A sua primeira experiência na Sanjoanense foi em 2017/2018, regressando em 2019/2020 depois de uma época no Avanca. Quando chegou ainda encontrou algum do trabalho que tinha feito na primeira temporada?

Havia uma continuação do trabalho que foi feito, não apenas por mim, mas principalmente pelas pessoas que dirigem o clube e que têm o mesmo pensamento. Penso que todos continuam a fazer um trabalho bastante ambicioso e a tentar retirar o lado recreativo, que existirá sempre na formação e que, obviamente, tem que existir, e pensar um bocado mais além. É preciso acreditar que as pessoas podem ter sucesso na sua vida académica e escolar, mas também podem ter, em simultâneo, sucesso na vida desportiva, não de uma forma recreativa, mas profissional.

Quando um miúdo começa a tocar piano aos 10 anos, não é por recreação, mas para ser o melhor. Porque é que não pode ser assim no andebol? Se as coisas forem bem equilibradas e repartidas há tempo para tudo. Basta olhar para a Seleção Nacional de andebol onde se todos os jogadores, ou praticamente todos, são licenciados. O facto de terem atingido a excelência ao nível desportivo não os impediu de atingir a excelência na vida académica. Parece que há pessoas que ainda têm alguma dificuldade em perceber isso, e notou-se muito este ano nos juniores, onde o treinador teve que ter muita paciência para essas questões.

E a partir de que escalão considera que o desporto deve começar a ser encarado de uma forma mais profissional e menos como atividade recreativa?

Pode ter-se uma mentalidade diferente logo a partir dos infantis. Os jovens vão olhar sempre para a modalidade de uma forma recreativa, mas podemos ter sempre mais um treino, mais tempo de prática ou mais torneios. A própria visão dos pais deve mudar, porque isso não prejudica os miúdos em termos escolares.

“Apesar dos problemas fomos conseguindo atingir a excelência nos resultados”

Mas isso é um trabalho que tem que ser feito pelo clube.

Exatamente, e na Sanjoanense esse trabalho está a ser feito.

Quando regressou à Sanjoanense já conhecia os cantos à casa e pegou num plantel com alguns dos elementos com quem já tinha trabalhado. Foi fácil dar início a um novo projeto?

Foi muito mais fácil porque já conheciam a minha forma de trabalhar e eu também sabia qual a forma de trabalhar das pessoas. Muita da dinâmica que estava implementada e que tinha sido alterada por mim em 2017/2018 já estava incutida e, por isso, não houve grande dificuldade. Basicamente foi um trabalho de continuidade.

Que balanço faz da última época, que acabou interrompida devido à pandemia?

Houve algum desinvestimento e isso repercutiu-se no número de soluções que tínhamos no plantel. Tentamos fazer o melhor possível e todos fizeram um grande esforço nesse sentido, em particular os jogadores. Foi, sem dúvida, um excelente grupo, com um grande carater, atitude e ambição e isso fez toda a diferença. É certo que também tivemos o azar de dois ou três jogadores contraírem lesões bastante longas. Aliás, no último treino antes da primeira jornada o único lateral esquerdo que tínhamos de raiz, que é uma posição fulcral, teve uma entorse e esteve parado cerca de três meses e tivemos de adaptar um jogador para essa posição. Mas apesar dos problemas fomos conseguindo atingir a excelência nos resultados. Foi uma época claramente acima das expetativas. Não pensamos que iríamos atingir a fase final, que era o objetivo, porque estávamos num lote com equipas muito equilibradas.

Refere que o objetivo era a presença na fase final, mas há várias épocas que o clube luta pela subida à 1.ª Divisão. Não viu isso como um objetivo assumido?

Não. Este ano o objetivo era claramente atingir a fase final e contávamos que isso iria ser muito difícil de alcançar. Temos o exemplo do Marienses, o penúltimo classificado, que tinha cinco jogadores profissionais. O nosso objetivo era, claramente, ir à fase final e depois ver o que podia vir daí. Em conversas entre jogadores a Sanjoanense não era um adversário difícil de ultrapassar para se atingir a fase final porque era uma equipa que estava mais fraca e que se debatia com algumas lesões. Aliás, à exceção do guarda-redes João André, que veio do S. Bernardo, os reforços da última época vieram de equipas que ou desceram da 2.ª para a 3.ª Divisão ou estiveram a lutar para não descer.

“Foi uma época claramente acima das expetativas”

Mas apesar das contrariedades o objetivo acabou por ser alcançado com relativa tranquilidade.

Relativa pelos números finais, mas foi alcançado com muita dificuldade. O espaço onde se conquistaram estas vitórias, e não tenho dúvidas que foi aí que fizemos a diferença, foi trabalhar de 2.ª a 6.ª feira com o mesmo rigor, empenho e com uma grande vontade em melhorar. Foi a única forma que conseguimos para estarmos mais bem preparados do que os nossos adversários.

A excelente época não ficou apenas pelo campeonato, mas também na Taça de Portugal, onde estavam nos oitavos de final. Fica algum desânimo por ver todo o trabalho ficar pelo caminho devido ao cancelamento das competições?

Foi bastante triste, sobretudo para quem trabalhou com este grupo, que até hoje foi o que me deu mais gosto e prazer treinar. Trabalhar durante oito meses para depois ficar tudo suspenso não foi a melhor forma de terminar a temporada. Tínhamos todas as condições para fazer uma época inesquecível e foi pena que tenha acabado desta forma abrupta.

O novo plantel está praticamente fechado, tendo sido assegurada a contratação de seis reforços. Os novos elementos trazem a qualidade necessária para o objetivo da próxima época?

Assim esperamos, mas existem vários fatores que podem fazer com que as coisas não corram bem. Iremos fazer o que for possível para que as pessoas se sintam integradas e bem aceites, que é um fator importante para quem chega. Esperamos que tenham a capacidade para se integrar num campeonato diferente, com uma intensidade diferente e que as pessoas se adaptem o mais rapidamente possível para também nos poderem ajudar. Tivemos o cuidado de não mexer muito no plantel, até para podermos dar continuidade ao trabalho que estávamos a desempenhar, mas era necessário colmatar uma lacuna da nossa equipa em relação às outras, pois éramos muito mais frágeis em termos físicos, tanto ao nível da altura como de peso. Estávamos a sentir essa dificuldade e no andebol a componente física é extremamente importante.

“As oportunidades têm que ser conquistadas e é dessa forma que queremos que os atletas da formação olhem para cima”

E esses reforços vêm colmatar essa lacuna?

Foi nesse sentido que preparamos a equipa. Queríamos jogadores com outra altura e outro peso, mas sempre com a preocupação de não mexer muito no plantel da época passada porque é excecional pelas características e capacidade que tem. Existe uma grande harmonia entre os diversos elementos. Além disso, tínhamos um plantel extremamente curto e ao longo da última época foram poucos os treinos em que foi possível trabalhar o jogo sete conta sete porque não tínhamos 14 jogadores para treinar. Contudo, fomos suprindo essas necessidades com jogadores da formação e até chegamos a ter um jogador dos iniciados a treinar connosco porque entendemos que é assim que deve ser e que é necessário premiar os atletas que trabalham. As oportunidades têm que ser conquistadas e é dessa forma que queremos que os atletas da formação olhem para cima. Foi isso que tentamos fazer ao longo da última época, premiando aqueles que mostraram empenho e que olham de uma forma séria, rigorosa e com paixão para o andebol da Sanjoanense.

A direção assumiu como objetivo a subida à 1.ª Divisão. Partilha da mesma visão?

Claro, senão não estaria aqui e agora temos uma excelente oportunidade para o conseguir. O Zé Pedro e o Pedro Coelho têm essa ambição e é pena que todas as pessoas do andebol da Sanjoanense não pensem da mesma forma.

E acredita que a Sanjoanense é um dos candidatos a um dos lugares que dá acesso à subida à 1.ª Divisão?

Somos tão candidatos como o Póvoa ou o Almada. Do meu ponto de vista não há nenhum clube que esteja em condições diferentes. É certo que o Póvoa está a construir um plantel completamente diferente, que lhe dá outro tipo de garantias, mas ainda não sabemos o valor da equipa do Almada. Pode apresentar dois ou três jogadores que façam a diferença. Se a liguilha fosse realizada tendo por base esta época, apesar de todas as dificuldades, admito que tínhamos boas possibilidades de passar, nestas circunstâncias são todos candidatos. Outra situação é o facto de se realizar apenas um jogo e, às vezes, um dia mau pode fazer toda a diferença.

“As modalidades de pavilhão permitiram que fossem tratadas como amadoras”

Depois de uma paragem tão longa, devido ao cancelamento de todas as provas, como é que vai ser feita a preparação da nova temporada, que arranca logo com a realização da liguilha?

Até final de maio efetuamos um plano de treinos para os jogadores manterem, durante três a quatro vezes por semana, alguma regularidade física. Em julho iremos fazer o mesmo. Os atletas irão trabalhar na preparação da pré-época para no início de agosto arrancarmos, de forma normal, com os treinos presenciais. Também contamos realizar seis a oito jogos de treino para nos adaptarmos ao facto de termos estado tanto tempo parados e para preparar os atletas para essa competição. Face a tudo isso, e porque se trata de um desporto de contacto, é, no entanto, necessário ter os devidos cuidados para prevenir lesões, pelo que o trabalho preparatório dos jogadores é muito importante nesse sentido.

O responsável pelo andebol da Sanjoanense já mostrou o seu desagrado pela realização da liguilha no início da época. Qual a sua opinião sobre isso?

Estamos em consonância. No ano anterior a ter vindo para a Sanjoanense passei por isso. Eramos vistos como o patinho feio, mas portamo-nos bem e acabamos por subir de divisão. Acho que a liguilha realiza-se na pior altura, porque há equipas que vão iniciar a nova época sem saberem onde vão jogar. No caso do andebol isso significa ordenados completamente dispares, as competições também não são iguais e os apoios são totalmente diferentes, porque a visibilidade que uma e outra divisão proporcionam é distinta. Não concordo que não existissem subidas porque houve clubes que se reforçaram para isso, pelo que a liguilha, a ser efetuada, deveria ser no final desta época. As modalidades de pavilhão permitiram que fossem tratadas como amadoras, quando não deveria ser assim. Temos, por exemplo, a Federação Portuguesa de Futebol que teve um critério diferente para o Campeonato de Portugal, em que subiram as duas equipas com mais pontos das quatro séries, enquanto no futsal optou pela realização de uma liguilha. Logo aqui já se vê que as modalidades de pavilhão foram vistas de forma diferente. Nesta altura todas as equipas deviam ter o direito de saber onde vão jogar.

Considera, então, que o desporto, no geral, deveria ter tomado decisões em consonância?

Se calhar esse é que foi o problema. Voleibol, basquetebol, andebol e patinagem tomaram as decisões em comum, quando cada modalidade deveria fazer as opções de acordo com a sua dimensão e especificidade. Se olharmos para o hóquei em patins, basquetebol, voleibol e andebol, as quatro modalidades têm competições com formatos totalmente distintos.

“Nesta altura todas as equipas deviam ter o direito de saber onde vão jogar”

O facto da liguilha se realizar no início da próxima época, com as equipas já definidas para isso, não desvirtua a última temporada?

Obviamente. Desvirtua completamente o campeonato. Isso não devia acontecer, porque quem dirige a nossa modalidade deve olhar com respeito para os clubes. Se queremos que deixem de olhar para o andebol de uma forma amadora, ter outro tipo de comportamento faz com que vejam a modalidade de uma forma mais profissional.

Apesar de ainda não saber em que divisão vai jogar, porque a decisão só será conhecida em setembro, acredita que a próxima época vai ser tranquila?

Espero que sim. O desejo e vontade de todos é que a equipa esteja na 1.ª Divisão. Há essa ambição ao nível diretivo, que, dentro das suas limitações, fez todos os esforços para criar o melhor plantel possível. Também tenho um grupo de trabalho com uma grande capacidade e desejo de colocar a Sanjoanense na 1.ª Divisão. É essa a vontade de todos e estamos confiantes que vai correr tudo bem, e se lá chegarmos estamos conscientes que vai ser uma época de muito trabalho, algum sofrimento e muitas adversidades, mas temos de estar preparados. Acho que temos matéria-prima para sermos uma boa surpresa.

“Acho que temos matéria-prima para sermos uma boa surpresa”

Considerando o melhor cenário, acredita que com o plantel que foi definido a Sanjoanense tem capacidade para se aguentar na 1.ª Divisão?

Sem dúvida. Para além dos reforços, temos um grupo forte constituído por muitos atletas da formação. Acho que é importante criarmos este estímulo e desafio, de termos um plantel com muita gente da casa e mostrar aos mais novos que temos essa capacidade e incutir-lhes que se nós conseguimos eles também conseguem.

A direção refere um plantel com cerca de 50% de atletas proveniente da formação. Essa percentagem dá-vos as garantias necessárias para as exigências de uma 1.ª Divisão?

Não sabemos, mas temos essa visão e essa vontade e é um desafio para nós. É obvio que as pessoas têm que perceber que é com trabalho que conseguimos criar isso, e nós temos confiança para trabalhar desta forma, senão não o faríamos e optávamos por outro caminho, e havia essa possibilidade.

Loading Facebook Comments ...

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here