Graffiti

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Graffiti, nome plural vindo do Latim. Grafitos transformou-se numa arte que nasceu nas ruas e chegou às grandes galerias, incluindo a própria fachada da Tate Modern. Deu asas à imaginação e à criatividade nas paredes, nos muros, nas escolas, nas portas, nas casas de banho. Uma arte de aprendizagem associada a experiências transformadoras. O Maio de 68 serviu-se dessa linguagem internacional de intervenção política, nos muros de Paris. O 25 de Abril foi fértil no aproveitamento desse potencial, sobretudo na pintura de escolas deterioradas e sombrias, transformando-as, pela força da motivação e das ideologias, em lugares mais atractivos e coloridos. Era a Escola comprometida no sonho de uma vida nova. Através desses gestos e pinturas se procurava transmitir mensagens poéticas, filosóficas e de protesto. Em tempos de um predominante analfabetismo, estes graffitieram conhecidos como bíblia política dos analfabetos, como acontecera com as pinturas de Cranach, as quais ajudaram a entender a Bíblia de Lutero e por isso ficaram conhecidas pela Bíblia dos pobres.

Infelizmente, como em tudo na vida, as boas intenções nem sempre são aproveitadas como deve ser, e depressa os graffitipassaram, em muitos casos, a puro vandalismo, a pichação associada a transgressão, a estragos de lugares ou bens sociais, incluindo paredes de edifícios públicos, carruagens de metro, e de comboio. Os backjump, pinturas em comboios parados, o end to end, pintura de ponta a ponta, o train, vagão pintado ou o whole car, de alto-a-baixo, sem qualquer critério nem estética, causando danos irreparáveis em bens colectivos.

No meu tempo de professora, muitas foram as circulares e as reformas que tentámos, no sentido de chamar a atenção para a limpeza nas escolas, e longa foi a discussão que à volta disso se gerou. Sempre fui de opinião que, como espaço educativo, a Escola tivesse lugares apropriados para o exercício dessa arte e que até fossem criados concursos e premiados trabalhos. Nunca tive receio de que esta minha opinião se estendesse à sociedade em geral. Mas com a consciência de que não se pode entrar na lei do “vale tudo”. Os bens públicos e colectivos têm de ser respeitados e transgressão é transgressão. Vivemos em sociedade, temos leis que regem o colectivo que somos. Temos uma Constituição que invocamos constantemente no que respeita aos direitos e deveres nela consagrados.

Para mim a anarquia é uma utopia, por mais bem intencionada que seja a sua ilusão teórica. A própria Vida, a Natureza, o Cosmos, o Universo obedecem a leis e às ordens que delas emanam, pois se assim não fosse, o resultado seria o caos.

Sei que é polémico e discutível o que aqui defendo, sobretudo quando se trata de concepções políticas, sociais e artísticas, mas vale o que vale, ou seja, tem o valor de uma opinião. E essa opinião leva-me a considerar que é urgente reparar o que ainda tem solução, evitando, em nome da liberdade, a destruição da verdadeira Liberdade.

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