O Voo da garça

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Manhã cedo corre a garça rio acima, picando aqui e ali o peixe miúdo. Lambe tudo, o rio já não tem peixe. Cinzenta como as margens, tisnadas da seca e da aragem dos incêndios, bate as asas ao menor ruído que acorde a paz do rio de águas mansas, quase paradas. Dizem que todos os dias vem da beira-mar, do estuário mais perto, de alguma lagoa ou pequena barrinha. O que levará a garça a procurar tão longe o alimento? A sobrevivência, o sustento do lar, o alimento dos filhos? O rio, esgotado, luta para manter a vida no seu ventre. Na margem, a garça descobre a presa por mais pequena que seja, um alfaiate ou um girino que espreita à tona da água. Engole-o sofregamente. Volta ao rio. Estica o pescoço e vigia-lhe as entranhas. Debaixo de uma pedra ou de algum redemoinho, um peixito distraído, sobrevivente do rio despovoado. A garça rio abaixo, rio acima, não sei se macho se fêmea, cogita na sua condição de emigrante. Todos os dias deixa os filhos. Ali não é sítio de nidificar. Voa até ao rio à procura de outras águas, pelo meio da tarde ruma novamente em direção ao mar. Regressa ao lar através de um céu cinzento. Por baixo das penas cinzentas adivinho-lhe uma alma também cinzenta, neste afã, neste corrupio de lá para cá e de cá para lá. São tudo águas, águas onde tudo se move. A vida é feita deste vaivém de luta pela sobrevivência. Resta-lhe a noite para sonhar com o azul do mar.

É tão humano o voo da garça!

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