Abraço entre a dor e a felicidade

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Impossível? Incompreensível? Ininteligível? Talvez não.

Falar da morte dos outros, e não da nossa, sobretudo quando nos parece que essa vem longe ou nunca chega, não passa muitas vezes de um exercício de retórica em que cada um procura encontrar argumentos mais ou menos convincentes. A morte de Luís Marques, porque é mesmo de morte que se trata, impressionou-me muito e fez-me pensar, não tanto na perda da vida mas no valor da vida.

Sempre amei a vida e tenho à morte um ódio de morte. Por isso considero esta determinação um acto heróico. Há pessoas para as quais viver pode ser apenas existir, com mais ou menos alegria ou mais ou menos tristeza. Mas VIVER … só tem sentido, para outros, no pleno gozo da liberdade e da beleza, como Luís Marques deixou transparecer nas palavras que justificaram a sua última vontade. Nem era tanto a dor física que o afligia, essa não existia. No entanto, a fronteira entre a dor física e a dor psíquica, para mim e para muitos, não existe. O que existe é o SOFRIMENTO. E esse não se compadece com dualismos psicossomáticos. Por isso, a superioridade da sua inteligência superou o medo na lucidez da escolha. Ele sabia e sentia que na ausência do seu corpo só havia o lugar, pequeno de mais, para viver e para conter a sua mente cansada do eremitério de uma vida inteira. Nada o demoveu da sua decisão, quando sentiu verdadeiramente que a felicidade pode estar em abraçar a dor num último amplexo da existência. Crente ou não, afirmou que a maior dádiva que Deus fez ao homem foi a morte. Mesmo assim, nada o fez estremecer e com plena convicção antecipou-se à vontade daquele que se diz ser o senhor e dono da vida. Serenamente contemplou a beleza daquela montanha e a paz daquele lago e num abraço entre a dor e a felicidade pôs fim ao SOFRIMENTO.

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