Na época passada a secção de hóquei em patins apostou na criação da equipa de sub23. Como é que surgiu este projeto?

Acho que pode dizer-se que foi o culminar de um projeto de 10 anos implementado pelo Vítor Pereira, e ao qual também estive ligado, que tinha como objetivo segurar os atletas do clube. Como não tínhamos escalão para que os atletas pudessem dar continuidade à sua progressão decidiu-se criar a equipa de sub23 com o objetivo de manter estas pedras importantes na Sanjoanense, porque temos ali bons elementos e o clube tem de viver da sua formação. Basicamente foi uma forma que encontramos para que os miúdos continuarem o seu trabalho, porque são atletas que têm pernas para andar.

Foi, então, uma equipa em que toda a sua base foi proveniente da formação alvinegra.

Sim, o plantel foi criado com base nos elementos oriundos da formação, tendo-se registado apenas o regresso do Bernardo Santos, um atleta que estava no Académico da Feira. Além disso, como a equipa sénior tinha dois elementos a mais, que não eram convocados para os jogos, os que ainda tinham idade para o fazer podiam vir colmatar algumas ausências dos sub23. Era uma forma de rodarem a ajudava a que não estivessem parados. Aliás, com uma equipa principal com um plantel de 12 jogadores, ter onde possam rodar foi sempre uma das nossas preocupações. A equipa de sub23 também foi criada tendo isso como base, para que tivéssemos sempre essa sustentabilidade.

“Estávamos numa fase de vitórias e a fazer uma boa época”

Pode-se considerar que o escalão de sub23 foi o culminar do projeto iniciado há 10 anos?

Acho que sim, mas temos de ter noção que estamos sempre a evoluir. Quando o projeto foi implementado tínhamos equipas muito fortes e o nosso objetivo foi salvaguardar isso, criando um modelo de jogo que achávamos que seria viável e que parece ter resultado, porque depois destes anos todos estamos a colher os frutos do que semeamos.

Quando se iniciou a época havia algum objetivo definido?

O nosso objetivo é querer sempre mais e com os dois elementos que podíamos ir buscar à equipa sénior porque não lutar pelo título nacional? Tudo era possível porque tínhamos um bom plantel e várias peças que nos ajudavam a colmatar algumas ineficiências. Jogo a jogo, semana a semana, trabalhávamos para esse objetivo e sendo este o primeiro ano do campeonato de sub23 queríamos ser campeões e ficar na história do escalão.

E quando a época foi interrompida devido à pandemia sentia que a equipa estava no caminho para esse objetivo?

Sim. Estávamos numa fase de vitórias e a fazer uma boa época. Estávamos em primeiro lugar e pensávamos em algo mais, mas jogo a jogo, passo a passo, sempre com os pés bem assentes na terra. As coisas estavam bem encaminhadas, os processos bem delineados e os atletas entendiam a nossa filosofia e o que pretendíamos. Estávamos a trabalhar muito bem, mas, entretanto, surgiu a pandemia que veio interromper uma fase muito boa que a equipa estava a passar.

“Podemos perder, mas vamos lutar até ao fim”

E foi fácil transmitir essa filosofia a um grupo de miúdos que chegavam a um escalão que se pretendia que fizesse a transição para os seniores?

Claro. Acho que isso faz parte da mentalidade sanjoanense, que tem um espírito ganhador. Em tudo o que entramos é para vencer, independentemente de virmos, ou não, a alcançar esse objetivo. Temos de lutar para isso, e ninguém nos pode acusar ou apontar o dedo de não termos dado tudo dentro de campo. Podemos perder, mas vamos lutar até ao fim. É esse o espírito sanjoanense e os atletas já vêm com essa mentalidade, porque é isso que lhes tentamos incutir ao longo da formação.

Recentemente o Vítor Pereira, treinador da equipa sénior, referiu que o escalão de sub23 era mais um prolongar dos juniores do que propriamente antecipar os seniores. Foi isso que também sentiu?

Foi um bocado isso. Quando decidimos entrar no campeonato de sub23 contávamos que fosse existir competitividade, mas não foi isso que aconteceu e acabamos por ver alguma desmotivação nos nossos atletas e não é isso que queremos que eles sintam ao longo de uma época.

O que acha que falhou para o campeonato de sub23 não corresponder às expetativas?

Quando se vê equipas com um plantel desproporcional, pouca motivação e muitas sem um fio de jogo delineado acaba por haver desmotivação. A Sanjoanense é um clube grande e nos últimos anos fomos habituados a estar lá em cima e atualmente a nossa formação é muito forte e é vista com outros olhos. Todos nos querem ganhar e para nós isso é um estímulo, porque incute nos atletas responsabilidade e espírito ganhador. Obriga-nos a ser mais fortes. Foi isso que faltou no campeonato de sub23. É certo que haviam equipas com qualidade e muito fortes, mas é preciso alguma consistência e isso não existia. Não estou a criticar o campeonato, as equipas ou o seu funcionamento, mas as exigências que queríamos não estavam presentes. Nós queremos sempre mais e foi por isso que este ano decidimos abdicar do escalão de sub23, apesar dos atletas ainda terem idade para lá estarem, e criar a equipa B.

“Uma equipa B vai permitir que os atletas ganhem outra maturidade”

A época que terminou foi o ano zero dos sub23. Quando o campeonato começar a ganhar consistência e qualidade acha que a Sanjoanense deve apostar num regresso, independentemente de ter equipa B?

Sendo que é uma fase de transição de juniores, eu apostaria sempre numa equipa B em detrimento dos sub23. Uma equipa B vai permitir que os atletas ganhem outra maturidade. A própria competitividade é totalmente diferente. Nos sub23 misturam-se atletas de vários escalões, como os sub17 ou sub19, para colmatar algumas falhas, e isso cria uma diferença muito grande em termos competitivos. Na Sanjoanense tínhamos, por exemplo, atletas que jogavam numa 1.ª Divisão, quando eram chamados à equipa principal, e nos sub23 defrontavam adversários de vários escalões abaixo. Isso é desmotivante para quem está a competir e tem uma filosofia como a nossa.

É desmotivante só para os atletas ou também para o treinador?

Para mim, como treinador, não é desmotivante porque tenho sempre um objetivo traçado. A minha função é conseguir motivar e estimular os jogadores para encarar o jogo sempre da mesma forma, independentemente dos adversários que temos pela frente. Nós nunca podemos desmotivar e atirar a toalha ao chão. Temos de estar sempre focados e criar formas de dar a volta às dificuldades e adversidades. Essa é uma das funções do treinador.

Um ano depois a seção abandonou o escalão de sub23 e decidiu apostar na equipa B. Como surge esta decisão?

O escalão de sub23 foi uma experiência que tivemos, mas achamos que faltava algo. A Sanjoanense é um clube ambicioso e nós queríamos algo mais forte e que nos desse mais experiência e maturidade para que um dia, se os atletas forem chamados à equipa principal, o impacto que existe entre escalões e a diferença competitiva não seja tão notória porque já estão habituados à pressão. Se o clube quer viver dos seus escalões de formação nada melhor do que criar uma equipa B que sirva de transição ao escalão de juniores. Ao contrário do escalão de sub23, uma equipa B a competir na 3.ª Divisão vai permitir que os atletas cresçam mais porque vão encontrar adversários de muita qualidade. Atualmente, há equipas muito bem montadas e estruturadas na 3.ª Divisão e se nós procuramos mais competitividade, até para os nossos jogadores começarem a encarar a competição de outra forma, acho que este era o passo natural. Se trabalharmos bem, se soubermos o que queremos e formos exímios no que fazemos, acredito que vamos causar mossa na 3.ª Divisão. Não estamos a pedir que os atletas sejam os melhores do mundo, mas que sejam exigentes naquilo que fazem.

“Temos de estar sempre focados e criar formas de dar a volta às dificuldades e adversidades”

Então quais são os objetivos para a primeira época da equipa B?

Queremos que cresça, que amadureça e que sinta as dificuldades de uma competição do nível da 3.ª Divisão para que possa evoluir. A próxima época vai ser uma experiência nova, que vai contribuir para aumentar a nossa qualidade como equipa e dos atletas em termos individuais. Vai fazer com que os jogadores amadureçam, algo que é muito importante para a sua evolução e que pode ser fundamental para ultrapassar algumas barreiras e ajudá-los na adaptação quando chegarem à equipa principal. Eu vivi essas experiências enquanto jogador e tenho noção das diferenças e dificuldades pelas quais os atletas podem passar. A responsabilidade é enorme e quando estamos dentro de campo temos de dar tudo.

Não há, então, um objetivo desportivo traçado?

Neste momento não. Podemos começar a definir e a pensar em metas daqui a três ou quatro anos, quando os atletas já tiverem outra maturidade e experiência competitiva. Será o primeiro ano desta equipa na 3.ª Divisão e esperamos ter muitas alegrias, mas também estamos conscientes que vamos deparar-nos com diversas dificuldades e os atletas terão de ser fortes e ter capacidade para ultrapassar isso. Vai ser uma experiência nova num campeonato muito mais exigente e sabemos que não vamos ganhar tanto como estamos habituados, mas vamos trabalhar para que isso seja possível.

Isso não vai ser desmotivante para a equipa, que vem de uma competição em que era uma referência e que agora, provavelmente, não vai conseguir ter o mesmo nível na 3.ª Divisão?

Não. Acho que essa diferença que os atletas vão sentir vai obrigar a que tenham mais responsabilidade. Aliás, os jogadores estão mais satisfeitos por fazer parte de uma equipa B do que dar continuidade ao escalão de sub23. É uma fase nova que vão passar, mas para a qual estão extremamente motivados e ansiosos por demonstrarem o seu valor. Isso nunca é desmotivante. É óbvio que vamos encontrar pela frente equipas matreiras, com anos de hóquei em patins, mas os atletas estão focados no objetivo. Até podemos perder, mas vamos demonstrar dentro de campo que também somos capazes de vencer e quem nos defrontar vai ter de suar muito.

“Acredito que vamos causar mossa na 3.ª Divisão”

O clube apostou na equipa B mas optou por manter o mesmo plantel do escalão de sub23.

Temos um plantel 100% Sanjoanense. Tivemos algumas saídas, mas fomos buscar quatro atletas à equipa de sub19 para se juntarem aos elementos que transitaram dos sub23. É óbvio que todo o treinador quer um reforço ou outro, desde que isso faça a diferença, mas face à qualidade que temos no nosso plantel não temos necessidade de ir buscar ninguém.

Considera que a Sanjoanense deve, mais tarde ou mais cedo, ambicionar chegar à 2.ª Divisão com a equipa B?

Vamos começar na 3.ª Divisão, mas acho que daqui a dois ou três anos o nosso foco deve ser outro e, com certeza, vamos querer mais. Não podemos parar e se tivermos que subir de divisão porque não? É obvio que uma decisão dessas tem outros custos e responsabilidades, mas é uma situação que, na devida altura, tem que ser analisada e ponderada. Contudo, penso que, mais tarde ou mais cedo, o objetivo para esta equipa vai passar por aí e se nós temos qualidade e capacidade para isso porque não pensar nessa possibilidade e lutar por uma subida à 2.ª Divisão?

O hóquei em patins sanjoanense tem ficado conhecido pelo apoio da massa adepta e da claque Força Negra à equipa principal. Está confiante que será igual com o plantel B?

Acredito que sim. S. João da Madeira respira hóquei em patins e uma nova equipa vai trazer outra competitividade e objetivos. Face à qualidade que temos, acredito que os adeptos vão ter gosto e prazer em assistir aos nossos jogos e de verem os nossos jovens baterem-se com adversários fortes e que lutam pela subida de divisão.

O Franklin Silva é um homem da casa. Primeiro como atleta e depois como treinador, tendo já passado pelos escalões de formação, assumindo agora uma equipa sénior. Tem como objetivo, um dia, treinar uma equipa principal?

Quem sabe daqui a uns anos, se surgir a oportunidade. É obvio que nós, treinadores, queremos sempre mais e todos sonham chegar a uma equipa de topo e fazer algo e eu não sou exceção. Porque não daqui a alguns anos, se calhar começar num outro lado com novas ideias.

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