“Em que tudo veio por aí abaixo, mas a poeira ainda não assentou”, comparou o padre Álvaro Rocha ao labor

A pandemia veio pôr à prova tudo e mais alguma coisa. Uma delas foi a fé das pessoas. Não só em Deus, mas também nelas próprias. “Não tenho conseguido falar muito com elas, mas percebo que afetou (a sua fé)”, afirmou o padre Álvaro Rocha, confidenciando, honestamente, que a sua não foi abalada, “mas a fé é uma realidade que todos os dias se amadurece” e a pandemia “tem servido para amadurecer muita coisa”. “Isto é como um terramoto em que tudo veio por aí abaixo, mas a poeira ainda não assentou”, comparou o padre do concelho sanjoanense ao labor.

De todas a decisões que teve de tomar a mais difícil terá sido a de fechar a igreja, “uma decisão que assumi(mos) em função de um bem maior: a saúde das pessoas”, mas não só. Foi “muito duro” cancelar as atividades que estavam a ser desenvolvidas, adiar projetos programados e não viver as festividades religiosas nos moldes tradicionais como a Páscoa. E aqui como em outras missões da paróquia as novas tecnologias derrubaram, dentro do possível, a barreira do distanciamento físico e do contacto pessoal entre as pessoas, exceto nos casos do Conselho Pastoral e da Fábrica da Igreja porque como são estruturas fundamentais para a paróquia continuaram a reunir-se. A

catequese, a festa da família, a missa e a angariação de fundos para as obras da Capela de Santo António continuaram a ser desenvolvidas através da internet.

Neste momento, a igreja matriz abre as portas para celebrar as missas com metade da sua capacidade (que é de cerca de 350 pessoas) e muitas das vezes com lotação esgotada, o que tem levado a que seja usado o salão paroquial alternativo, cuja capacidade é semelhante à da igreja, onde é transmitida a missa em direto para os paroquianos.

“Nos primeiros tempos foi muito complicado ver as cadeiras e os bancos vazios, mas também foi aí que senti o que é ser sacerdote: interceder pelo povo onde quer que ele esteja”, considerou Álvaro Rocha, recordando momentos em que “chegava a olhar para determinados lugares da igreja e a ´ver´ que aquele lugar era onde normalmente ficava este senhor ou aquela senhora”.

Para piorar toda esta situação, os funerais passaram a ser feitos com um número limitado de pessoas, impedindo a despedida de todos quantos o quisessem fazer da pessoa falecida. “Foi muito doloroso ver famílias inteiras marcadas pelo sofrimento de ver partir os seus familiares sem lhes poderem fazer um funeral digno”, confessou Álvaro Rocha, partilhando que chegou “a derramar lágrimas ao ver filhos que não puderam juntar-se para sepultar o pai e a mãe” e ainda hoje dá consigo “a terminar os funerais a deixar como última palavra ´força´ porque é dilacerante”.

O maior impacto da pandemia foi “na relação de proximidade” entre padre e paroquianos

Apesar de nunca ter ficado sem trabalho, muito pelo contrário, em alguns aspetos até aumentou, “houve necessidade de procurar novas estratégias para ir até aos paroquianos”, assumiu Álvaro Rocha, admitindo que desde o dia 12 de março não teve “um único dia de descanso” e já não sabe “o que é um dia livre”.

O dia a dia de um padre passa pelo contacto direto com os paroquianos e o facto de não ter podido desenvolver presencialmente a sua missão afetou “profundamente” a “eficácia da nossa presença e da ação pastoral”. Por isso, o maior impacto da pandemia foi “na relação de proximidade” que o padre procura desenvolver com os paroquianos, revelou o próprio, relembrando que durante dois meses e meio deixou de estar com os paroquianos, exceto com aqueles com quem conseguiu conversar através da internet. A catequese virtual em substituição da presencial levou ao desvanescimento do contacto que mantinha com os mais de 900 crianças e jovens, deixou de receber famílias a pedir batismos e ainda não teve nenhum casamento em 2020.

Ao longo destes últimos meses, “senti muito a ausência física das pessoas” porque “gosto de estar com elas”.  “Em muitos dias era o telefone que me aproximava e também recebia muitos telefonemas a perguntar como estava. Senti os paroquianos preocupados comigo. Mas como, no geral, sou positivo, acreditei e acredito que venceremos”.

Desta provação pela qual estamos a passar, “podemos refletir e retirar desta experiência tanta coisa” como “a experiência alargada da fragilidade e do sofrimento; a necessidade de aprendermos a cuidar uns dos outros; a valorização da riqueza de cada pessoa; o quanto precisamos dos outros; o que é fazer sacrifício pelo bem dos outros; como viver a fé nestas circunstâncias; o desafio a refazer os laços da comunidade em todos os seus desafios;e, sobretudo, como é preciosa e útil a comunhão na dor e à distância”, concluiu o padre Álvaro Rocha ao labor.

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