições, sendo algumas delas raras. Aliás, a mesma BM tem à disposição dos seus leitores não só a monografia, como também outras obras do professor felgueirense.

Além de docente, Maurício Fernandes foi diretor da Casa-Museu Regional de Oliveira de Azeméis (1984-1996), assessor do Pelouro da Cultura do Município de Oliveira de Azeméis (1982-1996) e fundador da Associação a Defesa e Conhecimento do Património Cultural Oliveirense e da Verª UL-VÁRIA. Era ainda sócio da Associação Portuguesa de Genealogia, da Academia Internacional de Généalogie, da ASBRAP – Associação Brasileira de Pesquisadores de História e Genealogia, etc., e autor de várias obras e edições.

Escreveu “Felgueiras de ontem e de hoje” (1989), “Pombeiro e o seu fundador” (1991), “S. Nicolau da Feira – Tombo” (1995), “A Comenda de Oliveira de Azeméis – Património e Comendadores” (1996), “São João da Madeira – Cidade do Trabalho” (1996), “Património Heráldico Oliveirense” (1996), “Esteves Rebelo de Amarante” (1999), “Os Magalhães de Heitor de Magalhães” (2000), “Matrículas da Mitra de Braga (Ordinandos)” (2002), “Silvas históricos” (2005), “Famílias Genuínas do Porto, os Beliáguas” (2006), “Ribeiros: Morgados de Torrados e de Idães” (2006), “Os Brandões – Origem e varonia (938-1688)” (2007), “S. Pedro de Ossela – Memorandum” (2009), “Carvalhos históricos” (2011), “Família de Mattos” (2012), “Moreiras – Patronos de Tarouquela” (2013) e “Moniz Rebelo”, de Fafe. Além disso, em coautoria, editou “Carvalhos de Basto – 10 vols” (1977-2007), “Fonsecas Coutinhos de Fonte Arcada” (1983), “Macinhata da Seixa” (1985) e “Valentes da Silva” (em publicação).

Quanto a reedições, há a destacar “Nobiliário de Famílias de Portugal (Fel. Gayo) -12 vols” (1989-1990), “Pedatura Lusitana (Alão de Moraes) – 6 vols” (1997/98) e “Gerações de Entre Douro e Minho (M. Sousa da Silva) – 2 vols” (2000). 

O seu funeral realizou-se na última sexta-feira, na Igreja Matriz de Oliveira de Azeméis, tendo, depois, o corpo ido sepultar no cemitério de Pinheiro da Bemposta. O nosso jornal renova os votos de sentidas condolências à família enlutada.

 

“Partiu um Homem de paz”

A opinião é unânime. A cidade, o país e o mundo ficaram mais pobres com o falecimento de Maurício Fernandes, o professor que “marcou” vidas ao ponto de, passadas várias décadas, não haver um antigo aluno que não se lembre dele. Aliás, também ele quando deu a entrevista ao labor, em janeiro do ano passado, recordou os seus alunos com estima e carinho. “Era muito estimado e respeitado pelos meus alunos. Eram respeitadores. Tenho saudades de muitos deles”, disse na ocasião ao nosso jornal.

Filho e neto de sanjoanenses, Benjamim da Silva Bastos, de 68 anos, andou no Colégio Castilho. Aliás, foi o professor Maurício Fernandes que “tomou conta de nós” no passeio de finalistas ao Alentejo e a Lisboa, “para aí em inícios dos anos 70”, nas férias da Páscoa”. “Era mais um igual a nós”, contou ao labor, dando assim a conhecer “um professor que sabia se pôr no lugar dos alunos”.

“Foi um dos professores que me marcou claramente”

DR

Para António Oliveira Moreira “partiu um Homem brilhante, um Homem de paz, que não se aborrecia com ninguém”. Até mesmo quando ele e os colegas resolveram “pôr uma maçã no cano de escape do Volkswagen e ele não conseguia arrancar com o carro [risos]”. António Oliveira Moreira estava no 7º ano e Maurício Fernandes era seu professor.

“Lembro-me muitas vezes dele. Aliás, foi um dos professores que me marcou claramente”, confidenciou o advogado de 65 anos, acrescentando que, para além disso, “era um homem de uma cultura geral vastíssima, com muita vida e paciência”. “Um homem compreensivo, incapaz de levantar a voz, que ouvíamos com uma atenção extrema”, sublinhou ainda.

Maurício Fernandes foi professor de Filosofia e de Latim de António Oliveira Moreira. A última vez que estiveram juntos foi “há cerca de oito anos” num encontro dos antigos alunos do Colégio Castilho e do Liceu de S. João da Madeira.

“Uma pessoa muito transparente”

DR

A professora do 1º ciclo Maria Armanda Beça, de 66 anos, faz parte da lista dos antigos alunos do Colégio Castilho que guardam o docente no coração. Contou ao nosso jornal que, “ainda no ano passado, estive com ele no Furadouro (Ovar), praia onde [Maurício Fernandes] costumava passar férias no mês de agosto”. “Sempre que o via, lembrava-me de uma pessoa franzina, mas de uma simpatia extrema”. Maurício Fernandes foi seu professor de Literatura no 6º ano.

Já de José António da Silva Pinto, foi professor de Português. Este engenheiro de 66 anos também andou no Colégio Castilho. Foi aqui que teve o privilégio de conhecer Maurício Fernandes, na sua opinião, “uma pessoa muito transparente, rigorosa, disciplinada, mas que nos tratava sempre com muita calma e carinho”.

De salientar ainda que também a câmara expressou, na sua página do Facebook, “o seu sentido pesar” pelo falecimento.

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