“No estado de emergência só numa noite cheguei a fazer 400 quilómetros”, disse Sérgio Cruz ao labor. Durante a fase mais crítica da pandemia, contrariamente à maioria dos colegas da Praça de Táxis de S. João da Madeira, à qual pertence há 22 anos, este motorista de táxi nunca deixou de trabalhar, daí ter visto o número de serviços a aumentar.

Houve alturas em que, “entre dia e noite, cheguei a ter para aí uns 40 serviços”, afirmou, acrescentando que também “trabalhei muito mais de madrugada”. Este taxista sanjoanense de 45 anos contou à nossa reportagem que, de dia, levou pessoas, sobretudo idosas, aos bancos, CTT, centros de saúde, entre outros locais.

Ser taxista é mesmo assim: faz-se de tudo um pouco, desde levar o cliente aonde ele quer ir até ser seu “confidente” ou “psicólogo”. “Tenho clientes de há 22 anos, desde que vim para aqui [para a Praça de Táxis] que ficaram todos estes anos comigo, porque não têm carro ou porque tiveram algum problema e agora não conseguem conduzir”, referiu, recordando ainda os que já faleceram. Neste momento, tem cerca de 300 clientes “de quase todas as idades”, a maioria de S. João da Madeira. E garantiu que “teria muito mais, se fiasse”, o que não acontece.

Motorista de táxi trabalhou sempre… e “sem medo”

Sérgio Cruz encara a Covid-19 com naturalidade, como mais uma doença infectocontagiosa, que se vem juntar a outras com que teve de lidar ao longo destas duas décadas de profissão. Sem ter tido formação e dispondo apenas da informação que foi recolhendo por iniciativa própria, continuou a trabalhar, respeitando as orientações da Direção-Geral da Saúde, como é óbvio. Mas “sem medo”. Sim, porque, como admitiu,“só devemos sentir receio quando nos apontam uma faca, uma arma ou um taco de basebol”. E, mesmo assim, “em momentos de tensão como estes, opto pela via do diálogo e não do confronto”.

Por isso é que, em vez de herói, prefere ser considerado “uma pessoa que gosta de trabalhar todos os dias”. Sérgio Cruz confidenciou ao labor que gosta mesmo do que faz há mais de 20 anos.

Apoio dos pais e da companheira tem sido fundamental

Antes de ser taxista, foi serralheiro metalomecânico durante 11 anos. Entretanto, também foi cortador de calçado e, depois, motorista de pesados. Mas é ao volante de um táxi que se sente realizado. Se bem que, conforme anteviu, não se vai ficar por aqui: “O balanço é positivo”, mas “vejo-me nesta vida para aí só mais uns 10 anos”. Ser massagista, naturopata ou algo do género é coisa que faz parte dos seus planos profissionais.

Sérgio Cruz tem uma companheira há oito anos, cuja compreensão tem sido fundamental para manterem um bom relacionamento. “Sabe como é, somos quase como os médicos, enfermeiros ou bombeiros [em termos de disponibilidade para a profissão], mas os meus pais são magníficos e a minha companheira também”.

“Durante estes 22 anos, fez serviços durante o dia e também à noite. Normalmente, fazia 24 sobre 24 horas e descansava quando podia”, relatou, completando: “Hoje, durante a semana, já não faço isso, a não ser que seja um serviço que já tenha sido requisitado. E às sextas e sábados continuo a trabalhar”. Aliás, como adiantou ao nosso semanário,“já cheguei a fazer 137 mil quilómetros por ano. Hoje em dia, se calhar, faço 80 mil, por todo o país”.

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