SÃO JOÃO DA MADEIRA, que modelo de cidade?

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Parte 1 – enobrecimento urbano.

“A pandemia devolve-nos a consciência do limite, ao mesmo tempo que nos obriga a refletir”.

Cardeal Tolentino Mendonça

Há já muito tempo que me questiono sobre o modelo de cidade em que São João da Madeira se insere e a ideia com que fico é que não existe um plano estratégico que nos leve a um determinado modelo. Creio mesmo que tudo o que tem sido feito nos últimos anos se deve mais a uma cosmética urbana e a ações avulso do que propriamente a um plano delineado estrategicamente, que funcione como motor de um processo de desenvolvimento económico e social.

São João da Madeira foi durante muito tempo uma cidade com raízes industriais cuja maioria dos habitantes eram operários e trabalhadores não especializados, com baixos rendimentos, que fruto do seu trabalho e fervor bairrista fizeram da cidade um marco e uma referência industrial no panorama nacional.

A cidade manteve-se durante muito tempo como um espaço que respondia aos desafios e necessidades desse modelo de sociedade, assente numa realidade social e económica pouco exigente em termos de consumo. Esta realidade, que ainda se faz sentir, embora de forma mais atenuada, é agora desajustada perante os desafios que se colocam às nossas cidades e às populações.

É por isso fundamental pensar e desenhar um modelo de cidade que a exemplo daquilo que os nossos pais fizeram se concretize numa marca distintiva. É importante refletir sobre o modelo de cidade que estamos a construir (e queremos) e sobre a marca identitária que melhor nos reflete.

Tomemos como exemplo as obras de requalificação da Praça Luís Ribeiro e as zonas envolventes. O recurso a esta ação como regeneradora e impulsionadora de uma nova dinâmica para o comércio local será ilusória ou consistente?

Uma boa parte do comércio nesta zona está envelhecido, tem pouca criatividade e está desfasado de realidades mais contemporâneas de consumo, sendo dirigido a uma população também ela envelhecida e com pouco poder de compra.

Esta realidade e este estilo de comércio definem, “para o bem e para o mal”, o espaço social, pelo que a reabilitação da praça, para ser bem-sucedida como projeto estruturante, terá que ser muito mais do que uma ação cosmética, devendo definir-se através do modelo de cidade que se pretende alcançar e através dos projetos interrelacionados (nomeadamente, do ponto de vista de investimento privado). Ou, de outro modo, estaremos uma vez mais na presença de um enobrecimento urbano sem prossecução de resultados no desenvolvimento económico e social da cidade.

É hoje comumente aceite que a criatividade é tão fundamental nos negócios como é na arte e, por isso, é fundamental que nesta renovada zona urbana, que se pretende comercial, surjam novos espaços associados a hábitos de consumo e estilo de vida mais contemporâneos e condizentes com os interesses das comunidades.

Resumindo estamos perante uma ação ilusória? Ou pelo contrário estamos na presença de um plano estratégico global que resultará numa nova dinâmica local de sucesso?

Para a afirmação de uma cidade e para a imposição da sua marca identitária é imprescindível ter uma liderança forte que não hesite em assumir iniciativas que, por vezes, têm de ser ousadas e conter em si o risco, mas que visam, enquanto política pública, o Bem Comum essencial ao desenvolvimento económico e social dos territórios.

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