Fernanda Sousa não vê a hora de voltar ao convívio que tinha nesta resposta social da Misericórdia antes da pandemia 

 

Fernanda Sousa já não vai para o Centro de Dia da Santa Casa da Misericórdia de S. João da Madeira “desde que veio esta peste”, em março último.

Foi nessa altura que começaram a surgir os primeiros casos de Covid-19 no país e a Direção-Geral da Saúde determinou, entre outras regras, o encerramento dos centros de dia, levando a vida desta e de muitos outros idosos a mudar 180 graus ou muito perto disso.

Não é que esta sanjoanense de 78 anos, residente no Parrinho, esteja mal, até porque tem três filhas e oito netos que “são muito atenciosos comigo” e a estão sempre a mimar. Mas a verdade é que sente falta do convívio, das amizades e das atividades que “me faziam sentir muito bem”.

O Centro de Dia da Misericórdia é como se fosse a sua segunda casa. Foi para lá há cerca de quatro anos, quando enviuvou, e desde então que não quer outra coisa.

Fernanda Sousa não vê a hora de voltar a estar com “elas”, que é como quem diz com as outras utentes e também as colaboradoras da instituição. “Gosto muito delas. Fazíamos de tudo: pintávamos, fazíamos jogos e bailaricos”, contou ao labor.

Agora, o seu dia a dia já não é o que era. Já não há o frenesim nem o convívio que havia no centro. Fernanda Sousa disse à nossa reportagem que faz as lides domésticas, como sempre fez. Além disso, vê televisão e vai almoçar a casa das filhas, que também a levam a passear.

Mas continua a faltar algo, que anseia voltar a ter o quanto antes. “Quem me dera que elas dissessem para ir já hoje [para o centro de dia]”, confidenciou ao nosso jornal esta antiga chapeleira de S. João da Madeira, que chegou a trabalhar “no senhor Cândido Dias”.

Centro de dia da ACAIS ainda sem data de reabertura

Desde agosto passado que os centros de dia que reúnem condições de segurança para os seus utentes podem estar abertos. Só que, volvidos três meses, continuam a ser muitos os que por todo o país permanecem encerrados. Entre estes, estão os centros de dia da cidade e outros de concelhos vizinhos.

No caso do Centro de Dia da ACAIS – Associação do Centro de Apoio aos Idosos Sanjoanenses, mantém-se fechado, porque “não conseguimos assegurar todas as condições e medidas necessárias à proteção e ao bem-estar dos nossos clientes, familiares e profissionais da nossa instituição”, explicou a diretora técnica ao labor, sem ainda poder adiantar datas quanto à reabertura.

Segundo Patrícia Coelho, “face à evolução da situação pandémica”, ainda “não é possível prever prazos para o regresso à normalidade” do Centro de Dia da ACAIS neste momento com 38 idosos em casa, 21 dos quais a usufruir do SAD (Serviço de Apoio Domiciliário), a outra valência da instituição, com capacidade para 95 utentes.

“Verificamos uma degradação do estado mental [dos idosos] muito grande”

Os efeitos colaterais psicológicos de toda esta crise pandémica que se vive já se começam a sentir, em particular junto de quem é mais vulnerável. De acordo com a também secretária da direção da ACAIS, “a privação de saída para o exterior e do convívio entre pares apresentou um grande impacto a nível psicológico e também físico”.

“Verificamos uma degradação do estado mental [dos idosos] muito grande. As patologias associadas às demências e depressões agravaram-se”, chamou à atenção, acrescentando que constataram que “clientes que eram autónomos ou semiautónomos, na presente data, estão mais dependentes de terceiros (quer da instituição ou familiares) na realização de determinadas tarefas”.

“Isso constata-se num aumento de solicitações de outros serviços, como por exemplo cuidados de higiene e conforto pessoal (CHCP), assistência medicamentosa, entre outros”, completou ainda a responsável.

Instituição realiza “contactos telefónicos semanais” com utentes

Presentemente, a ACAIS estabelece “contactos telefónicos semanais com os clientes” do Centro de Dia e envia, para os “mais autónomos e para aqueles que têm apoio de familiares, atividades de estimulação cognitiva, para fazerem em casa”.

Para já, é o que vai podendo fazer à distância, face a todos os condicionalismos para conter a propagação da Covid-19. Mas, aproveitando a troca de impressões com o labor, Patrícia Coelho apelou à “responsabilidade de todos”: “Entende-se que há uma saturação e um cansaço de toda esta situação, mas se não houver responsabilidade de todos, será bem mais difícil e demorado ultrapassarmos esta pandemia”.

E ainda em relação à instituição que dirige tecnicamente, não deixou de mostrar orgulho: “Gerir uma instituição como a ACAIS, com um SAD tão grande, é muito difícil e desgastante. Orgulhamos-mos de, até ao presente, todos os colaboradores terem testado negativo!”.

“Teria sido importante um apoio ao nível da contratação de recursos humanos especializados que pudessem ir ao domicílio”

Não muito longe de S. João da Madeira, em Escapães, o Centro de Dia da Associação do Centro Social de Escapães também está fechado.

Neste momento, a instituição de Santa Maria da Feira, que também serve alguns sanjoanenses, apenas tem a funcionar a Estrutura Residencial para Idosos (ERPI) e o SAD, com 27 e 19 utentes, respetivamente. No que diz respeito ao Centro de Dia, tem 25 idosos no domicílio, sendo que a 16 destes presta SAD, assegurando a alimentação e o tratamento da roupa.

À semelhança da ACAIS, também na Associação do Centro Social de Escapães “a saúde mental [dos utentes] agravou-se substancialmente”. Situação que Mariana Oliveira, diretora técnica, e Vânia Pereira, psicóloga, atribuem “não só ao isolamento social, mas também à quebra nas atividades internas e externas que eram realizadas”.

Os utentes da ERPI “deixaram de poder sair das instalações, de ter vida social”, de receber visitas “durante cerca de dois meses”. E os do Centro de Dia permanecem “isolados nas suas habitações”, sendo até os que mais preocupam as duas responsáveis.

Aliás, em seu entender, “teria sido importante um apoio ao nível da contratação de recursos humanos especializados que pudessem ir ao domicílio”. “Ao nível estatal poderia ter existido um apoio mais rápido e agilizado para que esta resposta social já estivesse a funcionar”, reforçaram a ideia Mariana Oliveira e Vânia Pereira.

 

Aumentam “os sentimentos de solidão, os medos e a apatia”

 Luis Ruano não tem dúvidas quanto ao facto de o isolamento social e o encerramento dos centros de dia exacerbarem “muitas manifestações” da demência, “como os sentimentos de solidão, os medos e a apatia”. Como se não bastasse, segundo o coordenador da Consulta de Memória do Serviço de Neurologia do Centro Hospitalar de Entre Douro e Vouga (CHEDV), “a diminuição do apoio de outros elementos da família e dos centros de dia provoca também uma sobrecarga sobre os cuidadores, que potencia a sua exaustão e aumenta a sua dificuldade para gerir conflitos com os doentes”.

Consequência da pandemia, esta dura realidade é atualmente vivida por muitas famílias. Mas a verdade é que o número de doentes com demência não aumentou. De acordo com o médico neurologista do CHEDV, “devido à sobrecarga de trabalho nos cuidados de saúde primários que a pandemia trouxe, há mais dificuldade de acesso a consultas com o médico de família”, fazendo com que o número de doentes enviados para a Consulta de Memória tenha chegado mesmo a diminuir em algumas fases desta crise pandémica.

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