Águas passadas movem moinhos

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Sobe do rio um murmúrio de águas mansas, coado por entre os verdes plátanos, agarrados às margens pelas grossas e velhas raízes que há séculos por ali os alimentam. Espreguiçando-se pela manhã ou caloroso e manso pelo fim da tarde, o sol sempre se esgueira, aqui e ali, em jogos de luz, brincando ao sabor da brisa nas frondosas copas das árvores ou cintilando como pérolas de luz na água do rio.

Patos bravos seguem ao jeito da corrente, mergulhando em ginástica acrobática, ensinando os filhos ainda pequenitos que lhes vão no encalço, em ninhadas bem ordenadas e conduzidas. Pequenas manchas castanhas, salpicando a nudez do rio animam as águas quase paradas.

O pensamento também cai no rio e os olhos mergulham fundo até às suas entranhas. O mesmo rio, o mesmo leito, as mesmas margens, as mesmas árvores, as mesmas raízes. Só as águas não são as mesmas, apesar de parecerem paradas. Nem é mesma a vida que nelas corre.

Os olhos mergulham bem fundo, saudosos de momentos de outros dias. A mesma imagem do palácio cor-de-rosa, reflectido nas águas do rio, toma agora a cor de pedra, simples miragem do passado, iludindo o presente.

Assim aconteceu com D. Quixote, lutando contra moinhos de vento. Moinhos que o vento move, águas movidas pela saudade.

“Let bygones be bygones”, passado é passado, “it´s just water under the bridge”, é apenas água por baixo da ponte. Águas passadas não movem moinhos, mas nem tudo leva a corrente.

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