Esperar sentado

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A entrevista à RTP3 de Pedro Nuno Santos (dia 08 de julho com Vítor Oliveira) causou algum desconforto no meio político.

Fiel à sua ideologia, Pedro Nuno anunciou preferir votar em qualquer outro candidato presidencial, que não Marcelo Rebelo de Sousa, mesmo que essa candidatura não fosse protagonizada por qualquer militante do PS, podendo mesmo votar em candidatos oriundos de outras forças políticas de esquerda. O ministro das Infraestruturas e Habitação seguiu a divergência de outros militantes do PS, que, por sua vez, optaram por incentivar uma candidatura de Ana Gomes às eleições presidenciais, como por exemplo, o antigo eurodeputado Francisco Assis.

Com estas posições plurais, que em nada ofendem, nem beliscam, o mandato do atual Presidente da República, coloca-se a hipótese de se apresentarem a sufrágio várias candidaturas, o que enriquecerá o debate, quebrando a unanimidade em torno do anunciado vencedor, o que permitirá enaltecer o ato eleitoral e o seu resultado.

Obviamente que a entrevista do nosso conterrâneo não se limitou a este assunto. Provavelmente o maior destaque foi o assumir de clivagens com o primeiro-ministro, optando o sanjoanense por virar à esquerda, quando o chefe de governo se decidir pela direção oposta.

Na semana anterior, se bem se recordam, o destaque da comunicação social nacional havia sido as assumidas divergências de Fernando Medina em matéria de saúde pública.

Perante este cenário contestatário de dois destacados militantes do PS, as reações não se fizeram esperar. O próprio presidente do partido, Carlos César, em defesa do primeiro-ministro, anunciou que este estaria com intenções de governar a médio prazo, pelo que, perante a pergunta na entrevista publicada no dia seguinte no jornal Público, em conjunto com a Rádio Renascença, aconselhou aos dois potenciais candidatos a substitutos de António Costa, a esperarem sentados.

A convergência dos partidos de esquerda parlamentar em 2015, apoiando um governo do Partido Socialista, apesar da desconfiança de setores de direita, produziu resultados, que seriam improváveis anos antes.

A 8 de setembro de 2018, a jornalista do jornal Público, São José Almeida, com o seu longo percurso de acompanhamento da atividade do Partido Comunista Português, escrevia ter ficada surpreendida ao assistir às imagens editadas pela RTP, em que um militante do partido indignava-se com o seu secretário-geral pelas conquistas serem apenas sociais-democráticas, o que estaria a provocar criticas e divergências internas.

No mesmo capítulo, se bem se lembram, nas eleições legislativas de 2019, o Bloco de Esquerda apresentou-se como social-democrata.

O arco de poder, estendido a estas duas forças políticas, alterou-lhes a visão ideológica. Para isso, muito contribuíram as horas de negociação lideradas por Pedro Nuno Santos, enquanto secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, até ter assumido o cargo de ministro.

É esta a grande vantagem de ficar sentado nos próximos anos. Pedro Nuno Santos é reconhecido pela esquerda. Qualquer jovem militante dos demais partidos de esquerda sabe quem ele é (o que não é fácil para um ministro de um governo do PS). Todo este capital político poderá aumentar, caso a reestruturação da CP seja bem conseguida e a nacionalização da TAP passe o crivo das críticas, com distinção.

A sua capacidade de resiliência será determinante para o seu futuro político, podendo ter que assumir um percurso alternativo, ao jeito do que aconteceu a António Costa em 2007.

Ficará para sempre a dúvida, se tivesse assumido a autarquia sanjoanense, o negócio da água já estaria com menor volume de taxas cobradas? Certamente beneficiando os demais consumidores, em detrimento do parceiro privado da empresa municipal.

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