Pelo menos para os que têm dificuldade em ser apoiados e reconhecidos pelo seu trabalho

 

As críticas foram feitas por Luís Albuquerque antes e depois da exibição do seu mais recente filme sobre o herói lusitano “Viriato”, quinta-feira passada, no auditório dos Paços da Cultura, que assinalou o regresso do projeto de promoção do cinema português Cine S. João, depois do interregno forçado pela pandemia, e a pré-abertura da 18ª edição do Festival de Cinema de Arouca.

As primeiras palavras deste realizador, que faz cinema por prazer, foram para agradecer às câmaras municipais de S. João da Madeira e de Arouca por juntarem num só momento dois eventos que incentivam o cinema português. Enquanto pessoa ligada à área, Luís Albuquerque decidiu falar sobre o que se passa com o cinema português. Pediu por três vezes apoio ao Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA) para fazer um filme de época, “Viriato”, mas viu por três vezes ser-lhe negado. Demorou dois anos a angariar dinheiro e meio ano a rodar o filme. Na primeira missão, a de angariar dinheiro, considera que “falhou redondamente”. Já na segunda, de realização do filme, o sentimento é de “frustração” por não ter conseguido fazer uma batalha do início ao fim. Mas o orçamento de 19.500 euros não permitia mais nem melhor. Se, por um lado, Luís Albuquerque disse sentir-se “extremamente envergonhado” por apresentar um filme desse valor. Por outro, não deixou de demonstrar orgulho nos atores, em especial o protagonista Alexandre Oliveira, na equipa e sobretudo pelo filme estar disponível na plataforma Prime Video Amazon. Por tudo isto, “acho que o filme devia ser mais reconhecido em Portugal”, revelou, o realizador, à plateia.

Luís Albuquerque não poupou nas críticas à comunicação social por só andar atrás dos filmes, dos atores e dos realizadores que ganham prémios, principalmente internacionais; ao ICA por não apoiar o seu filme, mas ir buscar uma parte da receita da bilheteira, depois de terem conseguido um contrato com a NOS que levou “Viriato” a todas as salas de cinema do país; e a altas individualidades como o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e a ministra da Cultura, Graça Fonseca, por não terem arranjado tempo na sua agenda para assistir a um filme sobre um herói real português.

“Está neste campo o cinema português”, por isso “muita coragem aos futuros cineastas” para “este mundo complicado”, confessou Luís Albuquerque.

Pela importância de Viriato na história portuguesa, “nunca pensei ter tantas dificuldades em fazer este filme”

“Nós apoiamos na tristeza de não ser apoiado”, afirmou Clara Reis, presidente da Assembleia Municipal, durante a habitual tertúlia realizada entre pessoas ligadas ao filme e o público, destacando entre as riquezas do filme a banda sonora que é da autoria de uma banda a que está ligado Luís Albuquerque e o reconhecimento dos espaços geográficos portugueses, associados à nossa história, onde foram feitas as filmagens.

O realizador confidenciou que Viriato é o seu herói de criança. “Demos isso na escola. Sempre foi uma personagem fascinante para mim”. Pela importância de Viriato na história portuguesa, “nunca pensei ter tantas dificuldades em fazer este filme” porque “não há muita produção nacional muito menos de época”, admitiu Luís Albuquerque. Da interação com o público destaque ao apoio de que “continuem, por favor. Preciso de vocês”, disse uma das espectadoras cujo filho é ator e conhece bem as fragilidades da cultura.

A existência de público é uma questão de sobrevivência para os artistas

Ao fim de 33 projeções de filmes portugueses, o Cine S. João conquistou “o respeito do público”, afirmou João Rita, um dos fundadores do projeto que resulta de uma parceria com a Câmara Municipal de S. João da Madeira e o Cine Clube de Arouca. Para este, que é também o diretor do Festival de Cinema de Arouca, são importantes a aposta e o apoio dos municípios a estes dois eventos culturais. O Cine Clube de Arouca realiza “um trabalho único” e “a autarquia tem a obrigação de apoiar um projeto que é um exemplo a nível das artes”, assumiu Isabel Bessa, da câmara de Arouca em representação da presidente Maria Belém que não esteve presente por questões de agenda. Da mesma opinião é Jorge Sequeira, presidente da câmara sanjoanense, que tem a seu cargo o pelouro da Cultura. “Investir na cultura é uma obrigação”. “Temos de apoiar a cultura portuguesa” se não queremos ter uma “sociedade condenada ao abismo, ao horror e à ignorância”, frisou Jorge Sequeira, assegurando, em nome do concelho, estar de “braços abertos para continuar a parceria”.

A prova disso está no regresso do Cine S. João e na plateia muito composta por pessoas que tiveram a coragem de sair de casa e de continuar a viver a vida com o respeito pelas regras de segurança impostas no combate à pandemia. E assim terá de continuar a ser porque a existência de público é uma questão de sobrevivência para os artistas.

 

 

Parque Mayer nos Paços da Cultura no dia 1 de outubro

O Cine S. João apresenta o filme português Parque Mayer no dia 1 de outubro, pelas 21h00, nos Paços da Cultura. Os bilhetes são gratuitos, mas devem ser reservados com antecedência nos Paços da Cultura ou na Torre da Oliva.

 

 

Festival de Cinema de Arouca até dia 19

A exibição dos filmes “Spider Monkey For Sale”, de Ana Luísa Santos, e “Learning To Lose”, de Sérgio Milan, marcaram a pré-abertura do Festival de Cinema de Arouca, realizada a 10 de setembro, nos Paços da Cultura em S. João da Madeira.

Desde o dia 14 e até 19 de setembro, tertúlias, programas educativos e sessões dos filmes que concorreram a esta 18ª edição, preenchem o programa do Festival de Cinema de Arouca. Uma das conversas juntou jornalistas e pessoas ligadas à área da comunicação social para refletir sobre a importância dos festivais de cinema, o futuro do cinema, a importância do jornalismo e o formar públicos. O labor esteve presente neste momento realizado, esta segunda-feira de manhã, na Torre da Oliva.

O programa completo pode ser consultado no site do “Arouca Film Festival” e na sua página na rede social Facebook.

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