O Moinho

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Conta a lenda que numa aldeia longínqua, no sopé do monte, onde o sol nasce cedo e cedo se deita, quando os animais falavam, os galos cantavam assim: Aqui passa-se fome, aqui passa-se fome!

Noutro lugar em frente, apesar de mais soalheiro e mais abrigado, onde os animais julgavam haver mais cereais ou ervas para comer, os galos respondiam com uma cantilena que ia dar ao mesmo: Aqui também, aqui também!

Perto havia uma azenha, movida pelas águas do ribeiro que corria no pequeno vale que dividia os dois lugares. O moinho compreendia a lamentação dos galos. Por falta de cereal, não caía, há muito, um grão da moega sobre as mós e debalde elas chiavam a moer em falso: Sempre assim foi, sempre assim foi!

Ora, isto era no tempo em que os animais falavam pelos homens, e os galos têm, ao que parece, menos miolos.

Gosto muito dos moinhos e retenho no ouvido a canção de água e pedra da minha infância mas gostava de escrever na flor da farinha: Isto há-de mudar, isto há-de mudar!

Na flor da farinha do mesmo imaginário, partilhando do mesmo sonho escrevia o poeta:

Se eu soubesse dar às palavras que tenho dentro de mim o cantar deste regato

Se entre as pedras do meu leito saltitassem estas águas que me fizeram criança

Se fosse menino este chão que tenho dentro de mim numa caixinha de esperança

E de sonho fosse o moinho que mói o trigo da ilusão

Não queria outro moinho para a farinha do meu pão

De repente, as velhas mós começaram a rolar e a farinha a cair. Levadas pelo tempo e pelo vento as mãos pequeninas lá voltaram a escrever: Isto há-de mudar, isto há-de mudar!

Eva Cruz

 

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