Rescaldo da primeira semana de aulas na “era Covid-19”

 

Para o diretor do Agrupamento de Escolas (AE) Oliveira Júnior, nesta “era Covid-19” que estamos a viver, se há sítio “seguro” para estar, esse sítio é a escola.

Na passada segunda-feira, antes de uma visita guiada à escola sede e uma passagem pela EB1 dos Ribeiros onde, neste último estabelecimento de ensino, entregou máscaras reutilizáveis a uma turma do primeiro ciclo (ver caixa), Mário Coelho deu a saber ao labor o que está a ser feito no AE que dirige pela segurança de alunos, professores e funcionários.

A sinalização no chão, o gel desinfetante para as mãos quase a cada esquina, os avisos a chamarem à atenção para o número máximo de pessoas permitido em determinados espaços, o uso de máscara por todos, o desfasamento de horários (aulas de manhã para os 5º, 6º, 7º e 8º anos e de tarde para os 9º, 10º, 11º e 12º), o reforço da limpeza, a existência de uma sala para cada turma e de uma mesa e uma cadeira fixas para cada aluno, a redução dos intervalos de quatro para dois, etc., não deixam margem para dúvidas quanto a ali estar a ser travada uma séria “guerra” contra um “inimigo” que, por ser invisível, os coloca em desvantagem, mas que acreditam que vencerão.

Neste agrupamento não há lugar para discursos derrotistas. Pelo contrário. “A escola ainda é o local mais seguro”, defendeu Mário Coelho em declarações à nossa reportagem, acabando por ir ao encontro do que também pensam os colegas dos restantes dois AE da cidade e o diretor do CEI – Centro de Educação Integral.

“Uma nova escola que vai ficar para a História”

No AE Oliveira Júnior, após o arranque do novo ano letivo a 14 de setembro, com aulas presenciais, apesar de algumas aglomerações de pais no exterior, sobretudo à saída, nos primeiros dias, “as coisas estão a correr muito bem”. Com a prática, a ansiedade, a apreensão e o medo, que existiam inicialmente, estão a desaparecer e a consciencialização para o que é correto fazer a aumentar.

Segundo o diretor, estamos perante “uma nova escola que vai ficar para a História”. Com vantagens e desvantagens.

Por exemplo, em seu entender, no que diz respeito ao ensino à distância, “demos passos inimagináveis”. “Aprendemos a trabalhar à distância uns com os outros.  Tanto que ainda há poucos minutos tive um conselho pedagógico à distância”, contou Mário Coelho.

Relativamente a aspetos menos positivos, referiu o distanciamento físico a que estamos obrigados e que, a ser imposto por muito tempo, pode levar à desumanização. Para além disso, não vê com bons olhos o facto de os professores, à exceção dos do 1º ciclo, não poderem circular pela sala de aula e terem de “falar com máscara”. “Já viu o que é ensinar línguas com máscara?”, questionou.

“Pontos de vista à parte”, a verdade é que “temos de continuar a chamar à atenção para o distanciamento”, disse o responsável, reforçando, de seguida, o papel da Escola na educação dos alunos: “Agora é a Escola a impor as regras, a chamar à atenção para a importância do uso da máscara, não só na sala de aula, também nos outros espaços interiores comuns”.

Até ao momento da conversa com o nosso jornal, o AE Oliveira Júnior não tinha casos de Covid-19. Apenas dois dos seus alunos, que são irmãos, se encontravam confinados em casa, por o pai estar infetado. Mas estes “nem sequer ainda vieram à escola este ano letivo”, garantiu Mário Coelho.

“Queremos uma escola o mais normal possível, mas também queremos manter a segurança”, afirmou o diretor, reforçando, ainda, a ideia que “cada um tem de olhar por si”, tomando as medidas de proteção necessárias para evitar o contágio. Seja na escola, seja em casa, seja na rua.

“Há muita falta de funcionários”

De acordo com a diretora do AE Dr. Serafim Leite, “está a ser muito difícil” para a comunidade educativa lidar com esta “nova escola” sujeita a novas regras estabelecidas pelas autoridades de saúde.

O uso obrigatório da máscara é extremamente complicado tanto para professores como para alunos, porque, à parte do desconforto que traz, ambos sentem dificuldade de comunicação”, mencionou Anabela Brandão, considerando, no entanto, que esta “é uma questão de hábito e de adaptação”.

Para além da máscara e também das concentrações de pais junto aos estabelecimentos de ensino, em seu entender, “compreensíveis na primeira semana de aulas”, “há muita falta de funcionários”, alertou a “número um” da direção do AE, para quem “a nossa sorte é que os nossos assistentes operacionais são verdadeiros heróis”.

“Já o tinham demonstrado na altura do confinamento, ao estarem sempre disponíveis para ajudar na preparação do início das obras e agora voltam a mostrar o seu compromisso com a escola e com os alunos, trabalhando de forma incansável para que tudo corra bem”, vincou a professora.

Testes dão “uma sensação errada de segurança” 

À semelhança dos outros dois agrupamentos, e “embora, antes da escola começar, [Anabela Brandão] tenha tido conhecimento de alguns alunos em quarentena”, também no AE Dr. Serafim Leite não havia, até à data do contacto do labor, casos de infeção pelo novo coronavírus.

Sobre a possibilidade de professores e funcionários serem testados antes do início das aulas, a diretora é de opinião que “é verdade que se tivessem sido testados, poderíamos isolar algum caso que pudesse aparecer, mas imaginemos que todos os testes tinham dado negativo, acho que tal poderia dar uma sensação errada de segurança”.

Tal como os seus congéneres, dos outros AE, Anabela Brandão avisou que “temos que ter presente que se num dia o teste dá negativo, no dia seguinte pode dar positivo”. E assim sendo, “com tantas interações a que estamos obrigados, a única prevenção a ter é respeitar as medidas da DGS e, se antes de nos deslocarmos para a escola achamos que temos um dos sintomas, devemos ficar em casa, informar a escola e falar com as autoridades de saúde”.

Ainda a propósito desta pandemia, fez questão de salientar que, também, “trouxe muitas coisas positivas”. A começar pelo “papel dos professores, tanto ao nível das aprendizagens, mas também enquanto agentes educativos”.

“Acho que os pais interiorizaram que os professores são essenciais na Educação”, vincou a diretora, destacando, também, “o aumento da consciência de comunidade e de obrigação de cuidarmos uns dos outros”. Aliás, na sua ótica, “esta pandemia está-nos a obrigar a olhar para os outros com olhos de cuidador”.

“A Escola, tal como a conhecemos, não voltará a ser a mesma”

“A Escola, tal como a conhecemos, não voltará a ser a mesma, o que não tem, necessariamente, de ser uma coisa má”, afirmou, por sua vez, o diretor do AE João da Silva Correia ao labor.

Para António Mota Garcia, “temos [agora] uma escola diferente que foi obrigada a evoluir de forma rápida, sobretudo, na transição para o digital, na adoção de metodologias mais ativas em sala de aula e na realização de um trabalho mais colaborativo, não só entre os docentes, mas também entre os próprios alunos”.

De um modo geral, a comunidade educativa do AE que gere “está a reagir bastante bem às novas regras de circulação no espaço escolar, respeitando os circuitos e o uso obrigatório da máscara”. Se bem que “nas horas de entrada e, sobretudo, de saída há maior concentração de alunos, comprometendo o distanciamento social recomendado”. E no que concerne às escolas básicas, “há maior concentração de pais, principalmente na hora de saída, o que é bastante compreensível, dado que os alunos são mais novos e isso gera maior preocupação por parte das famílias”. “Nesses casos, em que o distanciamento fica comprometido, o uso da máscara é um imperativo, mesmo estando os pais em espaço aberto e fora do recinto escolar”, advertiu.

Relativamente ao número de professores, este agrupamento aguarda “a substituição de três docentes”. Já no que diz respeito aos assistentes operacionais, “o número continua a ser manifestamente insuficiente”.

 CEI confirma um caso positivo de Covid-19

Ao labor, o diretor do CEI, depois de interpelado acerca do assunto, confirmou “um caso positivo detetado num aluno da sala do 6º ano”. Na ocasião, segundo Joaquim Valente, atuaram “de acordo com as regras estabelecidas em articulação com a delegação de saúde, a quem muito agradecemos toda a atenção e colaboração”.

De qualquer modo, “as medidas implementadas desde o início parecem estar a surtir o efeito esperado”, que é como quem diz a “travar a propagação do vírus na comunidade escolar, uma vez que os testes até ao momento realizados tiveram resultado negativo”. Entretanto, “e durante todo este processo, fomos fazendo comunicações diárias às famílias e publicadas no nosso site”, completou.

Passadas duas semanas de aulas, “estamos francamente agradados com a colaboração de todos: alunos, pais e toda a equipa de professores e auxiliares”, frisou Joaquim Valente, que quer” que seja promovida na via pública uma cultura de rigor, de exigência no cumprimento de todas as regras para o distanciamento e proteção”. Objetivo que, como sempre, espera concretizar com “a colaboração também da equipa do Programa Escola Segura da PSP”.

“Depois da Covid-19, nem a escola nem a sociedade em geral serão como antes. Disso ninguém terá dúvidas. Esperamos que, pelo menos em termos sociais, haja uma cultura diferente”, vaticinou, ainda, Joaquim Valente.

 

“Oliveira Júnior” é o único agrupamento a dar máscaras ao        1º ciclo

 

Apesar de a medida já ter sido “adotada por muitos países” e de a Organização Mundial da Saúde o recomendar, o Agrupamento de Escolas (AE) Oliveira Júnior é o único AE da cidade que distribuiu um kit de três máscaras, reutilizáveis (25 lavagens), aos alunos do 1º ciclo, como o laborpôde testemunhar esta última segunda-feira.

O diretor Mário Coelho disse ao nosso jornal ter tomado esta decisão “a pensar nos adultos”, por serem estes que correrão “maior risco”.

“Como se pode dar aulas ao 1º ano sem ir à beira da criança?”, questionou o docente, acrescentando: “Não vejo ser possível ensinar a ler ou a escrever sem ir ao pé da criança”.

Entre a EB1 do Espadanal e a EB1 dos Ribeiros, foram distribuídos mais de 320 kits. Para além disso, e como o nosso semanário já noticiou em edição anterior, também os restantes alunos até ao 12º ano deste AE, bem como o pessoal docente e não docente, foram contemplados por esta medida.

 

 

PSP chamada para dispersar concentraçõesde alunos

 

Não é que as escolas não estejam a “trabalhar muito bem” em termos de medidas de combate à propagação da Covid-19. A começar pela sensibilização para o uso obrigatório de máscara e para o distanciamento físico que é necessário manter. Aliás, segundo o agente José Rodrigues, mais conhecido por Tonecas, os estabelecimentos de ensino de S. João da Madeira “estão a fazer um trabalho excelente” a este nível.

Só que mesmo assim “os alunos (os mais crescidos) têm sido um problema quando saem para os intervalos”. Dentro e até mesmo fora do recinto escolar, “juntam-se aos 15 e 20” de cada vez, levando alguns assistentes operacionais a pedirem ajuda ao Programa Escola Segura (PES).

O agente Tonecas acredita que “é uma questão de tempo até interiorizarem as novas regras”. Se bem que a sua principal preocupação “é fora das escolas”, quando se juntam em vários pontos da cidade.

“É isso que temos de mudar, eles têm de ter noção que não pode estar tanta gente junta”, defendeu o agente da Polícia de Segurança Pública, para quem esta mudança implica também um papel mais interventivo por parte dos pais.

 

Pais queixam-se de “pouco tempo” para se adaptarem à     “nova escola”

 

Segundo a FECAP – Federação Concelhia das Associações de Pais de S. João da Madeira, a comunidade educativa “tem sido em geral extremamente colaborante com as novas regras, atitudes e cuidados e está num processo de habituação que sabemos não ser fácil para ninguém, mas que é necessário para o bem de todos”.

No entanto, a mesma federação tem conhecimento de “queixas” por parte de alguns pais e encarregados de educação relativamente, por exemplo, a terem “pouco tempo “para adaptarem horários às dinâmicas sociais e familiares” e até à falta de informação quanto a casos mais ou menos excecionais. Por exemplo, “quando os alunos pertencem a grupos de risco, dizem não saber se existe ou não diferenciação positiva no tipo de aulas, de cuidados a ter, etc.”, referiu o presidente da FECAP.

Em declarações ao labor, Ricardo Mota também chamou à atenção para que, com a necessidade acrescida de higienização e segurança resultante da pandemia, as escolas precisam de “mais assistentes operacionais”.

E, por falar em assistentes operacionais, a sua testagem antes do início das aulas, bem como a dos professores, seria, na sua ótica, “uma forma de assegurar que a escola iniciaria com toda a segurança sem estigmas e sem ‘ses’”.

“Nem tudo foi/é mau”

“Queixas à parte”, “nem tudo foi/é mau”. No entender do líder federativo, “o simples facto de se abrirem mentes para soluções, para além das óbvias, é por si só positivo”. Toda esta crise pandémica “obrigou as escolas e as famílias a evoluírem na sua formação e capacitação digital, à atenção de todos quanto à sua higiene, ao aumento do sentimento de proteção do nosso próximo e do coletivo (através do uso da máscara) e ao aumento de apetência a uma adaptação da escola às famílias e das famílias à escola”.

Em jeito de conclusão, Ricardo Mota garantiu que “a FECAP continua atenta e empenhada no apoio a todas as associações de pais para que possamos todos, em conjunto e em segurança, ultrapassar esta pandemia e regressar o mais rapidamente possível à normalidade mesmo que a uma nova normalidade”.

Apelou ainda aos agrupamentos de escolas “para que esta pandemia não seja justificação para afastar os pais da escola, dos conselhos de turma ou da participação parental no seu global na escola”.

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