Página em branco

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Ao exercício semanal de escrever uma crónica ponderei algumas vezes seguir João César Monteiro, modificando a cor das letras em certas sílabas ou palavras por inteiro, colocando-as a branco, assim com letras a branco. Ou seguir a tendência de James Joyce e introduzir sonoridade monocórdica em algumas palavras, esticar com brrrrrio. Já para não referir o estilo português sem pontuação de José Saramago ou as palavras interrompidas a mei

com uma frase inteira, esta pequena para exemplificar

o, utilizada por António Lobo Antunes.

– O que é para ti uma página em branco?

Simplesmente respondi, um desafio. Esquecendo os estilos, as sílabas quer ocultas, quer esticadas, ou interrompidas, ou outra manifestação pontual, para atingir o número de carateres necessários para a edição.

Foram anos desafiantes, com superação das minhas lacunas na escrita, contadas as horas passadas em frente ao teclado à espera da inspiração. Para iniciar um texto, para avançar no conteúdo, ou mesmo para rematar uma crónica.

As primeiras impressões vinham dos meus pais. Nem imaginam a emoção que lhes provoquei ao escrever sobre as suas origens, as suas casas maternas: fotografias nas paredes de Pombal e as portas e janelas de Gaia.

Eu recatado e numa assembleia geral:

– Começo por procurar a tua crónica e só depois leio o resto do jornal.

Eu desarmado, não esperando a relevância. Sempre sem saber o que responder.

Na zona desportiva municipal, sem no fundo da piscina a minha sombra:

– O rapaz tem um dom.

Em discurso direto e eu atrapalhado, habituado à indiferença dos amigos, à ausência de leitores no meio fabril, à educada

– Costumo ler-te.

Ou o reencontro

– A ti, ainda te vejo no jornal.

Longe da página de necrologia, respondia eu com humor negro.

Sem mais argumentos e com ausência de contraditório.

Não alimentei polémicas, preferi não comentar as respostas dos partidos do espectro político, sobretudo, da esquerda.

Uma colaboração no labor colada pelos anos, a Hora do Ardina referenciou-me na primeira página, repetindo-se a faceta quando assumi a defesa de uma instituição de São João da Madeira. Optei pela cidadania, em detrimento da independência com proximidade partidária.

Seguiu-se o reconhecimento, os amigos não indiferentes, telefonemas agradecendo menção, deixei de escutar

– Costumo ler-te.

Nunca mais ouvi

– A ti, ainda te vejo no jornal.

Ainda a mesma atrapalhação pessoal.

Se voltar à piscina municipal, sem no fundo a minha sombra, vou explicar que escolhi escrever para comunicar com todos, para compensar a ausência, por raramente ir de dia à Praça, ou a qualquer café, nem frequentar a piscina, nem sair à noite na cidade, entre outros hábitos comunitários. Um gesto anacrónico, que foi acolhido por simpatia pelos leitores e que me permitiu estar presente na cidade em que nasci, vivendo afastado. Foi apenas isso, um contributo cívico. Nenhum atributo, Luísa.

O desafio desta semana está terminado. Espero que o leitor referenciado, prossiga na leitura do jornal labor com um sorriso nos lábios.

Assim me despeço destas páginas, agradecendo a todos a atenção dispensada, em especial, aos leitores que com os seus comentários me permitiram ter força para escrever e em particular, à direção e demais elementos da redação, pela paciência demonstrada em me editar.

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