A Máscara

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Só de pensar na desilusão ou no nihilismo de Shakespeare e Macbeth “… A vida não é mais do que uma sombra errante, um pobre actor que se pavoneia e se esforça no seu momento sobre o palco, e que depois ninguém mais ouve… uma história contada por um idiota, cheia de som e de fúria significando nada.”

Apetece-me deixar cair a máscara.

Estou cansada deste ritual que me tapa a boca e o nariz e me impede de respirar o ar fresco da manhã e mostrar a cara que a vida me deu. Estou cansada de sentir que não sou eu. Gosto de ser eu, gosto de sorrir e ver o sorriso dos outros. À minha volta todos me parecem iguais, sem expressão, sem rosto, sem dono. A cor pode variar, preta, azul ou branca, mas não deixa de ser … nada.

Protecção, disfarce ou adereço, a máscara esconde a identidade de quem a usa para os fins que entender. A arte também se serve da máscara para de uma forma catártica ou lúdica exprimir melhor os sentimentos do Bem ou do Mal. Na dança, no teatro é um símbolo de disfarce ou de ajuda para reforçar o carácter da personagem. No teatro grego, são conhecidas as máscaras da Tragédia e da Comédia, a primeira com as comissuras labiais e o canto dos olhos virados para baixo, inspirando sentimentos de tristeza, e a da Comédia com as mesmas marcas faciais viradas para cima, provocando o riso e a alegria. Em outros rituais religiosos, civilizacionais, rituais fúnebres, a máscara é mais do que disfarce ou acessório, é símbolo de transfiguração da vida. Como protecção, ficou conhecida na História a Máscara da Peste Negra usada na Idade Média, semelhante a uma cabeça de águia com um bico enorme, contendo mirra e cânfora como desinfectante. Uma máscara horrenda, o medo metendo medo a si próprio.

Nos nossos dias, volvidos tantos séculos, julgando nós que o mundo evoluiu ao ritmo da velocidade da luz, vemo-nos todos no mesmo palco, como sombras errantes, como actores da mesma tragédia ou da mesma tragicomédia. Tira máscara, põe a máscara, numa dança e contradança inspiradas pelo medo ou esquecendo o medo para dar asas à vida que assim se nos vai escapando neste teatro infernal.

O medo está associado ao instinto de sobrevivência e é ele que me tira a coragem. Vou ser amiga do medo e, pelo sim e pelo não, lá tenho eu de pôr a máscara.

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